Neste Natal, celebramos todas as oportunidades de encontro e conexão em torno dos livros, um amor comum que abre portas ao diálogo e à partilha: esta paixão é a base da nossa Comunidade Bertrand. Desde a organização de clubes de leitura à partilha de opiniões e recomendações literárias através redes sociais — e fora delas —, estamos aqui para a apoiar os laços formados pela devoção ao mundo da leitura.
Nesse sentido, tivemos a oportunidade de conversar com Filipe Bica, que nos contou sobre como é pertencer a esta comunidade literária, e sobre as ligações humanas que a constroem, todos os dias.
Quem é o Filipe Bica enquanto leitor? Quando e como começou o teu amor pelos livros?
O Filipe, enquanto leitor, é muito eclético, diria eu. Gosto sempre de dar uma oportunidade a um novo autor ou um novo género. Apesar de ter uma preferência por thrillers, policiais e romances, não fecho a porta à poesia ou à fantasia. Para termos uma opinião fundamentada, é preciso saber do que se trata; não posso dizer que não gosto de um determinado livro só porque outra pessoa também não gostou. Ao contrário de muitos leitores, não posso dizer que a leitura foi uma paixão desde pequeno! Aliás, ainda hoje, nos almoços de família, a minha madrinha costuma contar que teve receio de que eu não viesse a gostar de ler. Felizmente, com o tempo, o amor pelos livros foi crescendo, e hoje é algo sem o qual não passo.
E como surgiu a vontade de fazer parte desta comunidade, de partilhar esta paixão online?
Durante a pandemia, senti falta de falar com pessoas que partilhassem a mesma paixão que eu. Apesar de ter alguns amigos que também liam, não falavam muito sobre livros nem me sugeriam novos autores. Na altura, achei que ia fazer algo inovador: criar uma página dedicada aos livros (era um sonhador...). Criar a página foi mais do que partilhar livros, foi abrir uma porta para um mundo onde a paixão pela leitura une pessoas. Descobri que há uma energia especial quando nos ligamos a outros leitores, quando trocamos ideias, autores, histórias. Todos os dias, aprendo algo novo, conheço alguém com uma visão diferente, e sinto que faço parte de algo maior. É incrível perceber que os livros não só nos transformam, como também nos aproximam. A verdade é que nem tudo na comunidade é perfeito. Há momentos menos bons, opiniões que chocam, desilusões e egos que se cruzam. Mas, mesmo assim, encontrei pessoas incríveis, leitores apaixonados que hoje considero grandes amigos.
Por vezes é difícil encontrar tempo para ler, e ainda mais será fazer conteúdo sobre as nossas leituras. Como equilibras a produção de conteúdos para a tua página @somos_o_que_lemos com a tua vida profissional?
Encontrar tempo para ler e criar conteúdo para a página, enquanto se vive a correria do dia a dia, não é fácil... mas é possível. Na verdade, na página, não partilho só livros; partilho momentos, reflexões, e a prova de que é possível viver intensamente e ainda assim manter espaço para a leitura. Para mim, ler não é apenas um passatempo, é uma forma de respirar, de me reencontrar. O meu trabalho exige muito de mim, é mentalmente intenso e, por vezes, esgota-me. Os livros tornaram-se no meu refúgio, o lugar onde encontro silêncio (sim, sou daquelas pessoas que não consegue ler com barulho, até com uma mosca me distraio), sentido e descanso. São mais do que histórias: são espaços seguros onde posso ser apenas leitor, sem pressões, sem metas. E se num dia não consigo ler, também está tudo bem. Isto não é uma corrida, nem uma competição. É uma relação que se constrói com tempo, com respeito pelo ritmo da vida e pela nossa própria energia. Não é preciso ler durante horas ou publicar todos os dias para continuar ligado a esta paixão. Às vezes, bastam dez minutos com um bom livro ou uma conversa rápida com alguém da comunidade para reacender o entusiasmo. O importante é manter viva a ligação; com leveza, autenticidade e sem culpa. Porque, no fim, tudo se resume a encontrar equilíbrio… e a cultivar o amor pelos livros ao nosso próprio ritmo.
"Criar a página foi mais do que partilhar livros, foi abrir uma porta para um mundo onde a paixão pela leitura une pessoas."
Tens casos de seguidores que tenham descoberto um livro importante e que os tenha marcado por tua causa? Podes compartilhar algum?
Sim, tenho vários. Quase todas as semanas, alguém me envia uma mensagem a dizer que gostou de um livro do qual falei com entusiasmo. Há um livro em particular que marcou muitos leitores: Onde crescem os limoeiros, de Zoulfa Katouh. Foi um dos meus favoritos de 2023 e recomendo a todos os que queiram ficar com o coração apertado! Também já recebi mensagens de pessoas que adoraram livros que eu não gostei (e vice-versa). E isso é das coisas mais interessantes nesta partilha: perceber como cada livro toca cada leitor de forma diferente. A leitura é profundamente pessoal, os livros que mais me emocionam podem não dizer nada a outra pessoa, e está tudo certo. É essa diversidade que torna a comunidade tão rica. Há sempre um livro para cada um de nós.
O teu lema é “somos o resultado dos livros que lemos, das pessoas que amamos e dos lugares que visitamos”. Podes dizer-nos um livro, uma pessoa e um lugar que te marcaram em particular, seja na forma de ver a leitura ou a vida?
Acredito que cada livro, cada pessoa e cada lugar nos acrescenta alguma coisa. O universo sabe o que faz, mesmo quando parece estar a pregar-nos partidas. Se tivesse de escolher uma viagem marcante, diria a Indonésia. Foi um país que me ensinou muito, não só pela beleza natural, mas pela forma como as pessoas vivem. Com muito pouco, são felizes; sempre com um sorriso, uma palavra gentil e uma serenidade que nos desarma. Na altura, estava a atravessar uma fase menos boa, e senti que esta viagem me ajudou a abrandar, a respirar e a ver as coisas com outros olhos. E, sim, fiz mesmo um ritual de purificação (daqueles que vemos nos filmes e que, confesso, sempre achei um bocadinho exagerados). Entrei a rir, meio cético, e saí surpreendido com o efeito que teve em mim. Foi um momento inesperadamente transformador, como se tivesse deixado para trás um peso que já não me pertencia. Uma pessoa que me inspira todos os dias é a minha mãe. É uma mulher forte, resiliente, e com uma capacidade de resistência que admiro profundamente. A vida foi injusta para com ela, e, mesmo assim, nunca desistiu. Inspira-me até nas falhas porque ao olhar para ela, percebo que quero fazer diferente, quero fazer melhor. Não por ingratidão, mas por amor: porque quero que o esforço dela tenha valido a pena, e porque acredito que podemos sempre evoluir a partir do que recebemos. E claro, os livros. Dois que me marcaram: A medida, de Nikki Erlick, e Os dois morrem no final, de Adam Silvera. Nunca tive medo de morrer, mas tenho medo de não viver como deve ser. No primeiro, cada pessoa recebe uma caixa com uma corda que representa o tempo de vida, e, não, não dá para pedir uma mais comprida. No segundo, recebes uma chamada 24 horas antes de morrer. Dá para fazer as pazes, correr riscos, dizer o que nunca disseste. Ambos me deixaram a pensar: e se fosse hoje? Estou a viver ou só a cumprir tarefas?
É incrível perceber que os livros não só nos transformam, como também nos aproximam.
Se só pudesses ler um género literário daqui em diante, qual escolherias e porquê?
Escolheria os thrillers, sem pensar duas vezes. Gosto de livros com ritmos frenéticos, que me deixam com o coração a bater mais rápido e a cabeça a tentar adivinhar o que vem a seguir (aquele ritmo inebriante de virar página atrás de página, até terminar). A sensação de suspense dá-me uma espécie de adrenalina literária, como se estivesse a viver uma aventura sem sair do sofá. Mas há outra razão pela qual gosto tanto deste género: fascina-me conhecer o lado mais sombrio do mundo (só para que saibam, a minha série televisiva preferida é Criminal Minds). Assusta-me, claro, mas também me impressiona. É incrível (e perturbador) perceber até onde o ser humano pode ir. Às vezes, dou por mim a pensar: “Como é que alguém inventou isto?”. E o mais curioso é que muitos desses autores, que escrevem sobre crimes horríveis e mentes retorcidas, parecem as pessoas mais fofinhas e tranquilas do mundo. É quase irónico… mas também genial. Será que deveria ter medo de estar ao pé deles?
Que conselho darias a quem está a começar agora no mundo bookstagram e booktok, ou outro espaço online no universo dos livros?
Se há um conselho que posso dar a quem está a começar nesta aventura da criação de conteúdo literário, é este: façam-no por vocês. Não pelos likes, nem pelas parcerias com marcas que oferecem um livro em troca da vossa alma, ou pela tão tentadora validação externa. Façam-no porque vos apaixona, porque faz sentido para vocês, porque têm algo a dizer (nem que seja “este livro teve um plot twist tão brutal que fiquei imóvel, a olhar para o vazio, como se tivesse acabado de descobrir que o meu autor favorito me traiu. O meu cão veio encostar o focinho ao meu joelho, com aquele olhar de ‘queres conversar sobre isso?’… e sinceramente, quase aceitei.”). E, por favor, não comprem seguidores. É como encher uma sala com manequins e depois perguntar “estão a gostar do conteúdo?” (spoiler: eles não respondem). Os números não são tudo, apesar de vos parecer bom para o ego, é desonesto para com quem vos segue e, acima de tudo, para convosco. Ter uma comunidade pequena, mas genuína, é como ter um clube do livro onde toda a gente sabe o nome do gato do outro. Vale muito mais do que milhares de contas que nem sabem se vocês leem romances ou manuais de jardinagem (coisa que eu detesto porque não gosto de sujar as mãos). Aproveitem o processo. Vão falhar, vão acertar, vão rir, vão desesperar com o algoritmo. Mas vão crescer com isso. Vão conhecer pessoas incríveis, descobrir autores que não aparecem nas prateleiras da Bertrand e, sim… a vossa lista de livros por ler vai crescer a um ritmo assustador. A minha já vai em mais de 500 (mas não digam a ninguém!). No fim, o mais importante é isto: divirtam-se. Porque ler é incrível, partilhar é mágico, e criar conteúdo sobre livros é uma das formas mais bonitas (e ingratas, claro!, não vão enriquecer como os criadores que promovem tecnologia ou roupa) de espalhar histórias pelo mundo.
"Não é preciso ler durante horas ou publicar todos os dias para continuar ligado a esta paixão."
A comunidade em torno dos livros é, cada vez mais, concretizada no mundo virtual dos nossos ecrãs, à distância. Mas há ainda momentos de conexão presencial, nas livrarias, clubes de leitura, sessões ao vivo. O que consideras mais especial nestes momentos?
É verdade que, hoje em dia, quase tudo acontece através de ecrãs: apresentações, discussões de livros, comentários, saber como corre a vida do amigo de infância... até os parabéns são por emoji. Mas sejamos honestos: nada substitui aquele momento cara a cara, com café e um livro na mão. O digital facilita, claro. É rápido, prático e salva-nos em dias de chuva. Há coisas que só acontecem quando estamos juntos: aquela troca de olhares cúmplice, os risos espontâneos e até os silêncios que dizem muito. Quem gosta de ler sabe que a leitura é um hobby solitário por natureza. Estar com outras pessoas, mesmo que cada um esteja mergulhado no seu próprio livro, é a forma especial de partilhar silêncio, histórias e presença. Por isso, sempre que possível, que tal desligar os ecrãs e ligar o modo presencial? Prometo que não há necessidade de "Estás em mute..." nem "Conseguem ver-me?"