Armando da Silva Carvalho deixou-nos hoje, dia 1 de junho. Acreditamos que a melhor forma de recordar um poeta é lendo a sua poesia, por isso convidamo-lo a ler Contramão, um poema incluído no livro A Sombra do mar.
Contramão, de Armando da Silva Carvalho
Às vezes o poema espreita dentro do corpo
e desconfia,
vê os anos trocados, a língua muito grossa e carregada,
o coração vadio e corrompido, as digestões nervosas,
os pulmões sem espuma, lento o respirar,
apressado o cio.
Não sabe onde expor as palavras,
não encontra suportes, cantarias, majestade nos músculos,
robustez na textura óssea,
fluidez no sangue, no pescoço
e na alma.
A voz sente o encurtar da água
e sobe em degraus pela garganta até escoar o grito.
E o que foi babuloso é agora uma praia,
ridícula, com marés infantis e gente a patinhar, cautelosa,
na babugem do ser.
Quando o poema assume, logo se ergue o lamento
em liturgias, atravessa o corpo um súbito relâmpago,
dir-se-ia uma esponja de luz ameaçada,
por vezes brilham dentes, falas virgens, mas sempre em contramão,
e então surge o desastre.