Três poemas de Ricardo Reis

Por: Marta Ribeiro a 2023-09-19 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

Ricardo Reis nasceu “dentro da alma” de Fernando Pessoa no dia 29 de janeiro de 1914. Mas a data de nascimento oficial é outra – 19 de setembro de 1887. Era médico, mas não se sabe que tenha exercido. E era monárquico, e por isso auto-exilou-se no Brasil depois da proclamação da República. Reis é o sistema moral de Fernando Pessoa: um epicurista que reflete “em torno da nossa miséria estrutural”, como disse Prado Coelho.
 


 

Tirem-me os deuses

Tirem me os deuses
Em seu arbítrio 
Superior e urdido às escondidas 
Amor, glória e riqueza. 

Tirem, mas deixem me 
Deixem me apenas 
A consciência lúcida e solene 
Das cousas e dos seres. 

Pouco me importa 
Amor ou glória. 
A riqueza é um metal, a glória é um eco 
E o amor uma sombra. 

Mas a concisa 
Atenção dada 
Às formas e às maneiras dos objetos 
Tem abrigo seguro. 

Seus fundamentos 
São todo o mundo, 
Seu amor é o plácido universo, 
Sua riqueza a vida. 

A sua glória 
E a suprema 
Certeza da solene e clara posse 
Das formas dos objetos. 

O resto passa, 
E teme a morte. 
Só nada teme ou sofre a visão clara 
E inútil do Universo. 

Essa a si basta, 
Nada deseja 
Salvo o orgulho de ver sempre claro 
Até deixar de ver.

 

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Deixa passar o vento

Deixa passar o vento 
Sem lhe perguntar nada. 
Seu sentido é apenas 
Ser o vento que passa… 

Consegui que desta hora 
O sacrifical fumo 
Subisse até ao Olimpo. 
E escrevi estes versos 
Pra que os deuses voltassem.

 

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Última Ode

Só o ter flores pela vista fora 
Nas áleas largas dos jardins exatos 
Basta para podermos 
Achar a vida leve. 

De todo o esforço seguremos quedas 
As mãos, brincando, pra que nos não tome 
Do pulso, e nos arraste. 
E vivamos assim, 

Buscando o mínimo de dor ou gozo, 
Bebendo a goles os instantes frescos, 
Translúcidos como água 
Em taças detalhadas, 

Da vida pálida levando apenas 
As rosas breves, os sorrisos vagos, 
E as rápidas carícias 
Dos instantes volúveis. 

Pouco tão pouco pesará nos braços 
Com que, exilados das supernas luzes, 
Escolhermos do que fomos 
O melhor pra lembrar 

Quando, acabados pelas Parcas, formos, 
Vultos solenes de repente antigos, 
E cada vez mais sombras, 
Ao encontro fatal 

Do barco escuro no soturno rio, 
E os nove abraços do horror estígio, 
E o regaço insaciável 
Da pátria de Plutão.

 

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