Mesmo quando a partida não é motivada por situações de perigo extremo, como é o caso dos refugiados, existem várias razões que podem forçar alguém a deixar tudo o que conhece para trás. Em Obrigados a Partir (Akiara Books), jovens migrantes falam das razões que os levaram a emigrar, os obstáculos que tiveram de superar para o fazer e como foi começar uma nova vida num lugar desconhecido. Descobre um pouco da história de três dos seis jovens migrantes que dão os seus testemunhos neste livro.
Soly Dunia Kato
Nasce em Bona (Senegal) no ano de 1984.
Chega a Las Palmas (Ilhas Canárias, Espanha) em 2006.
“Eu tinha 15 anos. Naquele momento, dei-me conta de que o meu futuro se desmoronava, porque eu já não poderia fazer tudo o que desejava: queria formar-me e estudar para ser engenheiro de estradas, mas já não seria possível; a situação económica da minha família não mo permitia.”
“Foi um caminho muito duro. Durante a noite, dormíamos ao relento e não tínhamos nada com que nos tapar. Lembro-me de que, para nos resguardarmos do vento e do frio, nos tapávamos com terra: cavávamos uma vala, enterrávamos metade do corpo e tentávamos cobrir-nos com a areia.”
Meriem
Nasce em Tânger (Marrocos) no ano 2000.
Chega a França em 2017.
“A minha mãe tem uma doença mental. Gritava sempre muito e tinha de implicar com alguém, e esse alguém era eu. Às vezes, eu não fazia nada, estava sentada calmamente e ela ralhava-me por algo que eu tinha feito há muito tempo e começava a bater-me.”
“Já não queria ir à escola. Não me entrava nada da cabeça. Falei com uma tia que vivia em França e perguntei-lhe se a podia ir ver. Disse-me que sim, que preparasse os papéis. Tive de esperar seis meses porque era menor, e viajar sem os pais é complicado. O meu pai ajudou e, finalmente, no consulado, deram-me o visto para viajar. Naquela mesma noite, comprei o bilhete de avião e lá fui eu. O meu pai acompanhou-me até ao aeroporto. Tinha 17 anos.”
Said Bilal
Nasce em Afrin (Síria) no ano de 1994.
Chega a Lesbos (Grécia) em 2016.
“Estivemos um ano em Afrin, mas lá não havia nada que fazer, nem estudar, não havia universidade, nem trabalho. Quando há guerra, não podes fazer nada.”
“Fomos com mais cinco ou seis pessoas. Saímos às duas da madrugada. Tivemos de atravessar o rio Karasu, que tem um grande caudal. Íamos com água até à cintura, de noite, sem luz nenhuma, sem lua, todos de braço dado para aguentar a corrente. Havia muito lodo. Cheguei sem um dos sapatos. Perdi-o pelo caminho.”
Conto-te a minha/conta-me a tua história
Também tens uma história de migração para contar? Usa estes testemunhos como inspiração para o fazeres, ou, se conheces alguém, na tua escola, família ou grupo de amigos, que nasceu noutro lugar, pede-lhe que te fale um pouco do seu país de origem — as suas tradições, gastronomia, língua — e a adaptação a um novo país. Depois, escreve um pequeno texto com tudo aquilo que aprendeste.