Umberto Eco para todos os leitores

Por: Raquel Fonseca a 2026-01-06

Umberto Eco

Umberto Eco

Escritor e homem de letras italiano, Umberto Eco nasceu a 5 de janeiro de 1932 em Alessandria (Piemonte) e morreu a 19 de fevereiro de 2016. Pouco se sabe sobre as suas origens e a sua infância, salvo que revelou extrema precocidade ao doutorar-se pela Universidade de Turim com apenas vinte e dois anos de idade, em 1954, apresentando para o efeito uma tese consagrada ao pensamento filosófico de São Tomás de Aquino "O Problema Estético em S. Tomás de Aquino".
Entre 1954 e 1959 desempenhou as funções de editor cultural na famosa cadeia de televisão estatal italiana RAI, lecionando também nessa altura nas universidades de Turim, Milão e Florença e no Instituto Politécnico de Milão. Com apenas trinta e nove anos de idade foi nomeado professor catedrático de Semiótica pela Universidade de Bolonha, a mais conceituada do seu país.
Começou a escrever nos finais da década de 50, contribuindo para diversas publicações periódicas com uma série de artigos que seriam reunidos em volumes como "Diario Minimo" (1963, Diário Mínimo), "Il Costume di Casa" (1973), "Dalla Periferia Dell'Impero" (1977) e "Il Secondo Diario Minimo" (1992). O seu início de atividade ficou também marcado por obras como "Opera Aperta" (1962) e "Apocalittici E Integrati" (1964, Apocalípticos e Integrados).
Mantendo uma carreira editorial bastante completa e ativa, Eco não deixou de publicar estudos académicos sobre Estética, Semiótica e Filosofia, dos quais se podem destacar "La Definizione Dell'Arte" (1968), "Le Forme Del Contenuto" (1971), "Trattato Di Semiotica Generale" (1976), "Come Si Fa Una Tesi Di Laurea" (Como Fazer Uma Tese de Doutoramento, 1977) e "Arte E Bellezza Nell'Estetica Medievale" (1986), obra que lhe valeu vários e conceituados prémios literários. Em 1980 publicou o seu primeiro romance, "Il Nome Della Rosa" (O Nome da Rosa), obra que foi imediatamente considerada como um clássico da literatura mundial. Contando as andanças de um monge do século XIV que é chamado a uma abadia beneditina para solucionar um crime, Eco restabelecia a velha contenda entre o mundo material e o espiritual. A obra foi adaptada com sucesso para o cinema em 1986, pela mão do realizador Jean-Jacques Annaud.
Bastante popular, sobretudo nos meios mais eruditos foi o seu segundo romance, "Il Pendolo Di Foucault" (1988, O pêndulo de Foucault), em que Eco contrapunha o hermetismo e a cosmologia aos potenciais da informática e aos perigos do crime organizado.
O público acolheu com mais modéstia "L'Isola Del Giorno Prima" (1995, A Ilha do Dia Antes), romance em que Roberto della Griva, um aristocrata do século XVII, desperta numa embarcação à deriva no Pacífico Sul, e "Baudolino" (2000, Baudolino), obra também pertencente ao género do romance histórico.

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Umberto Eco é um autor que não escapa à fama de ser difícil, com uma escrita densa em referências, poliglota e erudita, que pode facilmente tornar-se intimidante. O ‘leitor-ideal’ de Eco é um arquétipo difícil de atingir, se considerarmos a biografia do autor: doutorado em filosofia aos 22 anos, progride durante décadas pela sua dedicada carreira académica na área dos estudos medievais e da semiótica – uma disciplina para a qual contribui de forma marcante – tudo isto antes de publicar o primeiro romance, O Nome da Rosa, aos 48 anos.

Professor, semiólogo, medievalista, romancista, ensaísta, tradutor, colecionador… a lista de atributos não parece ter fim. Mas não é necessário encarnar tudo o que Umberto Eco foi para ler os seus livros. A diversidade da sua obra presta-se a uma multiplicidade de leitores e leituras. Para além disso, podemos seguir o conselho de Eco de criar uma antibiblioteca, isto é, uma coleção de livros que temos nas estantes mas (ainda) não lemos, e talvez nunca leremos. Esta ideia, desenvolvida depois por Nassim Nicholas Taleb, parte do princípio de que os livros devem estar disponíveis para consulta na ocasião em que precisamos deles, e que por isso, devemos estar fornecidos de uma coleção completa e variada.

Podemos dizer que Umberto Eco tentou por em prática este conceito: detinha nas suas estantes mais de 30 mil livros. Segundo a entrevista que deu ao Expresso em 2015, um ano antes da sua morte, admite que só consegue responder com sarcasmo quando alguém lhe pergunta se já os leu todos:

"Há três respostas.

A primeira é: "Li muitos mais".
A segunda é: "Não li nenhum, senão porque os guardaria?".
E a terceira é: "Não, mas tenho de os ler na próxima semana".

Uma biblioteca não é um repositório dos livros que já lemos. É também o lugar onde guardamos os livros que iremos ler."

Muito provavelmente ficaremos, mais uma vez, aquém dos feitos de Eco na nossa tentativa de construir a nossa própria (anti)biblioteca, mas, para dar os primeiros passos, reunimos algumas sugestões de entre a sua vasta produção literária, para todos os gostos e todos os leitores.

O Nome da Rosa

O primeiro e mais célebre romance do autor, uma obra que atravessa os géneros do romance histórico, mistério de crime, e utilizando a teologia, a semiótica e o afiado sentido de humor de Eco, para contar uma história fascinante, passada num mosteiro italiano em 1327. Esta narrativa foi adaptada a série televisiva em 2019, e ao grande ecrã por Jean-Jacques Annaud, 1986, no filme protagonizado por Sean Connery. Poderá também deliciar-se com O Nome da Rosa em formato de novela gráfica, na edição de 2024 ilustrada por Milo Manara.

Filósofos em Liberdade

Baseado nas caricaturas que rabiscava nos seus tempos de jovem estudante de filosofia, esta é a estreia de Umberto Eco no género do “ensaio ligeiro”, como ele próprio o define. Acompanhada nesta edição de breves poemas, esta é uma divertida e perspicaz introdução à história da filosofia.

Como Reconhecer o Fascismo . Da Diferença entre Migrações e Emigrações

Editado pela Relógio d’Água, este volume reúne dois textos essenciais de Eco: "O Fascismo Eterno" e "Migrações, Tolerância e Intolerável", apresentando assim a análise do autor, nascido no seio da Itália fascista, sobre um dos temas mais relevantes da atualidade.

O Pêndulo de Foucault

Este romance extenso e desafiante entra no mundo das conspirações e delírios coletivos, acompanhando três jornalistas no seu jogo satírico de conectar todas as teorias esotéricas e do oculto… até que o jogo vai demasiado longe e tudo se torna subitamente muito real.

Como se Faz Uma Tese em Ciências Humanas

E porque não é só de histórias que as nossas estantes se compõem, aqui Eco oferece um livro de grande utilidade prática para estudantes das ciências sociais e humanas, desde o secundário até ao ensino superior. Para quem quer aprender todos os passos para conceber uma tese, deste a escolha do tema, organização do tempo, e recolha bibliográfica, até à redação.

Seis Passeios nos Bosques da Ficção

Este é um livro sobre livros, sobre teoria literária, acima de tudo sobre ficção, a partir do autorretrato de Umberto Eco enquanto leitor. Desde a revista MAD, até ao Capuchinho Vermelho, passando pela Agatha Christie e pelo James Bond, não faltam os pontos de partida para expor o poder e apelo das narrativas que criamos. Reúne textos de seis palestras dadas pelo autor em Harvard, entre 1992 e 1993.

Apocalíticos e Integrados

Esta coleção de ensaios sobre a cultura de massas foi um dos primeiros textos publicados por Eco, nos anos 60, mas os conceitos aqui desenvolvidos permanecem uma referência duradora. A ideia central gira à volta da classificação das perspetivas intelectuais apocalítica (oposta a toda a cultura de massas) e integrada (que faz parte e serve a cultura de massa, mesmo sem o saber).

Número Zero

O último livro de Umberto Eco publicado em vida, foi um bestseller imediato em Itália. Mergulha mais uma vez numa trama conspiratória, um tema favorito do autor, explorado também no excelente Cemitério de Praga, desta vez envolvendo Mussolini, o Vaticano e Segunda Guerra Mundial, esta novella tem cerca de 160 páginas: perfeita para “molhar os pés” na escrita de Eco.

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Para que lhe sobre mais tempo para as suas leituras.