Ricardo Reis nasceu “dentro da alma” de Fernando Pessoa no dia 29 de janeiro de 1914. Mas a data de nascimento oficial é outra – 19 de setembro de 1887. Era médico, mas não se sabe que tenha exercido. E era monárquico, e por isso auto-exilou-se no Brasil depois da proclamação da República. Reis é o sistema moral de Fernando Pessoa: um epicurista que reflete “em torno da nossa miséria estrutural”, como disse Prado Coelho.
Tirem-me os deuses
Tirem me os deuses
Em seu arbítrio
Superior e urdido às escondidas
Amor, glória e riqueza.
Tirem, mas deixem me
Deixem me apenas
A consciência lúcida e solene
Das cousas e dos seres.
Pouco me importa
Amor ou glória.
A riqueza é um metal, a glória é um eco
E o amor uma sombra.
Mas a concisa
Atenção dada
Às formas e às maneiras dos objetos
Tem abrigo seguro.
Seus fundamentos
São todo o mundo,
Seu amor é o plácido universo,
Sua riqueza a vida.
A sua glória
E a suprema
Certeza da solene e clara posse
Das formas dos objetos.
O resto passa,
E teme a morte.
Só nada teme ou sofre a visão clara
E inútil do Universo.
Essa a si basta,
Nada deseja
Salvo o orgulho de ver sempre claro
Até deixar de ver.
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Deixa passar o vento
Deixa passar o vento
Sem lhe perguntar nada.
Seu sentido é apenas
Ser o vento que passa…
Consegui que desta hora
O sacrifical fumo
Subisse até ao Olimpo.
E escrevi estes versos
Pra que os deuses voltassem.
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Última Ode
Só o ter flores pela vista fora
Nas áleas largas dos jardins exatos
Basta para podermos
Achar a vida leve.
De todo o esforço seguremos quedas
As mãos, brincando, pra que nos não tome
Do pulso, e nos arraste.
E vivamos assim,
Buscando o mínimo de dor ou gozo,
Bebendo a goles os instantes frescos,
Translúcidos como água
Em taças detalhadas,
Da vida pálida levando apenas
As rosas breves, os sorrisos vagos,
E as rápidas carícias
Dos instantes volúveis.
Pouco tão pouco pesará nos braços
Com que, exilados das supernas luzes,
Escolhermos do que fomos
O melhor pra lembrar
Quando, acabados pelas Parcas, formos,
Vultos solenes de repente antigos,
E cada vez mais sombras,
Ao encontro fatal
Do barco escuro no soturno rio,
E os nove abraços do horror estígio,
E o regaço insaciável
Da pátria de Plutão.