Mário de Sá-Carneiro (1890 – 1916) é um dos maiores expoentes do modernismo português e é também um dos mais conhecidos membros da chamada Geração d’Orpheu. Passou pela Universidade de Coimbra e depois por Paris, onde viveu com uma mesada do pai e onde ficou conhecido pela vida boémia e a dedicação à literatura. Poeta e novelista, sempre foi alvo de intenso estudo a correspondência que o escritor trocou com Fernando Pessoa. Trata-se de mais de uma centena de missivas consideradas como um dos principais testemunhos da chamada Geração d’Orpheu, a que ambos pertenceram. "Quando eu morrer batam em latas", escreveu Mário de Sá Carneiro ao amigo Fernando Pessoa. O bilhete de despedida data de 26 de abril de 1916. Suicidou-se em Paris. Para assinalar o seu aniversário, sugerimos dois poemas e um documentário.
Quási
Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe d'asa...
Se ao menos eu permanecesse àquem...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dôr! - quási vivido...
Quási o amor, quási o triunfo e a chama,
Quási o princípio e o fim - quási a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dôr de ser-quási, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...
Momentos d'alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ansias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indicios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sôbre os precipícios...
Num impeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
(…)
Um pouco mais de sol - e fôra brasa,
Um pouco mais de azul - e fôra além.
Para atingir, faltou-me um golpe de aza...
Se ao menos eu permanecesse àquem...
Mário de Sá-Carneiro, in 'Dispersão'
Mário Viegas recita Cinco Horas, de Mário de Sá-Carneiro
Documentário de Paulo Seabra e José Mendes por ocasião do centenário da morte de Mário de Sá-Carneiro

Assista a um documentário de Paulo Seabra e José Mendes sobre a obra e a vida de Mário de Sá-Carneiro (1890-1916). Com a presença do poeta e membro da revista "Orpheu" Alfredo Guisado que lembra em primeira voz os amigos Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa, e com uma inédita fotografia de Mário de Sá-Carneiro do arquivo fotográfico do Museu da Policia Judiciária. Conta com depoimentos de Richard Zenith (Prémio Pessoa 2012), Fernando Cabral Martins, Jerónimo Pizarro e Rui Afonso Santos e Eduardo Lourenço que afirma "foi aquele que levou o mito da poesia mais longe e morreu em função desse mito".
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