No novo livro de poemas de João Luís Barreto Guimarães, o “médico-poeta” vencedor do Prémio Pessoa 2022, contempla o quotidiano a partir de um quadro de Hopper. Numa mesa de café, à beira-rio, tal como o que figura no quadro que ilustra a capa, regressa à observação e notação dos pequenos acasos do quotidiano, à busca da pequena escala humana e à sobriedade dos versos, com uma ironia cada vez mais apurada e aprofundada.
Claridade é o título do sucessor de Aberto Todos os Dias, editado pela Quetzal Editores, e o mote para um jogo linguístico em volta do duplo sentido da palavra “claro” – do “claro”, como contraponto do escuro, ou obscuro, da banalidade, do fechamento e dos tempos amargos; mas também do “claro” como adjetivo de “clareza”, essa que nem sempre serve a poesia, linguagem por excelência do indizível. Afinal, como escrevia a Nobel da Literatura Louise Glück, num poema que encerra este livro, "é um erro querer clareza acima de todas as coisas” (“Such a mistake to want clarity above all things.”) Ou, como escreve João Luís Barreto Guimarães no poema que hoje partilhamos: Nem tudo tem de ser claro.
Nem tudo tem de ser claro
Já vi
troncos de árvore a abraçar com a pele
coisas somente encostadas (grades
bicicletas
escadas). Já vi buracos de bala
(à porta de
ministérios) a ser ninho
na Primavera. Nem tudo tem de ser claro.
Nem tudo precisa ser
exactamente
aquilo para que foi desenhado. É
o que a manhã trará o
que mais nos inquieta (se o
tempo rouba em beleza o que devolve
em bondade) e
até a calma dos rios esconde em si
cruéis
naufrágios.