No passado dia 19 de janeiro, assinalou-se o centenário de Eugénio de Andrade (1923-2005), poeta do amor e da ligação à terra, da escrita que “exalta as coisas absolutamente necessárias". Regressamos, por isso, ao percurso do homem por detrás de uma das obras mais lidas, traduzidas e estudadas do século XX português, reconhecida pela beleza inesgotável que só a literatura pode transpor nos nossos dias e no nosso quotidiano.
Pseudónimo de José Fontainhas, o poeta nasceu no Fundão, em Póvoa de Atalaia, e foi morar com a mãe para Lisboa aos 10 anos, após separação dos pais. Aqui dividiu o seu percurso escolar pelo Liceu Passos Manuel e a Escola Técnica Machado de Castro. É ainda na sua juventude que envereda pela atividade poética, em parte incentivado pelo poeta António Botto, com quem partilha os seus primeiros esboços de poesia. Com uma passagem por Coimbra, desde 1943, onde convive com Miguel Torga e Eduardo Lourenço, regressa depois a Lisboa, onde entra na função pública para exercer o cargo de inspetor administrativo do Ministério da Saúde. Durante 35 anos seria esse o seu emprego, tendo sido transferido para o Porto em 1950.
Já nessa época era reconhecido como um poeta. Publicou a primeira obra em 1939, uma plaqueta intitulada Narciso, mas nas décadas seguintes consolidou uma voz poética singular e aclamada. As Mãos e os Frutos, de 1948, recebe o aplauso de críticos e colegas como Vitorino Nemésio e Jorge de Sena. Com uma poesia essencialmente lírica, considerada por José Saramago como uma “poesia do corpo a que chega mediante uma depuração contínua”, torna-se um autor prolífico, que não deixa de se aventurar na prosa, nem na escrita de livros para um público infantil, com História da Égua Branca (1977) e Aquela Nuvem e as Outras (1986).
“A poesia, se não for o lugar onde o desejo ousa fitar a morte nos olhos, é a mais fútil das ocupações.”
O corpo esteve sempre no centro da sua poesia. Sem nunca ceder ao melodrama ou ao sentimentalismo, o corpo ganhou com o tempo uma dimensão trágica, numa consciência mais pungente da passagem do tempo, acompanhando o envelhecimento do seu corpo físico. Comprometido com a liberdade, escreveu que “a poesia, se não for o lugar onde o desejo ousa fitar a morte nos olhos, é a mais fútil das ocupações”. Viveu 82 anos e foi consagrado em vida, tendo recebido o Prémio Camões em 2001, e visto os seus livros traduzidos em mais de 20 línguas. Mas foi também prolífico: do seu catálogo constam cerca de 40 volumes, quatro dos quais de prosa, e traduções de autores como García Lorca, Jorge Luís Borges, René Char e Yannis Ritsos, das quais se orgulhava.
Não era pessoa de dar entrevistas, mantinha uma vida à parte, reservada. Numa dessas poucas ocasiões, em entrevista ao jornal Expresso dizia: “Parece-me que tudo quanto fiz, tudo quanto vivi foi para escrever um verso ou um poema. Tenho a impressão de que sacrifiquei tudo na minha vida, mesmo as pessoas, pela poesia.” Mesmo sem ser um poeta de fases, manteve um pendor contínuo, que deslumbrou até os mais céticos numa fase avançada da sua vida. Poeta de Ostinato Rigore, mimando o título de uma obra sua, Eugénio de Andrade insere-se na tradição dos poetas artesãos, estatuto que para si mesmo reivindica como ofício.
Explicou-se sempre através dos versos:
"Somos folhas breves onde dormem
aves de sombra e solidão.
Somos só folhas e o seu rumor.
Inseguros, incapazes de ser flor,
até a brisa nos perturba e faz tremer.
Por isso a cada gesto que fazemos
cada ave se transforma noutro ser." 1
Este artigo foi publicado na Revista Somos Livros (edição abril 2023).
1. As Mãos e os Frutos, poema “XXIV”, publicado pela primeira vez em 1948.