Recordar Variações: na tela e nos livros

Por: Beatriz Sertório a 2019-09-06 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

Manuela Gonzaga

Manuela Gonzaga

Escritora e ativista, Manuela Gonzaga tem uma marca muito forte no campo das biografias. A autora, que marca presença reconhecida na literatura juvenil, no romance, nos contos e até no ensaio, é natural do Porto. Aos 12 anos, com os pais, foi para Moçambique e depois para Angola, tendo passado em África parte da adolescência e a juventude. Foi ali que iniciou a sua atividade de jornalista, que abandonou em 2000 para se dedicar à escrita e investigação a tempo inteiro. Historiadora com o grau de mestre em História pela Universidade Nova de Lisboa, Manuela Gonzaga tem quatro filhos e três netos. O seu tempo é partilhado ainda com sete cães e um gato. Todos resgatados.

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Se o filme sobre a vida de António Variações lhe aguçou a vontade de saber mais sobre a vida deste que foi um dos mais influentes músicos e compositores do panorama musical português, temos a solução perfeita para si.

Na única biografia escrita sobre o artista, Manuela Gonzaga , historiadora e ativista, acompanha o leitor numa viagem íntima pelos seus breves (mas intensos) 39 anos de vida – desde a curta infância em Fiscal, à mudança para Lisboa, em busca do sonho de fazer música, até à sua concretização, esta é uma leitura indispensável para todos os admiradores de Variações.

Partilhamos consigo algumas das curiosidades que poderá descobrir em  António Variações – Entre Braga e Nova Iorque .

 


 

1. DO MINHO PARA O MUNDO

António Joaquim Rodrigues Ribeiro nasceu na freguesia de Fiscal, no concelho de Amares, em 1944. Um de 12 filhos de uma família de origens humildes, sentiu, desde cedo, a vontade de partir que imortalizou na sua canção “Estou além” . Sair de Fiscal era, para si, não só uma forma de conhecer novos lugares mas também de procurar novas oportunidades, longe do trabalho no campo, onde começou a ajudar os pais desde muito novo. Tendo herdado do seu pai, que tocava o cavaquinho e acordeão, o amor pela música, partiu para Lisboa em busca desse sonho. A isso, seguiu-se o serviço militar em Angola e, mais tarde, as viagens a Londres, Amsterdão e Nova Iorque.

 
2. UM SOM ENTRE BRAGA E NOVA IORQUE

Quando pediram a Variações que definisse a sua música, o músico respondeu que era alguma coisa “entre Braga e Nova Iorque” . Às suas origens minhotas, foi buscar o folclore e aos sons cosmopolitas de Londres e Nova Iorque, os sintetizadores e o rock. Foi, contudo, em Lisboa que nasceu a sua maior inspiração – Amália Rodrigues . Nela admirava, sobretudo, a forma como era capaz de transmitir emoções apenas com a voz, ultrapassando as próprias palavras.

Embora seja reconhecido como um dos músicos mais emblemáticos da música portuguesa, a verdade é que António Variações (que, em Lisboa, começou a trabalhar como barbeiro), nunca aprendeu música. Era, contudo, algo que lamentava: “[G]osto muito do som da tesoura, mas não há nada que chegue ao som de uma viola, de uma guitarra ou de um violino. Só lamento não ter tido a formação musical necessária que agora me ia fazer muito jeito. Já em miúdo apanhei muitas vergonhas por ser apanhado em frente ao espelho a trautear umas canções.”

 

3. LÁ VAI O MALUCO, LÁ VAI O DEMENTE

Na canção “Sempre Ausente” , António Variações parece falar para si próprio quando canta sobre a solidão de alguém que, cada vez que passa na rua, todos comentam: “Lá vai o maluco, lá vai o demente”. A verdade é que o país dos brandos costumes levou algum tempo a aceitar a excentricidade do músico. Vestindo cores berrantes, blusas decotadas e, frequentemente, brincos (o que, conta o próprio, levou a que um dia lhe chamassem de “mulher com barba” ), Variações fazia rodar as cabeças onde quer que fosse.

Um dos seus muitos visuais icónicos foi o que envergou numa das suas aparições televisivas no programa A Festa Continua , de Júlio Isidro , no qual apareceu vestido com um pijama com coelhinhos e um urso de peluche. Para além disso, também o facto de ter trabalhado no primeiro salão unissexo de Lisboa, foi alvo de muitos comentários, levando a que, diariamente, muitos se deslocassem ao salão apenas para o observar.

 
 

António Variações com a sua mãe, Deolinda de Jesus, na sua terra-natal.
 

4. OLHAR PRA TRÁS, PENSAMENTO EM FRENTE

Em entrevista, explicou porque escolheu Variações como nome artístico: “Variações é uma palavra que sugere elasticidade, liberdade. E é exactamente isso que eu sou e que faço no campo da música. Aquilo que canto é heterogéneo. Não quero enveredar por um estilo. Não sou limitado. Tenho a preocupação de fazer coisas de vários estilos.” Talvez seja por isso que, 35 anos depois da sua morte, a sua música continua a ser ouvida e a sua personalidade a mover multidões.

A corroborá-lo está o facto de o filme sobre a sua vida ser já o filme português mais visto do ano e ter levado mais de 130 mil pessoas ao cinema . António Ribeiro pode não ter vivido para ver a sua música alcançar o estatuto que tem hoje ou as inúmeras homenagens que lhe têm sido feitas desde então, mas Variações viverá para sempre.

 
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