Três poemas para recordar António Gancho

Por: Bertrand Livreiros a 2022-11-17

António Gancho

António Gancho

António Luís Valente Gancho nasceu em Évora em 1940. Cedo começou a passar temporadas de internamentos em estabelecimentos psiquiátricos, tendo ficado até à sua morte na Casa de Saúde do Telhal. Escritor de uma linguagem inconfundível, fez parte da geração de surrealistas que frequentavam o Café Gelo, como Mário Cesariny ou Herberto Helder. Da sua mão, conhecemos o romance As Dioptrias de Elisa (1990) e O Ar da Manhã, coletânea dos seus poemas. Morreu a 2 de janeiro de 2006.

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Vinte e sete anos depois da primeira edição, a Assírio e Alvim reedita o conjunto de poemas que António Gancho confiou para publicação em 1995 e a que chamou O Ar da Manhã. Natural de Évora, o poeta — nomeado por Heberto Helder como uma das melhores vozes da poesia portuguesa — fez parte da geração literária dos surrealistas, intelectuais e artistas que frequentavam o Café Gelo, no Rossio, em Lisboa, tendo publicado, em 1990, o romance As Dioptrias de Elisa. A propósito da nova edição, partilhamos três dos seus poemas presentes na obra.


Abertura

Eu abria o rádio
eu abria o aparelho
era uma flor branca que eu abria
de sopro
eu soprava e eu abria a flor
A flor tocava música com as várias mãos
das pétalas
A flor tocava uma simbolização dum tempo
caído podre de espera de cor branca
O tempo espera-se em pintar-se
de branco
para cegar uma cor
mas a minha flor abria-se de
pétalas
e as várias mãos escreviam um
piano por cima de teclas grãos vários
seguidos uns aos outros.
Era assim uma harmonia
entre flor
tempo a querer-se de cor branca em cegar
era assim umas teclas cantarem filhos de grãos
por dentro dos grãos mesmos
unidos que eram em dimensão de lado
era assim um cantar-me o tempo todo
não era assim um cantar-me o tempo todo
era assim um pairar-me
o tempo todo em Nijinsky
o tempo em um fazer-me ballet pelo quarto inteiro
quando eu tinha aberta a cabeça que imagino
da música
Abria a pétala favorita do harém
onde no centro um sultão da flor
no centro que era o amarelo da flor
abria a pétala favorita da flor
e então
e era então que me soava dentro da manhã
do quarto
uma música desfibrada de tempo serôdio
como se tudo me fosse em longe
como se a música levasse longe
o céu.

— in O Ar da Manhã



Música

A música vinha duma mansidão de consciência
era como que uma cadeira sentada sem
um não falar de coisa alguma com a palavra por baixo
nada fazia prever que o vento fosse de azul para cima
e que a pose uma nostalgia de movimento deambulante
era-se como se tudo por cima duma vontade de fazer uma asa
nós não movimentamos o espaço mas a vida erige a cifra
constrói por dentro um vocábulo sem se saber
como o que será
era um sinal que vinha duma atmosfera simplificante
silêncio como um pássaro caído a falar do comprimento.

— in O Ar da Manhã



De Há Vinte Anos Para Cá

De há vinte anos para cá
já eu estou transformado noutra coisa.
A loisa de preta para branca
quando o visitante lá descansa a anca
sobre ela
parece que de repente se há uma janela
em frente
tudo se some à janela.
Assim como ela a loisa
nunca poisa
numa mesma posição
assim como já dissemos
ou é preta ou branca não
assim também eu poeta
de há vinte anos para cá a esta parte
não está na mesma arte.
Que há muita coisa a prever
além da loisa
a arte de escrever.

— in O Ar da Manhã

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