Três poemas de Natal

Por: Beatriz Sertório a 2024-12-24

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Cancioneiro: Uma Antologia
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O Natal está aí e os melhores presentes continuam a ser os mesmos de sempre: a família reunida à mesa, as histórias que todos os anos nos fazem rir e chorar, o barulho de quatro patas a bater no chão, e da música de Natal como pano de fundo, a paz, o amor, um abraço, a poesia... Desejamos-lhe um Natal repleto dos presentes que não se podem embrulhar, da melhor forma que sabemos: com três poemas natalícios, de Fernando Pessoa, Natália Correia e David Mourão-Ferreira. Feliz Natal!
 

Chove. É Dia de Natal, de Fernando Pessoa
(em Cancioneiro: Uma Antologia)

Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.

 

Em Cruz não Era Acabado, de Natália Correia
(em Antologia Poética)

As crianças viravam as folhas
dos dias enevoados
e da página do Natal
nasciam os montes prateados

da infância. Intérmina, a mãe
fazia o bolo unido e quente
da noite na boca das crianças
acordadas de repente.

Torres e ovelhas de barro
que do armário saíam
para formar a cidade
onde o menino nascia.

Menino pronunciado
como uma palavra vagarosa
que terminava numa cruz
e começava numa rosa.

Natal bordado por tias
que teciam com seus dedos
estradas que então havia
para a capital dos brinquedos.

E as crianças com a tinta invisível
do medo de serem futuro
escreviam os seus pedidos
no muro que dava para o impossível,

chão de estrelas onde dançavam
a sua louca identidade
de serem no dicionário
da dor futura: saudade.

 

Natal, e não Dezembro, de David Mourão-Ferreira
(em Obra Poética)

Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio,
no prédio que amanhã for demolido…
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave…
Entremos, despojados, mas entremos.
Das mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.

 

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