Diz-nos Richard Zenith, em Pessoa. Uma Biografia, acabado de chegar às livrarias, que “Pessoa criou três heterónimos plenamente desenvolvidos - Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos - e dezenas de outros autores fictícios, alguns dos quais foram presenças duradouras, enquanto outros saíram rapidamente de cena.” Dos 47 heterónimos elencados por Zenith, escolhemos 10. Quantos deles já conhecia?
Alberto Caeiro
Nascido em Lisboa no dia 16 de abril de 1889, Alberto Caeiro da Silva viveu com uma tia numa casa branca do campo, a nordeste da capital, e morreu de tuberculose em 1915. Poeta com pouca educação formal que acreditava que as coisas são exatamente aquilo que parecem ser, Caeiro ganhou vida em Março de 1914 e foi imediatamente reconhecido por pessoa como «mestre». Foi também mestre de Álvaro de Campos e Ricardo reis. Além de O Guardador de Rebanhos, que contém quarenta e nove poemas, Caeiro foi autor de uma coletânea mais pequena, O Pastor Amoroso, e dezenas de poemas compilados em Poemas Inconjuntos.
Alexander Search
Nascido em Lisboa no mesmo dia que Fernando Pessoa, Search surgiu em 1906 e suplantou rapidamente Charles Robert Anon como o mais importante heterónimo de língua inglesa de Pessoa. Em atividade até 1910, assinaria mais de 100 poemas, incluindo muitos que foram escritos entre 1903 e 1905 e que tinham sido originalmente atribuídos C.R. Anon. Search foi igualmente autor de um conto «A Very Original Dinner» e vários ensaios.
Álvaro de Campos
O mais exuberante, mais assertivo e mais prolífico de todos os heterónimos, Campos surgiu em 1914, cerca de três meses depois de Caeiro. Nascido no dia 15 de Outubro de 1890 em Tavira, cidade algarvia onde a família paterna de Pessoa se encontrava, Campos estudou Engenharia na Escócia, viajou pelo Extremo Oriente, viveu durante algum tempo em Londres, trabalhou como engenheiro naval no norte de Inglaterra e acabou por se instalar em Lisboa. Sentia-se sexualmente atraído tanto por homens como por mulheres, e queixava-se de que, por mais que visse, sentisse e experimentasse, precisava de ver, sentir e experimentar ainda mais. Além de poesia, escreveu e publicou textos em prosa provocadores, nos quais discordou das opiniões de Fernando Pessoa.
António Mora
Num conto que Pessoa começou a escrever em 1909, Mora era um louco obcecado com a Grécia que usava toga e vivia num manicómio. A história esmoreceu, mas seis anos depois Mora foi ressuscitado e tornou-se um heterónimo que, juntamente com Ricardo Reis, promoveu um renascimento do paganismo no mundo moderno. Foi também o autor de uma dissertação favorável à Alemanha na Primeira Guerra Mundial.
Barão de Teive
O décimo quarto do Barão de Teive, que nasceu num caderno usado por Pessoa em 1928, vivia numa propriedade rural portuguesa, mas tinha passado algum tempo em Paris, onde travou um duelo com um Marquês de França. Frustrado pela sua timidez com as mulheres e ainda mais pelas suas insuficiências como escritor, pegou fogo a todas as tuas obras literárias e suicidou-se, não sem antes escrever uma última obra errática, em que explica os seus motivos.
Dr. Faustino Antunes
Este psiquiatra escreveu cartas em 1906 a pelo menos três indivíduos que Pessoa tinha conhecido em Durban, solicitando informação confidencial sobre o caráter e o comportamento do seu cliente (Pessoa), que teria começado a sofrer de graves problemas mentais depois de sair da África do Sul.
Frei Maurice
Dominado por dúvidas quanto à existência de Deus, este religioso - que inscreveu trechos em prosa para The Book of Friar Maurice - foi uma presença inquietante na vida concreta de Pessoa, segundo um texto autobiográfico datado de 1907.
Maria José
Corcunda com dezanove anos que sofria de tuberculose e artrite causadora de invalidez, Maria José passava o tempo à janela de um primeiro andar e sentia o coração a bater sempre que o senhor António, um belo serralheiro, aparecia a caminho do trabalho. Embora não tivesse a intenção de enviar, escreveu-lhe uma carta comprida e tocante, datada de 1929 ou 1930, na qual descreve a sua existência patética e o seu ardente sentimento amoroso.
Raphael Baldaya
Dotado de uma barba comprida e fluente em inglês e português, este estudioso de astrologia e ocultismo recebeu as suas primeiras tarefas literárias nos finais de 1914 ou no início de 1915. Pessoa concebeu depois a ideia (nunca realizada) de vender horóscopos de Baldaya pelo correio.
William Jinks
Amigo de Charles Robert Anon e promotor charlatão da vida saudável, foi parar a uma cadeia de Londres, cidade de onde escreveu uma carta em inglês cheia de erros de ortografia cómicos.