“Poeta ácido, lúcido, erótico, político”. Assim era Armando Silva Carvalho, aos olhos do jornalista Luís Miguel Queirós, aquando da notícia da sua morte no dia 1 de junho de 2017. Nascido em Olho Marinho, Óbidos, em 1938, licenciou-se em Direito, mas cedo trocou a advocacia pelo jornalismo, a tradução, o ensino e a poesia. Desde a publicação do seu primeiro livro (Lírica Consumível em 1965) que lhe valeu o Prémio Revelação da Sociedade Portuguesa de Autores, a sua obra mereceu múltiplas distinções, das quais se destacam o Grande Prémio de Poesia APE, o Prémio PEN Clube, o Prémio Fernando Namora, o Grande Prémio DST Literatura e o Prémio Casino da Póvoa / Correntes d’Escritas.
Na semana em que comemoraria o seu 86º aniversário, partilhamos três poemas da sua antologia O Que Foi Passado a Limpo, recordando o poeta que sonhava com um lugar onde “os que têm coração têm desconto”.
ENTRE DENTES
Deitado sobre ti
ensinas-me a sair
da treva.
Com a boca dorida
por tanta palavra
ensanguentada
devoro o teu cabelo
ouro que se desfaz
por entre os dentes.
E o teu sorriso
quando te penetro
ilumina súbito
a noite do meu corpo.
CINZAS DE SÍSIFO
Eu vi o sobressalto.
Nesse bosque de lâminas e luvas
tocaste cada coisa como
um grito.
E amaste a minha boca
como quem corta
os pulsos ao silêncio.
Se o vento te derrama
entre folhas e cinza
é sempre a mesma voz que não perdoa
a mesma lei
mesmo labirinto.
AQUI
Aqui o inferno mata as profissões
Que têm acesso ao ar.
Diz-se que deus se absteve
De criar servidores para os condenados
Ao tédio.
Morre-se no emprego
Com a garganta apertada por uma mão
Sem ossos.
Aqui os anos crescem pouco ou nada.
Os dias e dias secam na raiz.
Não há horas felizes.
O sol sempre se deu bem com gente como esta
Que salpica de chuva os seus pequenos
Afazeres
Para ficar em casa.
Gente com plenos poderes
Para desmanchar a festa que se alonga
Para lá da cabeça.
Diz um: eu sou o sábio de domingo.
Agora não me ocupo de dias úteis, de remendos d’alma,
De fragilidades.
Esperem por mim mas só depois
Da missa.
Diz outro: a ética é grega de nascença
Movemo-nos por números, já sentenciava Pitágoras.
Não cunhamos moeda, não sujamos as mãos
Nos improvisados remos do naufrágio.
O nosso destino é perguntar.
Parece que deus quis que não nascesse a obra.
Nascer que nasça o sol
E é bastante.
Quem pergunta ao sonho pelo homem
De serviço?
Nos campos vicejam novamente as urtigas
São restauros agrícolas,
Exemplos a seguir, ordens vindas de cima,
Ao ouvido,
Na sala dos banquetes.
O mar faz de cão velho e deixa-se ficar
À espera no patamar dos mitos.
Ninguém o suporta
Nem ao seu uivar aos pés
Da história.
Comovidos estamos, com um não sei quê,
Um quanto, um como, uma dor
Que levanta asas
E vai do vale à montanha
Como vão os monges cavaleiros
À televisão.
Aqui a cidade abre-se para lá da noite
E é sempre belo ver a madrugada
A chorar os seus ídolos.
Aqui os que têm coração
Têm desconto.