Três poemas para recordar Nuno Júdice

Por: Beatriz Sertório a 2024-03-18

Nuno Júdice

Nuno Júdice

Nuno Júdice (1949-2024) nasceu no Algarve. Professor universitário, assumiu em 2009 a direção da revista Colóquio-Letras da Fundação Calouste Gulbenkian. Publicou o primeiro livro em 1972 e foi um dos mais importantes nomes da poesia contemporânea. Recebeu os mais importantes prémios de literários nacionais e internacionais, entre os quais: Pen Clube (1985), Prémio D. Dinis da Fundação da Casa de Mateus (1990), da Associação Portuguesa de Escritores (1995), Bordalo da Casa da Imprensa (1999), Cesário Verde e Ana Hatherly (2003) e Fernando Namora (2004). Em 2013, foi distinguido com o XXII Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana (Espanha); em 2014, com o Prémio de Poesia Poetas del Mundo Latino Víctor Sandoval (México); em 2015, com o Prémio Argana de Poesia, da Maison de la Poésie de Marrocos e o Prémio Literário Fundação Inês de Castro – Tributo de Consagração; e, em 2016, com o El Ojo Crítico Iberoamericano de Radio Nacional de Espanha.

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Foi neste domingo, dia 17 de março, que Nuno Júdice nos deixou, com 74 anos. Hoje, o país  recorda o poeta, romancista, dramaturgo, ensaísta, crítico, tradutor e professor que ensinou gerações de alunos a perseguir o mistério eterno das palavras. 

Natural de Portimão, foi um dos poetas portugueses mais publicados e traduzidos, tendo a sua obra sido reconhecida internacionalmente com vários prémios, dos quais se destaca o Prémio Ibero-Americano Rainha Sofia, atribuído em 2013. Em 1972, publicou o seu primeiro livro, A Noção do Poema, e em 2022, foi publicado o volume 50 anos de Poesia (1972-2022), que reúne a sua obra poética durante meio século. Numa nota de homenagem, o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa assinalou o carácter original do poeta que “não se parecia com nenhum outro”. Recordamo-lo em três poemas.


Pedro, lembrando Inês

Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite. É verdade que te podia
dizer: «Como é mais fácil deixar que as coisas
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos
apenas dentro de nós próprios?» Mas ensinaste-me
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,
até sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo
esse que mal corria quando por ele passámos,
subindo a margem em que descobri o sentido
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fundo do mundo que me deste.


Receita para fazer azul

Se quiseres fazer azul,
pega num pedaço de céu e mete-o numa panela grande,
que possas levar ao lume do horizonte;
depois mexe o azul com um resto de vermelho
da madrugada, até que ele se desfaça;
despeja tudo num bacio bem limpo,
para que nada reste das impurezas da tarde.
Por fim, peneira um resto de ouro da areia
do meio-dia, até que a cor pegue ao fundo de metal.
Se quiseres, para que as cores se não desprendam
com o tempo, deita no líquido um caroço de pêssego queimado.
Vê-lo-ás desfazer-se, sem deixar sinais de que alguma vez
ali o puseste; e nem o negro da cinza deixará um resto de ocre
na superfície dourada. Podes, então, levantar a cor
até à altura dos olhos, e compará-la com o azul autêntico.
Ambas as cores te parecerão semelhantes, sem que
possas distinguir entre uma e outra.
Assim o fiz
 eu, Abraão ben Judá Ibn Haim,
iluminador de Loulé
 e deixei a receita a quem quiser,
algum dia, imitar o céu.


Fragmentos

1
Aceita o transitório; nada do que
é definitivo, dura, te pode atingir

2
Algo de visível perpassa
nos limites do ser.

3
De noite, o vento partiu
um dos vidros das traseiras.

4
Só o ruído da noite sobrevive
à luz e ao furor matinais.

5
(Se aquelas nuvens, no horizonte,
chegassem até mim…)

6
O fragmento, porém, exprime
o estilhaçar da intensidade.

7
No último fragmento, fixa
o efémero e repousa.

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