“Um pouco mais de sol” e “era brasa”, "um pouco mais de azul” e “era além”. Poeta e ficcionista da Geração d’Orpheu, Mário de Sá-Carneiro deixou-nos há 108 anos, quando se suicidou num hotel em Paris com apenas 25 anos de idade. Prenunciado o seu fim precoce, escreveu: “Quando eu morrer batam em latas/rompam aos saltos e aos pinotes”. Para trás, ficou uma obra singular que o cimentou como um dos mais importantes nomes do Modernismo português.
Hoje, recordamo-lo com um poema intitulado “Abrigo”, escrito na Cidade das Luzes um ano antes da sua morte, e incluído no livro Obra Essencial.
Abrigo
Paris da minha ternura
Onde estava a minha Obra -
Minha Lua e minha Cobra,
Timbre de minha aventura.
Ó meu Paris, meu menino,
Meu inefável brinquedo...
- Paris do lindo segredo
Ausente no meu destino.
Regaço de namorada,
Meu enleio apetecido -
Meu vizinho d'Oiro bebido
Por taça logo quebrada...
Minha febre e minha calma -
Ponte sobre o meu revés:
Consolo da viuvez
Sempre noiva da minh'a Alma...
Ó fita benta de cor,
Compressa das minhas feridas...
- Ó minhas unhas polidas,
- Meu cristal de toucador...
Meu eterno dia de anos,
Minha festa de veludo...
Paris: derradeiro escudo,
Silêncio dos meus enganos.
Milagroso carroussel
Em feira de fantasia -
Meu órgão de Barbaria,
Meu teatro de papel...
Minha cidade-figura,
Minha cidade com rosto...
Ai, meu acerado gosto,
Minha fruta mal madura...
Mancenilha e bem-me-quer,
Paris - meu lobo e amigo...
- Quisera dormir contigo,
Ser todo a tua mulher!...
Paris, Setembro de 1915