Editorial — O perigo de uma única história

Por: Elísio Borges Maia a 2023-04-10

(…) Eu não sabia que pessoas como eu podiam existir na literatura. Por isso, o que a descoberta dos escritores africanos fez por mim foi isto: salvou-me de ter uma única história do que os livros são.” 
Chimamanda Ngozie Adichie, The Danger of a Single History, TEDGlobal 2009.


Não sei precisar há quantos anos, mas foi a minha filha, com aquele brilho nos olhos que não admite recusa, a impelir-me a ver a conferência TED a que larapiei este título. As palavras e os livros de Chimamanda Ngozie Adichie transformaram-me — enquanto leitor e pessoa. Chimamanda combate silenciamentos vários. Ainda hoje, a Guerra de Independência do Biafra (à qual dedicou Meio Sol Amarelo, seu segundo romance) é um tabu na Nigéria. Uma guerra que não começou em maio de 1967, quando o povo Ibo declarou a independência, mas quando os colonizadores ingleses cingiram nações diferentes numa única.
 

Neste abril com dia marcado para a festa da nossa democracia (agora um ano mais velha que a ditadura), celebramos o superpoder dos livros: a capacidade de nos salvar de uma história só.
 

Falamos de escritores que recusam submeter-se a limites territoriais. Escritores de pátria adotiva ou de pátria nenhuma. Escritores em que a sua obra — de tão grande, tão original — fintou o espaço e o tempo. Ondjaki, com quem conversámos, revela-nos as literaturas que lhe fazem falta, as suas geografias afetivas, e como um livro só (de Ionesco) lhe “desfronteirizou da vida quotidiana da vida literária”. Deu-nos, assim, um nome para o superpoder dos livros: desfronteirizar.
 

Há muitos séculos que as fronteiras não detêm os livros. No último quartel do século XVIII, Maria Clara Rey Bertrand liderou a importação para Portugal dos livros das luzes e o contrabando daqueles que eram proibidos. A mesma mulher que (perto dos 80 anos) esteve para ser expulsa de Portugal durante as invasões francesas. Porquê? Prevaleceu então uma história única dos franceses, mesmo se aqui viviam há décadas. Hoje, por motivos idênticos, cancelam-se autores russos, até os mortos.
 

Na era em que imperam os algoritmos, os motores de pesquisa a que nenhuma fonte (verdadeira ou falsa) consegue escapar e debutam os chatbots1 com resposta para (quase) tudo, o perigo de uma única história não desapareceu. Pelo contrário.
 

Ninguém está imune. Chimamanda é a primeira a reconhecê-lo, recordando a sua visita ao México num momento em que a imprensa americana tratava imigrantes e mexicanos como sinónimos: é assim que se cria uma única história, apresenta-se um povo como uma coisa só, repetidamente, e é isso que ele se torna. Com essas lentes postas, podemos ver uma África única (um oxímoro do tamanho deste continente que representa um quinto do solo terrestre); uma história única do Brasil, o sexto país mais populoso do mundo; ou um só fado para este pequeno país com um passado colonial de cinco séculos — Portugal. E a incompletude não é o maior perigo: muitas vezes, a história única é simplesmente falsa.
 

Os livros são dos melhores antídotos para este veneno, mas não os únicos. A música e a poesia de Luca Argel desmascaram a desafricanização do samba que antecedeu a sua elevação a símbolo nacional e trazem as pessoas historicamente periféricas e marginalizadas para o palco — para o centro do debate e do conhecimento. E não é pouco, como explica Grada Kilomba: “De repente, quem por regra é invisível torna-se visível, e quem é sempre visto torna-se invisível. Quem por regra é silencioso começa a falar, enquanto quem sempre fala fica em silêncio.” 2.
 

Com dificuldade nos colocamos no ponto de vista do outro. Em parte, porque o ignoramos. Fruto de uma hierarquia que define quem pode falar; do que se deve falar. Enquanto a descolonização do conhecimento continuar por fazer, a História dos outros, quem a contará? 3

 

1. Programa desenhado para simular uma conversa com utilizadores humanos, utilizado sobretudo em ambiente online.
2. Grada Kilomba, Memórias da plantação, Orfeu Negro, 2022.
3. José Mário Branco, Canto dos torna-viagem, do álbum Resistir é vencer, 2004.

X
O QUE É O CHECKOUT EXPRESSO?

O ‘Checkout Expresso’ utiliza os seus dados habituais (morada e/ou forma de envio, meio de pagamento e dados de faturação) para que a sua compra seja muito mais rápida. Assim, não tem de os indicar de cada vez que fizer uma compra. Em qualquer altura, pode atualizar estes dados na sua ‘Área de Cliente’.

Para que lhe sobre mais tempo para as suas leituras.