Um dos traços distintos de Borges é a condição visual que herdou do pai, e que o cegou totalmente aos 55 anos. Para um leitor e escritor como ele, a perda da visão poderia ser uma tragédia de que nunca recuperaria, mas o autor arranjou forma de contornar esse constrangimento, confiando noutras pessoas para lerem e escreverem por si. À sua secretária, ditava as palavras que vieram a fazer parte de livros como O Livro de Areia, A Memória de Shakespeare ou O Livro dos Seres Imaginários. Entre as pessoas que tiveram o prazer de ler para Borges, conta-se o autor Alberto Manguel que descreveu a experiência no seu livro Uma História da Leitura como uma espécie de “feliz cativeiro”, admitindo o seu deslumbre perante os comentários que Borges tecia às leituras que faziam, “de uma vasta mas discreta erudição, muito cómicos, por vezes cruéis, quase sempre indispensáveis.”
A cegueira fez também com que a sua memória se tornasse mais apurada. Sabia de cor a ordem pela qual tinha arrumado os seus livros e, por isso, conseguia chegar ao exemplar que queria sem o auxílio de ninguém. Para além disso, memorizou inúmeros textos e citações, com as quais agraciava frequentemente as pessoas com quem travava conversa.