Saramago, Dostoiévski, Shakespeare e Molière no TNSJ

Por: Bertrand Livreiros a 2022-03-23 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

A programação do Teatro Nacional São João (TNSJ), no Porto, entre abril e julho terá uma dimensão internacional e produções próprias, incluindo uma nova encenação de “Ensaio sobre a Cegueira”, pelo diretor artístico, Nuno Cardoso, a propósito do centenário de José Saramago. 


 

Em 10 de junho, o TNSJ receberá a estreia de “Ensaio sobre a Cegueira”, encenada por Nuno Cardoso, quase 20 anos depois de ter acolhido a estreia de uma peça de O Bando, a partir do mesmo livro do Nobel da Literatura, José Saramago, que celebraria 100 anos em 2022. “Ponto culminante do projeto de cooperação entre o Teatre Nacional de Catalunya e o Teatro Nacional São João, a adaptação para cena do romance de Saramago é emblemática da universalidade do Nobel português e do caráter transfronteiriço do ato teatral. O encenador Nuno Cardoso dirige uma jangada ibérica (e bilingue!), com atores portugueses e catalães irmanados na utopia de que o palco resolva ou adense os mistérios deste texto”, pode ler-se no dossiê da programação.

São trezentas páginas de constante aflição”, assim o descreveu José Saramago, aflição isenta de sentimentalismo e tingida de um humor muito negro. Ensaio Sobre a Cegueira (1995) ficciona um mundo onde (quase) todos ficam cegos, epidemia que leva um poder discricionário a isolar os infetados num espaço fechado. Neste apocalipse da alma, onde o “homem é o lobo do homem”, Saramago expõe a brutalidade do desejo de sobrevivência de um corpo social devastado. Ponto culminante do projeto de cooperação entre o Teatre Nacional de Catalunya e o Teatro Nacional São João, a adaptação para cena do romance de Saramago é emblemática da universalidade do Nobel português e do caráter transfronteiriço do ato teatral. O encenador Nuno Cardoso dirige uma jangada ibérica (e bilingue!), com atores portugueses e catalães irmanados na utopia de que o palco resolva ou adense os mistérios deste texto. “Abrem-se os portões, de par em par, os loucos saem.”

 

Também dedicado a Saramago, o projeto do centro educativo "Visitações: A Viagem de Saramago", apresenta-se como uma "carta aberta aos Clubes de Teatro de 12 escolas da Área Metropolitana do Porto para criarem pontes entre a sua obra e as vidas de novas gerações dos seus leitores". Por seu lado, as Leituras Dramatizadas serão feitas a partir de O Ano da Morte de Ricardo Reis e o Memorial do Convento.

Da programação do TNSJ destacam-se ainda outra peças, inspiradas no universo literário. Em maio, da encenadora Marta Pazos, será possível assistir a Othello. Marta pergunta-nos o que podemos fazer, a partir do nosso presente, para deter aquele momento (“Agora não há pausas, demasiado tarde.”) em que o mouro de Veneza assassina Desdémona. Como deter esse inferno (hell) que existe em Othello? Um inferno com quatrocentos anos de atualidade, a tragédia de Shakespeare coloca em cena questões que continuamos a debater hoje, como o racismo, a xenofobia, a violência exercida sobre as mulheres, a construção de género, a manipulação ou a pós-verdade (sim, Iago é o profeta das fake news). Nesta releitura cénica e dramatúrgica da companhia galega Voadora, Desdémona não morre (“Apenas sustive a respiração o tempo necessário para passar despercebida.”), nem esquece. O espetáculo acerca-se deste núcleo de dor e de raiva adotando a comédia – muito musical e coreográfica – como dispositivo. “Teatro necessário, urgente. Belo e corajoso”, alguém escreveu no diário El Confidencial.
 


Dias 29 e 30 de abril, o TNSJ levará a cena Os Irmãos Karamázov. Nos últimos anos, a obra de Dostoiévski tem assombrado o teatro de Sylvain Creuzevault, que a ela regressa para escalar a montanha literária de Os Irmãos Karamázov, a sua obra-prima final. Qual dos quatro filhos matou o patriarca Karamázov? Narrativa da implosão de uma família, cuja escrita não cessa de contradizer o que afirma, é a história do combate entre a verdade e a mentira, a religião e o Estado, o bem e o mal. Ninguém é inocente, a culpa dissemina-se. “Se Deus está morto, tudo é permitido”, lê-se num dos tags do cenário, como uma máxima. Sylvain Creuzevault inspirou-se em Genet, que via o romance do mestre russo como “uma farsa”. Do “jogo de massacre” que descostura o decoro da tragédia “nada mais resta do que farrapos; e a diversão começa”. O encenador francês faz do humor farsesco que circula em Os Irmãos Karamázov o fio que descose a ação e as personagens, revelando-as afinal como sintoma do seu tempo, um espelho do nosso.
 


No final do semestre, haverá oportunidade para assistir a Tartufo, de Molière. Estreada em 1664, é a mais cáustica das comédias de Molière, uma meditação sobre a hipocrisia que foi alvo da censura da Igreja e dos tribunais franceses. Tartufo é um arrivista que apanha o elevador da religião para alcançar um ponto mais alto na escala social, emblema de uma sociedade predadora que não olha a meios para atingir fins. “Que tempo era esse e que tempo é este em que vivemos agora?”, questiona-se o encenador Tónan Quito, convidando-nos a estabelecer ligações entre passado e presente. Este espetáculo é apresentado no âmbito do NÓS/NOUS, projeto que aprofunda o intercâmbio da cultura teatral entre França, Galiza e Portugal, pensando-o como um território cénico comum. Desenvolvido por quatro teatros (entre eles, os Nacionais de Porto e Lisboa) e por quatro escolas superiores de arte dramática, promove a profissionalização e a internacionalização de estudantes em final de percurso académico, através do contacto com criadores de renome internacional.

É a programação de um ano que se desejaria mais tranquilo, mas a realidade tem esta capacidade incrível de nos tirar o tapete debaixo dos pés e se tornar mais estranha do que a ficção. No entanto, esperamos que a programação do TNSJ seja uma programação em casa aberta para que nos possamos encontrar aqui e reencontrar os nossos melhores anjos e não os nossos pior preconceitos”, referiu o encenador Nuno Cardoso, que destacou ainda a iniciativa Ucrânia – Palco Livre: “Em resposta à situação que vivemos a programação agrega O Palco Livre, com especial atenção a possíveis criadores ucranianos refugiados, ou possíveis ‘fazedores’ de teatro, que podem encontrar no TNSJ um interlocutor para continuarem a desenvolver o seus trabalho”.

 

É um ano em que o TNSJ atinge um patamar de investimento na atividade muito interessante, estamos no limiar do 1,8 milhões de euros destinados à atividade (programação, promoção dos espetáculos, centro educativo), é a maior verba de sempre atribuída à atividade do TNSJ em anos em que não há festivais”, revelou. Para 2022, está previsto que o TNSJ “volte a atingir os 200 mil euros de receitas de bilheteira”, depois de dois anos com “quedas significativas” na receita, quer em virtude da pandemia causada pelo novo coronavírus, quer pela intervenção na sala principal que levou ao seu encerramento.


 

Fonte: Lusa e TNSJ
 

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