Revista Somos Livros — Natal 2022

Por: Bertrand Livreiros a 2022-12-09

“— Se experimentasse, era capaz de gostar. 
— Nunca o fiz. Ela passou a língua pelos lábios. 
— E sabe tão bem a chuva! 
— Então passa a vida nisto, a experimentar tudo uma vez? 
— Às vezes duas.” 
Diálogo entre Clarisse Mclellan e Guy Montag em Fahrenheit 451, de Ray Bradbury

 

Há 100 anos, Jimmy Gralton foi obrigado a abandonar Leitrim, sua terra natal, quando a guerra civil desencadeada pelo controverso Tratado anglo-irlandês, que criou o estado Livre Irlandês, pendeu para os pró-Tratado. Jimmy regressou de Nova Iorque dez anos depois, após a vitória do Fianna Fáil (o partido republicano criado em 1926 por Eamon de Valera), e decidiu recuperar e reabrir o Pearse-Connolly Hall, o salão que construíra junto à casa de seus pais para instrução e recreação da comunidade local. 

Apesar da mudança política, os ventos eram contrários num ano em que o Congresso Eucarístico Internacional se realizou em Dublin, juntando um milhão de pessoas, em que novas leis restringiam as liberdades sociais e os eclesiásticos diabolizavam a dança, o jazz e as “tendências imodestas no vestuário feminino”1. Na véspera de Natal de 1932, o Salão de Jimmy foi incendiado durante a noite e totalmente destruído. Segundo o historiador Dónal Ó Drisceoil, elementos da fação conservadora do IRA (Irish Republican Army, criado no início da Guerra da Independência da Irlanda) foram os executores de um conluio que envolvia a igreja católica, alguns latifundiários e elementos da polícia local. Em fevereiro, Jimmy — que, apesar de irlandês, se havia naturalizado norte-americano — recebeu ordem de deportação, executada em agosto desse ano. Até à sua morte, em 1945, não mais pôde regressar à Irlanda. 

O filme que Ken Loach dedicou, em 2014, ao Salão de Jimmy (Jimmy’s Hall) permite-nos compreender por que era tão temido. O pároco local, Sheridan (Jim Norton), explica ao jovem padre Seamus como as aulas de dança ou a grafonola de Jimmy podem subir à cabeça: “Primeiro, são as danças, depois vêm os livros. Ele começa por baixo, pelos pés deles, depois vai avançando até aos seus cérebros.” Perante o ceticismo de Seamus, Sheridan contrapõe-lhe Karl Marx “Um homem, um livro, mudaram o mundo.”

Naquele espaço de educação, cultura e debate político — fazendo lembrar os centros republicanos que em Portugal, ainda antes da Implantação da República, proporcionaram instrução e sociabilidade política e cultural —, era possível ter aulas de dança, desenho ou poesia, dançar música tradicional irlandesa ou ouvir os discos de jazz que Jimmy trouxera na sua bagagem transatlântica.

Acredito que Agustina Bessa- Luís e José Saramago, cujos centenários e obras evocamos nestas páginas, teriam gostado do Salão de Jimmy. Agustina apreciava as variedades do Music Hall e, em criança, dizia que queria ser professora ou bailarina. Saramago empenhou-se nas mesmas causas políticas de Gralton e, não por acaso, dedicou Levantado do Chão a Germano Vidigal e José Adelino dos Santos, ambos assassinados pela PIDE, um romance cujo título explicou assim: "Levantam-se os homens do chão, levantam-se as searas, é no chão que semeamos, é no chão que nascem as árvores e até do chão se pode levantar um livro.”

A eloquência do padre Sheridan, no filme de Ken Loach, assemelha-se à de Beatty, o comandante dos bombeiros incineradores de livros em Farenheit 451, herdeiro de outras personagens que se comprazem com a própria vilania. Possuidor de um isqueiro com “um milhão de chamas garantidas”, Beatty explica a Guy Montag como os livros ameaçam os “defensores da paz de espírito”: “Um livro é uma arma carregada na casa ao lado. Queimemo-lo. Tiremos as munições da arma. Abramos a mente do homem. Quem sabe qual será o alvo de um homem com a cabeça cheia de livros?” 

Estas ideias não são ficção; ou passado. Como recorda Alberto Manguel, na entrevista central desta edição, a destruição dos livros sempre existiu “porque os livros representam a liberdade de pensamento. A liberdade de cada um poder pensar.” O que nos reenvia à obra de Ken Loach e ao momento em que Alice (Aileen Henry), a mãe de Jimmy, que conquistara muitos jovens leitores em Leitrim com a sua biblioteca móvel, interpela a autoridade municipal, tentando evitar a deportação: “Que pode uma mãe dizer quando prestes a perder o seu filho? Parte de mim quer gritar outra vez como no parto, e parte de mim quer perguntar… Qual é o crime? Porque é que um velho salão é tão perigoso? Serei eu a culpada por lhe ter dado livros, ensinando o rapaz a pensar e a fazer perguntas?”

A literatura é profundamente transformadora, como se percebe na recordação de infância partilhada por Irene Vallejo: “O que mudou a minha vida foi o meu pai ter decidido contar-me a Odisseia, de Homero.” É também universal, sem passaporte. Como diria Alberto Manguel, Irene Vallejo descobriu que Homero era da sua família — que podia escolher o seu sangue através da literatura2

Neste Natal, quando visitar a sua livraria Bertrand e os nossos livreiros o surpreenderem com aquele livro que desconhecia e tiver uma vontade irresistível de começar a lê-lo imediatamente; quando escutar, num fim de tarde, o seu autor favorito enquanto a chuva percute os vidros da livraria; quando observar aquele brilho inconfundível nos olhos de uma criança (imersos num livro recém-aberto), desmentindo, mais uma vez, o futurólogo que, na cimeira de Davos de 2008, profetizava o desaparecimento do livro antes de 2023… Nesse instante, lembre-se do Salão de Jimmy e de como Mossie (um dos seus companheiros) o definiu:

 “Construímos este salão com as nossas próprias mãos. Entregámo-nos completamente de alma e coração. Não é apenas um edifício, é o que nós somos.” 

Feliz Natal.


1. Dónal Ó Drisceoil, Days of brave music at Jimmy’s Hall (http://www.irishexaminer.com/liIfestyle/arid-20269834.html).
2. Aludo à entrevista que Alberto Manguel concedeu a Raquel Marinho, em 2020 (disponível em www.casadaamericalatina.pt).

X
O QUE É O CHECKOUT EXPRESSO?

O ‘Checkout Expresso’ utiliza os seus dados habituais (morada e/ou forma de envio, meio de pagamento e dados de faturação) para que a sua compra seja muito mais rápida. Assim, não tem de os indicar de cada vez que fizer uma compra. Em qualquer altura, pode atualizar estes dados na sua ‘Área de Cliente’.

Para que lhe sobre mais tempo para as suas leituras.