Hachiko, o Cão que Esperava
Em média, os seres humanos vivem cerca de sete a oito vezes mais tempo do que os cães. Um dia da vida de um cão equivale a uma semana da nossa, ainda assim, não chegamos a aprender tudo quanto eles têm para nos ensinar. Hachiko, um cão akita japonês, comoveu o mundo com a sua lição de lealdade e amor incondicional. Depois da morte inesperada do dono, o professor Ueno, em 1925, passou os restantes dez anos de vida à espera dele na estação de comboios onde o costumava receber após o trabalho.
Na Estação de Shibuya, em Tóquio, os funcionários e passageiros afeiçoaram-se a este cão que esta todos os dias, às cinco em ponto, esperava pelo regresso do melhor amigo, e ergueram-lhe uma estátua em sua homenagem. Em pouco tempo, história correu o mundo, inspirando fimes e livros — entre eles, Hachiko — O Cão que Esperava, o vencedor do Prémio Livro do Ano Bertrand 2022, eleito pelos livreiros.
Conversámos com o autor, Lluís Prats, sobre este cão com quem os humanos têm tanto a aprender. Afinal, uma vida inteira de lealdade a alguém com quem se conviveu durante apenas um ano pode parecer absurdo para alguns. Mas só para aqueles que ainda não aprenderam a lição de Lewis Carroll, que Hachiko, mesmo sem nunca ter lido Alice no País das Maravilhas, sabia de cor: “Quanto tempo dura o eterno?”, perguntou a Alice ao Coelho, ao que ele respondeu, “Às vezes, apenas um segundo.”
Lembra-se de quando e como ouviu pela primeira vez a história de Hachiko? De que forma é que mexeu consigo?
Lembro-me de a ter lido em criança numa revista juvenil e teve um grande efeito em mim, porque nessa altura adorava cães. O meu avô tinha um (o Negrito), mas em casa não tínhamos porque vivíamos num apartamento e um animal precisa de espaço para correr. Anos mais tarde, vi o filme japonês e, depois, a adaptação americana, e achei que era uma história universal, a história da fidelidade e do amor não correspondido.
A literatura tem o poder de criar finais felizes para histórias tristes. Foi isso que quis fazer com Hachiko — O Cão que Esperava?
Vou várias vezes a escolas para falar sobre o livro e as crianças perguntam-me sempre porque é que escrevi uma história triste. Respondo que não é uma história triste, mas, sim, realista, porque Hachiko nunca foi um cão abandonado. Viveu na Estação de Shibuya, sempre rodeado de passageiros e dos funcionários. A última fotografia que existe do cão é do dia da sua morte, e está rodeado por todas as pessoas que o amavam muito. história tinha de terminar com a morte do cão fiel, mas também dando alguma esperança ao leitor. As pessoas boas são recompensadas, nesta vida ou na próxima, e eu gosto de pensar que o Professor Ueno e Hachiko ainda estão a caminhar naquela praia de areia sem-fim. Espero vê-los um dia.
O que podem os humanos aprender com o eterno companheiro do professor Ueno, e todos os nossos amigos de quatro patas?
Há uma parte instintiva nos animais, seja qual for, que é cem por cento natural, pura. Um animal nunca trai, segue os seus instintos, e os instintos de um cão são, em primeiro lugar, a fidelidade, em segundo, a fidelidade, em terceiro, a fidelidade ou lealdade. A natureza é muito sábia, mas, quando tentamos moldá-la à nossa vontade, penso que cometemos um erro. A vida deveria ser muito mais simples. Seríamos mais felizes se tentássemos acumular menos e dar mais, de uma forma desinteressada, como faz um cão. É absurdo lutar uma vida inteira para ser a pessoa mais rica do cemitério.