Confessava Sophia de Mello Breyner Andresen que a poesia não lhe pedia "propriamente uma especialização pois a sua arte é uma arte do ser. Também não é tempo ou trabalho o que a poesia me pede. Nem me pede uma ciência nem uma estética nem uma teoria. Pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar." Tendo dedicado a inteireza do seu ser à poesia, foi uma das mais importantes poetas da sua geração e, possivelmente, das gerações vindouras, sendo vários os autores e leitores que apontam a injustiça de nunca lhe ter sido atribuído o Nobel.
Hoje, dia 6 de novembro, assinalamos 101 anos desde o seu nascimento, e recordamo-la da melhor forma que um poeta pode ser recordado: lendo a sua poesia. Fique com Igrina, um poema em prosa incluído no livro Geografia.
Igrina, de Sophia de Mello Breyner Andresen
O grito da cigarra ergue a tarde a seu cimo e o perfume de orégão invade a felicidade. Perdi a minha memória da morte da lacuna da perca do desastre. A omnipotência do sol rege a minha vida enquanto me recomeço em cada coisa. Por isso trouxe comigo o lírio de pequena praia. Ali se erguia intacta a coluna do primeiro dia - e vi o mar reflectido no seu primeiro espelho. Igrina.
É esse o tempo a que regresso no perfume do orégão, no grito da cigarra na omnipotência do sol. Os meus passos escutam o chão enquanto a alegria do encontro me desaltera e sacia. O meu reino é meu como um vestido que me serve. E sobre a areia sobre a cal e sobre a pedra escrevo: nesta manhã eu recomeço o mundo.