Se o cérebro é a casa onde se formam e se alojam as nossas memórias, a escrita, juntamente com outras formas de registo como o vídeo e a fotografia, é onde elas encontram residência permanente. Durante gerações e gerações, vozes de outros tempos e lugares podem comunicar com o presente através de uma máquina do tempo tão simples quanto mágica: os livros. O Ponto de Interrogação convidou alguns dos teus autores de livros infantis favoritos a partilharem algumas das suas memórias mais especiais relacionadas com livros.
Isabel Alçada
O melhor contador de histórias da minha família é/era… O meu pai era um fantástico contador de histórias. Criava enredos com peripécias empolgantes, escolhia nomes especiais para as personagens femininas: Sesaltina, Guilhermina, Albertina… e narrava as histórias com tanta emoção que nos envolvia desde logo, do primeiro ao último minuto.
O primeiro livro que li foi… O primeiro livro com capítulos foi Os Desastres de Sofia da Condessa de Ségur. Li-o em francês, pois aprendi a ler simultaneamente em português e em francês.
O livro que me fez querer escrever histórias foi… Foram muitos! Todos os livros que gostei de ler na infância espicaçaram o desejo de também conseguir escrever histórias.
Uma frase/personagem de um livro da minha infância de que nunca me esqueço… Não me esqueço nunca do adorável Tio Jeremias, de Céu Aberto e Em Pleno Azul de Virgínia de Castro e Almeida, que conversava e viajava com os sobrinhos, mantendo-se disponível e cúmplice na satisfação da curiosidade infantil.
O livro que escrevi que mais gostaria que as crianças continuassem a ler no futuro é… Os livros da coleção Uma Aventura, claro!
Ana M.ª Magalhães
O melhor contador de histórias da minha família é/era… Uma contadora, a querida tia São. Pequenina, velhinha, de cabelos brancos, tinha um extraordinário repertório de histórias tradicionais, e o mais engraçado é que se emocionava a contá-las.
O primeiro livro que li foi… As Manhas da Raposinha. Não me lembro do nome do autor, nem do enredo, mas guardo comigo a imagem da capa com grande ternura porque ler sozinha um livro inteiro teve sabor a vitória.
O livro que me fez querer escrever histórias foi… Não sei qual foi o livro que me fez começar a escrever histórias. Comecei a inventar histórias para os meus irmãos, quando ainda não sabia ler; mal me apanhei alfabetizada passei a escrevê-las e já na infância era o melhor dos passatempos.
Uma frase/personagem de um livro da minha infância de que nunca me esqueço… A frase “Não guardes para amanhã o que podes fazer hoje” era o título de um texto do livro de leitura e tornou-se o meu lema para a vida.
A personagem Tiago, do livro As Férias, da Condessa de Ségur, também me acompanhou para a vida, pois quando li esse livro, aos oito anos, prometi a mim mesma que esse seria o nome do meu primeiro filho. E cumpri.
O livro que escrevi que mais gostaria que as crianças continuassem a ler no futuro é… O livro que mais gostaria que as crianças continuassem a ler no futuro só podia ser um, escolhido livremente de entre os que fazem parte da coleção Uma Aventura.
Álvaro Magalhães
O melhor contador de histórias da minha família é/era… Era o meu pai. Sabia criar um clima... Também exagerava bastante, para criar mais interesse. E ai de quem o interrompesse!
O primeiro livro que li foi… Uma versão de O Pequeno Polegar. Se não foi o primeiro que li, foi o primeiro que me lembro de ter lido. Essa história tocava-me e comovia-me, ou não se tratasse de uma criança abandonada pelos pais.
O livro que me fez querer escrever histórias foi… A Ilha do Tesouro, de R.L. Stevenson. A prosa de Stevenson tem o ritmo natural da respiração. Lemos e esquecemos que estamos a ler.
Uma frase/personagem de um livro da minha infância de que nunca me esqueço… Uma personagem: Sandokan, o tigre da Malásia, um pirata do século XIX que combatia o Império Britânico e a Companhia das Índias.
Uma frase retirada da canção dos marinheiros, em A Ilha do Tesouro: “Dez homens em cima da mala do morto: iôô ôo e uma garrafa de rum.”
O livro que escrevi que mais gostaria que as crianças continuassem a ler no futuro é… O Brincador. É uma reunião de toda a minha poesia para a infância e não só, pois também pode ser lida com proveito por adultos. É a parte mais escondida da minha produção, mas talvez seja a que mais coincide comigo mesmo.
David Machado
O melhor contador de histórias da minha família é/era… O meu pai e o meu avô. As histórias que ouvi deles quando estava a crescer eram as mais variadas, desde relatos das suas próprias infâncias a mitos gregos, passando por contos tradicionais, episódios da História de Portugal e da família.
O primeiro livro que li foi… A História Interminável, do Michael Ende, com sete ou oito anos. Talvez não tenha sido o primeiro que li, mas o primeiro que me fez perceber o nível de complexidade e de imaginação que uma narrativa pode alcançar. Curiosamente, demorei meses a lê-lo, o que deu origem à anedota dentro da nossa família de que se tratava de uma história realmente interminável.
O livro que me fez querer escrever histórias foi… O Amor nos Tempos de Cólera, do Gabriel García Márquez, pelo domínio absoluto da narrativa e pela forma como usa as frases para brincar com o mundo, sem fazer distinção entre a realidade e a fantasia que os seres humanos permitem que se misture com a realidade.
Uma frase/personagem de um livro da minha infância de que nunca me esqueço… Lucky Luke. Li esses livros durante anos e em cada idade era capaz de me identificar com a personagem de maneiras distintas. Há muito tempo que não abro um livro do Lucky Luke, mas lembro-me dele muitas vezes.
O livro que escrevi que mais gostaria que as crianças continuassem a ler no futuro é… O Meu Cavalo Indomável, publicado pela Editorial Caminho. É um livro de poemas, ou de rimas, no qual há dezenas de histórias, personagens, mundos, conceitos. É uma ótima amostra daquilo que se passa na minha cabeça todos os dias desde que acordo até que vou dormir, uma profusão de ideias que me puxam em múltiplas direções e me atiçam a imaginação.
Catarina Sobral
O melhor contador de histórias da minha família é/era… A minha mãe.
O primeiro livro que li foi… O Clube dos Sete, de Enid Blyton.
O livro que me fez querer escrever histórias foi… Um Livro para Todos os Dias, de Isabel Minhós Martins e Bernardo P. Carvalho.
Uma frase/personagem de um livro da minha infância de que nunca me esqueço… A personagem é o João Sem Medo, d'As Aventuras de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira. A frase é: “É proibida a entrada a quem não andar espantado de existir.”
O livro que escrevi que mais gostaria que as crianças continuassem a ler no futuro é… Toi Toi Toi (Orfeu Negro, 2021).