“Eu não gostaria que a minha literatura andasse acompanhada de algum passaporte regional”
A primeira vez que vi Ondjaki falar sobre livros para um grande auditório foi nas Correntes D'Escritas, na Póvoa de Varzim. O tema da mesa era a Pedra Filosofal e eu gostei tanto da sua intervenção, dedicada às suas duas mães e 17 avós, que, logo na altura, pensei que queria entrevistá-lo para o meu podcast "O Poema Ensina a Cair".
O convite foi quase imediato mas só conseguimos acertar agendas mais de um ano depois. Quando, finalmente, nos sentámos para gravar uma entrevista em volta das suas escolhas poéticas, confirmei a intuição inicial de que seria uma muito boa conversa. Não apenas pelas escolhas que trouxe, mas sobretudo pela forma como olha o mundo, que é simultaneamente a forma de olhar as pessoas e os livros.
O nome Ondjaki significa “aquele que enfrenta desafios” ou “guerreiro” na língua umbundo, e é por esse nome que o conhecemos, mas Ondjaki chama-se Ndalu de Almeida. Nasceu em Angola, Luanda, em 1977, numa família de contadores de histórias. É licenciado em Sociologia, doutorado em Estudos Africanos e membro da União dos Escritores Angolanos.
Publicou o primeiro livro Actu Sanguineu aos 23 anos, e depois desse mui tos outros, numa obra que mereceu várias distinções em diversos países. O Prémio Saramago ou o Prémio de Conto da APE são apenas alguns exemplos. Mais recentemente, já este ano, Ondjaki venceu o Prémio Literário Vergílio Ferreira 2023, e o júri destacou o contributo do autor para que a língua portuguesa seja língua de reconciliação.
Diz que a escrita é a sua casa e que sai para outros ambientes, as artes plásticas ou o cinema, como quem faz excursões ou incursões para voltar sempre aos livros. Escreve romance, conto e poesia, e, hoje em dia, tem sempre poesia por perto, seja nos sacos ou mochilas do dia a dia, seja nas várias mesas de cabeceira dos lugares onde costuma estar.
E não é por acaso que refiro as várias mesas de cabeceira de Ondjaki. Nesta entrevista debruçamo-nos sobre a ideia de a literatura não ter passaporte e, uma vez mais, Ondjaki revela esse estar no mundo que, não deixando de ser africano, pretende ultrapassar as fronteiras físicas e, sobretudo, as políticas.
“(...) Há muitos anos que eu, realmente, me permiti pensar, brincar e escrever numa língua portuguesa minha.”
Raquel Marinho — Dizes que escreves para levar mundo e mundos às pessoas. Pensando na questão da geografia, crês que aquilo que escreves tem um passaporte?
Ondjaki — Sinto que a minha maneira de me expressar na literatura, digamos, o modo como eu consigo traduzir o meu mundo interior em palavras (sobretudo em ficção, mais do que na poesia) vai com uma marca cultural. Se essa marca cultural aponta para Angola ou para o continente africano, eu não sei. Eu escrevo em português, não escrevo noutra língua. E creio que não escrevo em português de Portugal. E também estou em crer que não escrevo em português do Brasil. Portanto, acho que me sobram outras línguas portuguesas. Digo isto porque, de facto, há escritores cuja marca estética é demasiado evidente.
E associamos essa marca estética a um passaporte, a uma nacionalidade?
Eu não creio que seja associada a um passaporte ou nacionalidade, mas é associada a um modo de falar e de escrever a língua portuguesa, que por sua vez creio que estão demarcadamente angolanizados, digamos assim. Mas deixando a ressalva de que, de facto, isso em mim não é tão intencional. Mesmo a minha língua portuguesa pessoal, creio que varia muito de projeto para projeto. Escrever O Assobiador foi diferente de escrever o Quantas Madrugadas Tem a Noite. Eu cito esses dois exemplos porque um é mais suave e mais delicado nas suas peripécias gramaticais e estéticas, e o Quantas Madrugadas Tem a Noite tem o problema de ser um livro que se passa e que é falado na primeira pessoa, numa primeira pessoa de um homem luandense. Portanto, não é um homem angolano, é um homem altamente luandense. Nesse sentido é que eu quero dizer que a estética da minha escrita, por vezes, denuncia o meu lugar de origem. Mas eu não gostaria que a minha literatura andasse acompanhada de algum passaporte.
“(…) O livro não é só a linguagem.”
Usaste uma expressão curiosa — “minha língua portuguesa pessoal” — para falar da língua que usas ao escrever.
Sim. Porque há muitos anos que eu, realmente, me permiti pensar, brincar e escrever numa língua portuguesa minha. O que eu quero dizer com isto é que quando escrevo, para mim, estou a usar essa língua com um efeito literário. Mas quando eu falo com os meus sobrinhos, quando eu vou a uma escola, seja em Portugal seja em Angola, realmente a língua que uso para me fazer entender é uma língua pessoal. Dito isto, gostaria de acrescentar que em Angola não existe só uma língua portuguesa. Existem várias línguas portuguesas de acordo com as variações geográficas, mas também de acordo com as variações étnicas dos vários grupos existentes em Angola. É diferente. Eu também creio que em Portugal existem várias línguas portuguesas mas isso acontece, digamos, devido a algumas influências um pouco mais regionais. Aqui não estou a falar de sotaque, não estou a diferenciar o sotaque das ilhas dos Açores do sotaque do continente, estou apenas a dizer que, talvez por várias razões, lá nos Açores pequenas características se tornam açorianas na língua portuguesa. Em Angola ou em Moçambique não é apenas isso. É que Luanda é uma região Kimbundu, Huambo é uma região de influência Umbundu, o norte é de influência Bakongo, etcétera, etcétera. E isso realmente vai dar…
Cada uma delas traz palavras novas.
Comporta aproximações distintas.
Disseste que não gostarias que a tua língua, e eu imagino que seja também a tua língua literária, tivesse um passaporte. Porquê?
É mesmo a língua literária. Eu não gostaria que a minha literatura andasse acompanhada de um passaporte regional. Por regional quero dizer apenas angolano, não é? A questão é que os livreiros e os editores do mundo por vezes precisam de arrumar a literatura em zonas ou em passaportes. Eu penso que, sendo claro que o escritor vem de um lugar e de alguma inserção cultural, a linguagem dos escritores é muito pessoal. Não estou a dizer que não haja escritas parecidas, mesmo em Angola há escritas parecidas, mas eu em momento algum consigo achar o Valter Hugo Mãe perto do Gonçalo (M. Tavares) ou do (José Luís) Peixoto, ou da Raquel Patriarca ou da Joana Bértolo.
Só porque falam a mesma língua.
Só porque têm o mesmo passaporte. Porque esses autores têm um passaporte português, não me parece que consiga ver o mesmo passaporte português nas literaturas deles. Também porque o livro não é só a linguagem. É o imaginário, é o conteúdo, etc.
Mas e nas histórias que os livros trazem há um passaporte? Tu és um escritor que nasceu em Angola, vive uma parte do seu tempo em Angola, e que tem histórias declaradamente angolanas. Há outros autores que podemos referir aqui — podemos falar do continente africano mas podemos ficar em Portugal — que têm histórias declaradamente portuguesas. Isso confere-lhes um passaporte literário ou também não?
Eu creio que a própria ideia de passaporte é uma ideia feia. É uma ideia…
De fronteiras.
Exatamente. É uma ideia que ajuda a fortificar o conceito de fronteira. E, como sabemos, quando se começa a trabalhar com pátria, fronteira, nação, etcétera, num sentido menos bom, estamos a tentar reinventar relações de poderes. E, normalmente, quem está interessado em inventar relações de poderes ou explorar relações de poderes é a pessoa que tem mais poder sobre o outro. Nunca uma pessoa que tenha menos poder aquisitivo ou menos poder político ou financeiro vai dizer ao outro “já agora, vamos falar de quem é que tem aqui mais poder”. Portanto, a própria ideia de passaporte é uma ideia perigosa, que eu compreendo do ponto de vista estrutural do documento, mas é preciso salvaguardarmo-nos desta enorme confusão: um passaporte não é uma pessoa. Um passaporte diz que a determinada pessoa está atribuído um documento, com um número e uma fotografia. É só isto. Um passaporte não deveria dizer que um cidadão americano deva ou possa circular mais livremente que um cidadão peruano ou nigeriano. Por isso é que eu digo que acho difícil vermos os livros perto dos passaportes.
Mas as histórias não têm passaporte? Tu não és angolano, antes de qualquer coisa?
Não. Eu discordo. Eu gostaria de ser um escritor só, antes de qualquer coisa. Gostaria de ser… até pode ser “olha, aquele fulano escreve mal, aquele fulano não escreve tão bem”, mas não creio que seja necessário dizer “aquele angolano que escreve tão bem ou que escreve menos bem”.
E se for “aquele escritor que escreve histórias do país dele” não se lhe atribui um passaporte?
Eu acho que dizermos “as histórias do seu próprio país” é uma ideia que tenderá a ser abandonada.
Porquê?
Porque já passámos o tempo em que foi tão importante as grandes narrativas serem, digamos, narrativas nacionais, que explicam toda uma nação, e também já começou um tempo onde as pessoas, tanto o leitor quanto o escritor, estão mais alerta em relação a quem é que usa esse tipo de discurso, a quem interessa, vamos chamar assim, uma literatura nacionalista. Os mitos fundadores de cada nação, se os olharmos de perto, à lupa, vemos que são muito parecidos. Não há, digamos, grandes narrativas. Há grandes eixos narrativos que depois, sob formatos culturais diferentes, vão sendo explorados por aquilo a que chamamos a literatura chinesa, a literatura portuguesa, a literatura galega, a literatura francesa.
E podemos dizer ou não que, apesar de o escritor Ondjaki escrever algumas histórias cuja inspiração ou narrativa se situa num lugar geográfico, essas histórias não têm passaporte porque quando são lidas levam as pessoas para outros lugares. Podemos ir por aqui?
Não sei. Às vezes eu tenho a sensação de que, para mim, o modo de contar fala um pouco mais alto do que aquilo que se está a contar. É um elemento de contradição mas é verdade que eu sinto, às vezes, que há um modo brasileiro de contar, há um modo português de contar, há um modo moçambicano de contar as coisas. Não sei se depois esse conteúdo deverá ser descrito como apenas moçambicano ou apenas português. Não sei, acho que seriam classificações demasiado fechadas para aquilo a que a literatura se propõe. A literatura propõe-se, creio eu, justamente numa outra direção. Propõe-se abrir caminhos. Desfronteirizar. E tudo o que é fronteira, passaporte, conceito fechado, são coisas que…
São, por definição, opostas ao que a literatura se propõe.
Acho que sim. Deveriam ser.
“A literatura propõe-se, creio eu, justamente numa outra direção. Propõe-se abrir caminhos. Desfronteirizar.”
Há uma ideia clássica, creio que atribuída ao Tolstoi, que diz “se queres ser universal começa por contar a tua aldeia”, ou “pintar a tua aldeia”. É uma ideia interessante, na medida em que nos diz que o que importa mais não será a minha ou a tua aldeia específica mas o facto de, quando as contamos, elas poderem chegar a toda a gente. Concordas com esta ideia?
Sim. Eu acho que é uma boa direção. Nessa frase, eu leio a aldeia como a aldeia de dentro. Há também aldeias dentro de nós. Mesmo eu querendo falar de uma aldeia externa — e por aldeia pode ser o meu bairro, pode ser a minha cidade, pode ser o meu país, e até pode ser o meu continente, eu posso querer considerar África uma aldeia e depois mandar uma mensagem às outras aldeias —, mas será sempre a perspetiva, e quando digo perspetiva digo sensibilidade, de determinado ser que está a narrar, a construir.
Por exemplo, no caso de Luandino Vieira, creio que a grande aldeia da qual ele falou, sim, evidentemente que o nome dessa aldeia é Luanda, mas era uma versão tão própria e única que o que ele tentou, na minha opinião, foi relacionar uma coisa que é fundadora tanto da literatura como do ser humano: a infância. A grande aldeia abordada pelo Luandino (Vieira) é a infância. A grande aldeia abordada por Guimarães Rosa no livro Grande Sertão Veredas é uma aldeia universal chamada amor. Não é o sertão, Minas Gerais. É também, mas não só. Então, creio que o conceito varia de autor para autor, mas creio que é possível falar de aldeias para falar do mundo. E creio também que um bom escritor, uma boa escritora, pode falar do mundo para chegar depois a falar só de uma aldeia. Não é um caminho obrigatório, mas acho bonito. Porque nós não podemos abarcar o mundo, então que abarquemos uma aldeia como se estivéssemos a falar do mundo.
Falaste do Guimarães Rosa. Um dos teus autores favoritos é o Manoel de Barros, que também é brasileiro. Tu achas que quando lemos a poesia de Manoel de Barros estamos a ler a poesia de um autor brasileiro ou estamos a ler um poeta, independentemente do local de onde ele é?
Então, eu creio que primeiro estamos a ler um poeta, depois estamos a ler uma criança — e o Manoel de Barros, quando publicou e o conhecemos, já não era da aldeia das crianças, era da aldeia dos adultos —, mas o que ele estava a tentar dizer, mesmo literariamente e creio que até na vida dele, é “eu recuso um pouco a aldeia dos adultos”. A partir daí, claro que ele é um cidadão brasileiro e é conhecido como escritor brasileiro, e se lhe tivessem atribuído um nobel ou o Prémio Camões, que eu acho que é uma grande falha não lhe ter sido atribuído o Prémio Camões, estaríamos a atribuir o prémio a esse cidadão com passaporte brasileiro mas, no fundo, estaríamos a premiar a obra dele, a sensibilidade dessa pessoa.
“Porque nós não podemos abarcar o mundo, então que abarquemos uma aldeia como se estivéssemos a falar do mundo.”
E, nesse caso, não associamos a sensibilidade dessa pessoa ao seu país.
Eu acho que nós associamos, não sei é por quanto tempo mais devemos continuar a associar. A notícia começaria assim: “Manoel de Barros, brasileiro, hoje ganhou ou perdeu, ou fez isto ou fez aquilo.” Não sei. Acho que às vezes é muito perigoso, porque é redutor também. Como quando se fala de determinados crimes ou assaltos, quando são de determinadas etnias que não nos convém referimos o grupo, quando convém dizemos que foi uma pessoa e dizemos as características normais, sei lá, a idade, a altura, se era jovem, se era velho. Mas de vez em quando há ali uns detalhes só para que fique no nosso subconsciente que aquele assalto vem daquela etnia. Isso é perigosíssimo, não é?
Esta entrevista foi publicada na Revista Somos Livros (edição abril 2023). Leia aqui a segunda parte.