Pepetela é o vencedor do Prémio Literário Casino da Póvoa 2020, atribuído no âmbito do festival literário Correntes d’Escritas, com a obra Sua Excelência, de Corpo Presente (2018). O anúncio foi feito esta manhã, na cerimónia de abertura oficial do festival que decorre na Póvoa de Varzim.
O júri, constituído pela jornalista Ana Daniela Soares, o escritor espanhol Carlos Quiroga, a ex-ministra da cultura Isabel Pires de Lima, a académica Paula Mendes Coelho e o escritor Valter Hugo Mãe, atribuiu o galardão por unanimidade, destacando “a originalidade do estratagema narrativo eficaz para denunciar com ironia uma história de nepotismo e abuso de poder próprios de sistemas totalitários”, ao mesmo tempo que permanece “sensível à dimensão antecipativa da ficção do autor, que estabelece fortes pontos de contacto com a realidade atual”.
A obra, editada pela Dom Quixote, narra a história de um ditador africano que, no início, aparece morto e recorda as peripécias vividas com muitos dos que lhe vieram dizer adeus, entre os quais se encontram familiares, a primeira-dama, os muitos filhos e as altas dignidades do Estado. Ainda que não identifique o país ou o político em causa, o júri refere que este é um romance que traça um retrato “próprio dos sistemas totalitários”.
Entre os finalistas do Prémio Literário Casino da Póvoa encontravam-se nomes como Leonardo Padura, Lídia Jorge, Mário Cláudio e Mia Couto. Pepetela sucede, assim, ao poeta Luís Quintais, distinguido em 2019 com A Noite Imóvel.
O vencedor irá receber um prémio no valor de 20 mil euros. A entrega do prémio terá lugar no próximo sábado, na cerimónia de encerramento do festival. De acordo com a rádio Renascença, Pepetela não poderá estar presente, por ter sido sujeito a uma cirurgia que o impede de viajar de avião de Luanda para Portugal.
Fotografia via TVI24
Pepetela, de 78 anos, nasceu em Benguela, Angola, em 1941. Foi militante no Movimento Popular de Libertação de Angola, a partir de 1963, e lutou, contra Portugal, pela independência do seu país. Os tempos de guerra serviram-lhe como inspiração para uma das suas obras mais reconhecidas, uma narrativa de guerra intitulada Mayombe.
Iniciou a sua atividade literária e política na Casa dos Estudantes do Império. Como membro do MPLA, participou ativamente na governação da Angola, após o 25 de abril. A partir de 1984, foi professor na Universidade Agostinho Neto, em Luanda, e tem estado à frente de diversas associações culturais, com destaque para a União de Escritores Angolanos e a Associação Cultural Recreativa Chá de Caxinde.
Em 1997, foi-lhe atribuído o Prémio Camões pelo conjunto da sua obra, tornando-se o primeiro autor angolano e segundo autor africano a ser distinguido com este galardão.