"Regresso a casa", de José Luís Peixoto

Por: Bertrand Livreiros a 2021-09-17 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

José Luís Peixoto

José Luís Peixoto

José Luís Peixoto nasceu em Galveias, em 1974.
É um dos autores de maior destaque da literatura portuguesa contemporânea. A sua obra ficcional e poética figura em dezenas de antologias, traduzidas num vasto número de idiomas, e é estudada em diversas universidades nacionais e estrangeiras.
Em 2001, acompanhando um imenso reconhecimento da crítica e do público, foi atribuído o Prémio Literário José Saramago ao romance Nenhum Olhar. Em 2007, Cemitério de Pianos recebeu o Prémio Cálamo Otra Mirada, destinado ao melhor romance estrangeiro publicado em Espanha. Com Livro, venceu o prémio Libro d'Europa, atribuído em Itália ao melhor romance europeu publicado no ano anterior, e em 2016 recebeu, no Brasil, o Prémio Oeanos com Galveias. As suas obras foram ainda finalistas de prémios internacionais como o Femina (França), Impac Dublin (Irlanda) ou o Portugal Telecom (Brasil). Na poesia, o livro Gaveta de Papéis recebeu o Prémio Daniel Faria e A Criança em Ruínas recebeu o Prémio da Sociedade Portuguesa de Autores. Em 2012, publicou Dentro do Segredo, Uma viagem na Coreia do Norte, a sua primeira incursão na literatura de viagens. Os seus romances estão traduzidos em mais de trinta idiomas. As suas mais recentes obras são Autobiografia (2019), na prosa, e Regresso a Casa (2020), na poesia.
Os seus romances estão traduzidos em mais de trinta idiomas.
Para saber mais sobre o autor: https://www.joseluispeixotoemviagem.com

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Para além de ser um dos romancistas de maior destaque da literatura portuguesa contemporânea, José Luís Peixoto tem também feito algumas incursões na poesia. O seu primeiro livro de poemas, A Criança em Ruínas, publicado em 2001, foi o vencedor do Prémio da Sociedade Portuguesa de Autores 2013. A esse, seguiu-se A Casa, a Escuridão no ano seguinte, e, em 2008, o livro Gaveta de Papéis, foi vencedor do Prémio Daniel Faria.

Regresso a casa é o poema que dá o título ao quarto livro de poesia de José Luís Peixoto e fala-nos das quatro paredes de uma casa - e de todas as suas recordações em tempo de pandemia. Foi o vencedor do Prémio Livro do Ano Bertrand 2020 na categoria de poesia (escolha dos leitores e dos livreiros).


Regresso a casa, de José Luís Peixoto

Repara na manhã que nos rodeia.

Saúda essa claridade, é um sopro

a correr-nos nas veias. Em tempos,

escrevi: quando me cansei de mentir

a mim próprio, comecei a escrever

um livro de poesia. Hoje, voltei a

aprender essa lição e, por isso,

estou aqui, estamos aqui. Por isso,

acendi a existência que nos rodeia

e nos preenche, que está em toda

a parte apenas porque estamos

parados diante desta palavra:

manhã.

Repara na lonjura que se estende

no interior da letra a, é claridade,

saúda-a. Repara no til, tão tímido

como certos sorrisos nossos.

Um livro de poesia, outra vez.

Uma pequena casa, habitada

pelo nosso tempo, pelos gestos

que fazemos dentro de nós,

reflexos ou sombras invisíveis,

memórias e toda esta claridade.

Estamos vivos, repara. Um livro

de poesia, como uma trégua secreta,

uma janela, como os teus olhos

a verem-me em silêncio, ou os meus

olhos a verem-te. Um livro de poesia,

como um regresso a casa.

 

O poema é como uma casa,

e a casa protege-nos.

 

(29 de março de 2020)

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