José Luís Peixoto nasceu no Alentejo, em Galveias, no ano de 1974, mas a sua escrita nasceu e cresceu para o mundo. Hoje, no dia do seu aniversário, celebramos não apenas o autor, mas o gesto de escrever que o tornou uma das presenças mais singulares da literatura portuguesa contemporânea, e das mais traduzidas internacionalmente.
Aproveitamos o pretexto para revisitar uma obra vasta, mais de duas décadas de escrita sob diversas formas, desde romances premiados, até contos, crónicas e poesia. Reunimos dois poemas da sua autoria, de livros diferentes, fragmentos que nos convidam a percorrer alguns dos caminhos traçados pelo autor, e talvez até a nos encontrarmos a nós mesmos no universo das suas palavras.
1.
Olho para o livro que me emprestaste
e que nunca devolvi. Também ele olha para mim.
Tem as marcas da tua leitura, certos vincos
no branco das páginas, manchas subtis e difusas
como nuvens, restos das tuas mãos ou do teu olhar.
Espero que não penses sobre mim o que penso
sobre as pessoas que nunca me devolveram
os livros que emprestei. O que pensarás tu
sobre mim? Nunca li o livro que me emprestaste,
preferi sempre imaginá-lo. Suponho que ainda
se sinta estrangeiro entre os meus livros,
mas agora é demasiado tarde para devolvê-lo,
há tanto tempo que não falamos, não sei
se ainda guardo o teu número de telefone.
O que pensarias se agora, a despropósito,
te quisesse devolver o livro? Havias de pensar
que queria alguma coisa. Sabes, fico com o teu
livro porque não quero nada. Provavelmente,
nunca te devolverei este livro, fará parte do
meu espólio, é a última ligação que temos.
José Luís Peixoto, in Regresso a Casa (2020)
2.
Encantar-te-ás com os poetas até conheceres um.
Com calças de poeta, camisa de poeta e casaco
de poeta, os poetas dirigem-se ao supermercado.
As pessoas que estão sozinhas telefonam muitas vezes,
por isso, os poetas telefonam muitas vezes. Querem
falar de artigos de jornal, de fotografias ou de postais.
Nunca dês demasiado a um poeta, arrepender-te-ás.
São sempre os últimos a encontrar estacionamento
para o carro, mas quando chove não se molham,
passam entre as gotas de chuva. Não por serem
mágicos, ou serem magros, mas por serem parvos.
A falta de sentido prático dos poetas não tem graça.
José Luís Peixoto, in Gaveta de Papéis (2008)