O que seria dos heróis literários sem aqueles que os acompanham, lado a lado, nas suas jornadas? Os amigos, pois. Às vezes, formam parelhas protagonistas, remando no mesmo sentido. Noutras, contrariam-se. Genericamente, apoiam-se. Mas todos influenciam de modo decisivo a vida uns dos outros. A amizade é uma poderosa força motriz da ficção. Eis alguns exemplos inesquecíveis.
Dom Quixote de La Mancha
De Miguel de Cervantes
"Sancho, amigo", disse o cavaleiro andante D. Quixote, "toma tento que, por muitos perigos que me vejas correr, de modo algum te atrevas a pôr a mão nos punhos da espada em minha defesa. A menos que se trate de gente ordinária e vilanagem, porque em tal caso podes acudir-me. Agora, se forem cavaleiros, já sabes, não te é lícito, nem concedido pelas leis da cavalaria, socorreres-me enquanto não fores armado cavaleiro". Ao que o fiel escudeiro respondeu: "Limito-me a dizer que guardarei esse preceito tão perfeita e religiosamente como o dia de domingo." A genialidade desta obra-prima de Cervantes (1547–1616) reside, em grande parte, na evolução complexa da união ímpar entre estes dois seres, ao longo das suas aventuras épicas. Esta é uma das mais belas histórias de amizade da literatura universal, o berço das personagens-invenção, absolutamente únicas e inimitáveis.
Bouvard & Pécuchet
De Gustave Flaubert
Romance póstumo e inacabado, foi escrito por Flaubert (1821–1880) com a intenção de "vomitar sobre os meus contemporâneos a repugnância que me inspiram, ainda que me parta o coração; será amplo e violento". Após se conhecerem num banco de avenida, dois copistas, Charles Bouvard e Francis Pécuchet, encontram afinidades no desprezo pela mediocridade do seu quotidiano parisiense e no desejo de morarem no campo. Em breve, poderão fazê-lo, graças a uma herança inesperada, iniciando uma desvairada empreitada de autodidatismo. Embrulhados em contradições teóricas, labirintos especulativos e argumentações solipsistas — também por manifesta falta de método da sua parte —, desiludem-se do poder do conhecimento. Regressam à cidade e à profissão de origem, esclarecidos sobretudo sobre a força da amizade e a importância do sentido crítico na busca de qualquer verdade ou significado. Fábula cómica e erudita, contém um antídoto contra a estupidez.
A História Secreta
De Donna Tartt
Ao ingressar como bolseiro numa faculdade de elite na Nova Inglaterra, Richard Papen, o protagonista deste romance de 1992, cede à influência de um carismático professor de Estudos Clássicos e integra o grupo restrito dos seus alunos. Este círculo secreto de amigos idealiza a beleza e a intelectualidade, cultiva a excentricidade e recria rituais dionisíacos. O enredo segue em reverso a história de dois crimes e várias mortes, a revelação da natureza complexa de cada personagem e da ruína moral e desintegração do grupo. Thriller psicológico, com volume e notas de erudição que podem cansar alguns leitores, A História Secreta é, ainda assim, de leitura obrigatória para quem quer esmiuçar o lado menos literariamente explorado da amizade: o da sua fragilidade sob pressão.
Trainspotting
De Irvine Welsh
Romance de culto datado de 1993, o primeiro do autor escocês (n. 1958), contém elementos autobiográficos, como o cenário (Leith, a zona portuária a leste de Edimburgo, onde nasceu, e o subúrbio, onde cresceu) e a dependência de heroína (aos 20 e poucos anos). Cinco amigos inseparáveis (três deles heroinómanos) acompanham-se em experiências caóticas e radicais, e submundo das drogas. Mark Renton, o protagonista, é a base do grupo, debatendo-se ao longo da narrativa entre ser-lhe leal ou escapar à desolação que o cerca e consome. O tema central é a amizade como fonte de identidade, inspiração negativa ou refúgio seguro e redentor. O retrato deste percurso de amizade é sulfuroso, anárquico, brutalmente realista.
O Amigo Comum
De Charles Dickens
Entre todos os laços de amizade emblemáticos em Dickens (1812–1870), destacam-se os que unem o órfão fugitivo Oliver Twist ao carteirista Jack Dawkins ou David Copperfield a James Steerforth. Mas o par Eugene Wrayburn e Mortimer Lightwood, do seu derradeiro romance, O Amigo Comum (1864–65), revela um tratamento mais completo e lapidado, além de ilustrar na perfeição a ironia fina e a sátira social corrosiva do escritor. Aborrecidos de morte com as minudências do seu círculo social, os amigos Wrayburn e Lightwood fumam preguiçosos cigarros, fazem deliciosos comentários sarcásticos e sonham viver juntos “num rochedo isolado”, numa monotonia bem definida, “limitada a nós dois”. Até ao fim do romance, a amizade amadurece e ajuda-os a escolherem caminhos mais corajosos.
O Menino de Cabul
De Khaled Hosseini
Cabul, década de 70. Amir, órfão de mãe, filho único de um bem-sucedido homem de negócios, passa os dias a brincar e a lançar papagaios com o melhor amigo, Hassan, filho do criado do seu pai. Amir e Hassan, da minoria étnica Hazara, tiveram a mesma ama de leite e cresceram juntos. Tal não impede que, um dia, Amir traia Hassan, deixando que o violem. Dos anos 80 e da fuga do Afeganistão, invadido pelos soviéticos, para a Califórnia, e até 2001, quando regressa ao país, dominado pelos talibãs, Amir é assombrado pela culpa, da qual agora se quer redimir. O Menino de Cabul (2001) é o bestseller contemporâneo sobre a amizade, nele tratada como alegoria das cicatrizes da guerra e do poder da reconciliação.
O Sino
De Iris Murdoch
Para a escritora e filósofa irlandesa (1919–1999), o verdadeiro conhecimento do outro obriga a vê-lo como realmente é, percebendo-o enquanto pessoa, com qualidades positivas e negativas. Esta possibilidade é, acima de tudo, manifestada na amizade, que se alimenta de "atenção amorosa", idealmente liberta da prisão do ego, essencial ao ponto de se exprimir de forma física e ser mais relevante do que os laços familiares. Vários dos romances psicológicos (com elementos filosóficos e cómicos) de Murdoch centram-se em emaranhados envolvimentos amorosos entre amigos de um mesmo grupo (alguns inspirados nas suas próprias vivências em Oxford), mas, em O Sino, encontramos mais explícita esta conceção da amizade como uma porta "a compreensão extremamente difícil de que algo para além de si mesmo é real".
Ratos e Homens
de John Steinbeck
Publicado em 1937, 25 anos antes de Steinbeck (1902–1968) ganhar o Nobel da Literatura, Ratos e Homens é hoje um clássico sobre a amizade. Durante a Grande Depressão, na Califórnia, dois trabalhadores agrícolas itinerantes sonham juntar dinheiro para, um dia, comprarem juntos um pedaço de terra e viverem tranquilos a criar coelhos. Georgie é magro, astuto e pragmático. Lennie é um gigante bondoso e ingénuo, com uma força descomunal. O cerne da história é a amizade entre os dois, improvável, mas inquebrável, revelando-os como personagens complexas e multidimensionais, enquanto lutam e se apoiam num mundo hostil.
As aventuras de Huckleberry Finn
De Mark Twain
Huckleberry afasta-se na canoa e, da margem, Jim grita-lhe que foi graças a ele que passou a homem livre e que jamais o esquecerá: "Tu és o mêlhor amigo quê o Jim alguma vez teve — e o único amigo quê o Jim tem, ágora." Huck confessa ao leitor: "Eu ia a remar para longe, ansioso por o denunciar, mas, quando ele disse isto, perdi a coragem quase toda." Em 1884, Mark Twain (1835–1910) pôs esta dupla, do vagabundo de 13 anos e do escravo, a descer o Mississipi em busca de liberdade e criou um exemplo raro de como a amizade vence preconceitos e possibilita um despertar moral. No romance, Tom Sawyer continua a ser o melhor compincha de Huckleberry, o que advém de aventuras passadas, também aconselháveis.
A Menina do Mar
De Sophia de Mello Breyner Andresen
"Ó polvo, ó caranguejo, ó peixe, acudam-me, salvem-me — gritava a Menina do Mar. Então, o polvo, o caranguejo e o peixe, apesar de estarem cheios de medo, saíram detrás das algas onde se tinham escondido, e começaram a tentar salvar a Menina. Faziam o que podiam: o polvo trepava pelas pernas do rapaz, o caranguejo, com as suas tenazes, beliscava-lhe os pés, o peixe mordia-lhe nas canelas. Mas o rapaz era maior e tinha mais força, deu-lhes alguns pontapés e fugiu para longe com a Menina do Mar […]." Escrito por Sophia de Mello Breyner Andresen (1919–2004) para os filhos, este conto é uma encantadora iniciação literária para as crianças. A leitura pode ser complementada com O Rapaz de Bronze, da mesma autora.
O Caso Sparsholt
De Alan Hollinghurst
As relações entre ingleses queer das classes altas, em que a amizade é o único laço verdadeiramente explícito, é o tema de quase todos os romances de Hollinghurst (n. 1954). O destaque vai, por norma, para A Linha da Beleza, de 2004, no qual o escritor aborda o aparecimento da sida, mas O Caso Sparsholt apresenta uma tela mais vasta. Em 1940, enquanto o blitz faz arder Londres, David Sparsholt, ao que tudo indicava ser heterossexual, muito jovem, esbelto e vigoroso, chega a Oxford, onde é rapidamente cobiçado por três estudantes, que o acolhem como amigo. Seguem-se mais quatro capítulos, acompanhando momentos-chave para David e o seu filho gay, Johnny, até 2012. A repetição de situações, em diferentes contextos históricos e sociais, é um artifício bem-sucedido e, apesar de algumas situações crípticas, não se perdem as reverberações do mote inicial: o do interesse predador disfarçado de amizade.
Mais sugestões:
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Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas
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Uma Casa no Fim do Mundo, de Michael Cunningham
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Sherlock Holmes - Um Estudo em Vermelho, de Arthur Conan Doyle
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O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald
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A Amiga Genial, de Elena Ferrante
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O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien
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Amizade, de Francesco Alberoni
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O Feiticeiro de Oz, de L. Frank Baum
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Harry Potter (série), de J. K. Rowling
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Winnie the Pooh, de A. A. Milne
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Orgulho e Preconceito, de Jane Austen
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Calvin and Hobbes, de Bill Waterson