Jorge Luis Borges, o eterno bibliotecário

Por: Beatriz Sertório a 2021-08-24 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges nasceu em Buenos Aires, em 1899. Cresceu no bairro de Palermo, «num jardim, por detrás de uma grade com lanças, e numa biblioteca de ilimitados livros ingleses».
Em 1914 viajou com a família pela Europa, acabando por se instalar em Bruxelas, e posteriormente em Maiorca, Sevilha e Madrid. Regressado a Buenos Aires, em 1921, Borges começou a participar ativamente na vida cultural argentina.
Em 1923, publicou o seu primeiro livro — Fervor de Buenos Aires — mas o reconhecimento internacional só chegou em 1961, com o Prémio Formentor, seguido por inúmeros outros. A par da poesia, Borges escreveu ficção (é sem dúvida um dos nomes maiores do conto ou da narrativa breve), crítica e ensaio, géneros que praticou com grande originalidade e lucidez.
A sua obra é como o labirinto de uma enorme biblioteca, uma construção fantástica e metafísica que cruza todos os saberes e os grandes temas universais: o tempo, «eu e o outro», Deus, o infinito, o sonho, as literaturas perdidas, a eternidade — e os autores que deixam a sua marca.
Foi professor de literatura e dirigiu a Biblioteca Nacional de Buenos Aires entre 1955 e 1973.
Morreu em Genebra, em junho de 1986.

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Nascido na Argentina, em 1899, Jorge Luis Borges foi, em primeiro lugar, um leitor ávido – de livros e do mundo – e, logo de seguida, escritor, tradutor e bibliotecário. A vontade de saber mais foi o princípio orientador de toda a sua vida e nas páginas de autores como Virgílio, Shakespeare, Cervantes, Verlaine, Flaubert, Voltaire, Kafka ou Shopenhauer , aprendeu as ferramentas que o tornariam numa das figuras literárias mais proeminentes do século XX. Para além dos contos e da poesia, os seus textos ensaísticos granjearam-lhe a admiração de muitos, não só como autor mas como mestre de vida, algo que o surpreendia particularmente, por considerar que a sua própria vida tinha sido uma série de erros. Sendo o humor um elemento algo ignorado mas sempre presente na sua obra, é possível que esta tenha sido uma piada para atenuar a dureza de ser já octagenário quando a contou. Contudo, numa entrevista com o poeta argentino, e seu amigo, Osvaldo Ferrari, afirmou: “[E]u tento que tudo seja uma brincadeira; a única forma de ver as coisas a sério, não é?” .
 

Hoje, comemoramos 122 anos do nascimento deste autor que, mesmo cego, viu o mundo e as pessoas mais profundamente pois, como canta Chico Buarque“Os poetas, como os cegos, podem ver na escuridão” .

 



“Estando cego, vivo na solidão e, durante todas essas horas, resta-me imaginar. Tenho sempre uma história na cabeça, que se tornará conto ou poema. Eu tendo a transformar tudo em literatura. Não posso dizer que é o meu ofício. É o meu destino. Eu vivo na literatura.”

 
UMA PENUMBRA PARECIDA COM A ETERNIDADE

Um dos traços distintos de Borges é a condição visual que herdou do pai, e que o cegou totalmente aos 55 anos. Para um leitor e escritor como ele, a perda da visão poderia ser uma tragédia de que nunca recuperaria, mas o autor arranjou forma de contornar esse constrangimento, confiando noutras pessoas para lerem e escreverem por si. À sua secretária, ditava as palavras que vieram a fazer parte de livros como O Livro de Areia, A Memória de Shakespeare ou O Livro dos Seres Imaginários. Entre as pessoas que tiveram o prazer de ler para Borges, conta-se o autor Alberto Manguel que descreveu a experiência no seu livro Uma História da Leitura como uma espécie de “feliz cativeiro”, admitindo o seu deslumbre perante os comentários que Borges tecia às leituras que faziam, “de uma vasta mas discreta erudição, muito cómicos, por vezes cruéis, quase sempre indispensáveis.”

A cegueira fez também com que a sua memória se tornasse mais apurada. Sabia de cor a ordem pela qual tinha arrumado os seus livros e, por isso, conseguia chegar ao exemplar que queria sem o auxílio de ninguém. Para além disso, memorizou inúmeros textos e citações, com as quais agraciava frequentemente as pessoas com quem travava conversa.

 

O PARAÍSO SEGUNDO BORGES

É famosa a citação de Borges que diz: “Sempre imaginei que o paraíso seria algum tipo de biblioteca.” Para além de ser uma manifestação do seu amor irremediável por livros e evocar o período em que o mesmo trabalhou como Diretor da Biblioteca Nacional de Buenos Aires (entre 1955 e 1973), esta atesta também para as possibilidades infinitas da literatura e da imaginação. Embora já quisesse ser escritor desde os 6 anos de idade, com a perda da visão, a imaginação ganhou uma importância ainda maior. Borges chega mesmo a afirmar a sua crença na superioridade da ficção em relação à realidade, evocando frequentemente o exemplo de Samuel Taylor Coleridge que escreveu o poema The Rime of the Ancient Mariner sem nunca ter visto o mar e quando, finalmente, o viu sentiu-se defraudado.

Talvez tenha sido também por isso que Borges continuou a viajar e a sonhar conhecer o mundo inteiro, até aos seus últimos dias. Para além dos destinos das suas viagens servirem de inspiração para a sua ficção, compilou algumas das suas impressões de viagens no livro Atlas, sendo o mesmo possível, segundo o próprio, pelo “facto de sentir os países, embora não os veja.”

 

“O verbo ler, como o verbo amar e o verbo sonhar, não suporta o modo imperativo. Eu aconselho sempre os meus alunos que se um livro os aborrece o abandonem; que não o leiam porque é famoso, que não o leiam porque é moderno, que não o leiam porque é um clássico. A leitura deve ser uma das formas da felicidade e não se pode obrigar ninguém a ser feliz.”

 
O NOBEL DA LITERATURA ALTERNATIVO

Quando se fala em escritores injustamente ignorados pelo Prémio Nobel da Literatura, é recorrente a menção a Jorge Luis Borges. Embora existam várias teorias sobre a razão deste não lhe ter sido atribuído, a mais consensual prende-se com uma visita de Borges ao Chile, durante o período da ditadura militar de Pinochet. Embora o autor tenha afirmado por várias vezes o seu apartidarismo, é possível que certas divergências políticas tenham pesado na decisão da academia sueca. A prova de que continuam a existir muitos leitores a defender que o autor argentino merecia este reconhecimento é que, em 2018, na ausência do verdadeiro prémio, devido às polémicas que assolaram a academia sueca nesse ano, um Comité internacional de escritores atribuiu-lhe um Nobel da Literatura simbólico.

Ainda que a humildade e timidez crónica de Borges não lhe permitissem compreender a razão da admiração dos leitores e da comunidade literária pela sua obra, não deixa de ser um importante testemunho do seu contributo para a literatura o facto de continuar a ser homenageado mais de três décadas após a sua morte. De resto, se fosse vivo, podemos imaginar que reagiria a esta homenagem com humor, como fez com quase tudo na vida, sendo que sobre o facto de nunca ter ganho o Nobel, teceu o seguinte comentário: “Desde o dia em que nasci que se tornou uma enraizada tradição escandinava a de não me atribuírem o prémio Nobel.”

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