Do ortónimo aos heterónimos: quatro poemas de Fernando Pessoa

Por: Maria João Viegas a 2026-06-13

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Um dos maiores génios poéticos de toda a nossa literatura, conhecido mundialmente. A sua poesia acabou por ser decisiva na evolução de toda a produção poética portuguesa do século xx. Se nele é ainda notória a herança simbolista, Pessoa foi mais longe, não só quanto à criação (e invenção) de novas tentativas artísticas e literárias, mas também no que respeita ao esforço de teorização e de crítica literária. É um poeta universal, na medida em que nos foi dando, mesmo com contradições, uma visão simultaneamente múltipla e unitária da vida. É precisamente nesta tentativa de olhar o mundo duma forma múltipla (com um forte substrato de filosofia racionalista e mesmo de influência oriental) que reside uma explicação plausível para ter criado os célebres heterónimos – Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis, sem contarmos ainda com o semi-heterónimo Bernardo Soares.
Fernando Pessoa nasceu em Lisboa em 1888 (onde virá a falecer) e aos 7 anos partiu para a África do Sul com a sua mãe e o padrasto, que foi cônsul em Durban. Aqui fez os estudos secundários, obtendo resultados brilhantes. Em fins de 1903 faz o exame de admissão à Universidade do Cabo. Com esta idade (15 anos) é já surpreendente a variedade das suas leituras literárias e filosóficas. Em 1905 regressa definitivamente a Portugal; no ano seguinte matricula-se, em Lisboa, no Curso Superior de Letras, mas abandona-o em 1907. Decide depois trabalhar como «correspondente estrangeiro». Em 1912 estreia-se na revista A Águia com artigos de natureza ensaística. 1914 é o ano da criação dos três conhecidos heterónimos e em 1915 lança, com Mário de Sá-Carneiro, José de Almada Negreiros e outros, a revista Orpheu, que dá origem ao Modernismo. Entre a fundação de algumas revistas, a colaboração poética noutras, a publicação de alguns opúsculos e o discreto convívio com amigos, divide-se a vida pública e literária deste poeta.
Pessoa marcou profundamente o movimento modernista português, quer pela produção teórica em torno do sensacionismo, quer pelo arrojo vanguardista de algumas das suas poesias, quer ainda pela animação que imprimiu à revista Orpheu (1915). No entanto, quase toda a sua vida decorreu no anonimato. Quando morreu, em 1935, publicara apenas um livro em português, Mensagem (no qual exprime poeticamente a sua visão mítica e nacionalista de Portugal), e deixou a sua famosa arca recheada de milhares de textos inéditos.

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Fernando Pessoa nasceu a 13 de junho de 1888, em Lisboa, e mais de um século depois, continua a ser uma das figuras centrais da literatura portuguesa. A sua obra atravessou fronteiras, línguas e gerações, conquistando leitores em todo o mundo. Poeta, ensaísta, tradutor e pensador, Pessoa deixou uma marca singular não apenas pela qualidade dos seus textos, mas também pela forma inovadora como concebeu a própria autoria.

A singularidade do seu legado não reside apenas nos textos que escreveu sob o seu próprio nome, mas também na criação dos seus célebres heterónimos: autores imaginários com biografias, personalidades e estilos literários distintos. Mais do que simples pseudónimos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos constituem um dos projetos literários mais originais do século XX.

Foi através destas vozes que Pessoa explorou algumas das grandes questões da condição humana: a identidade, o sentido da existência, a relação entre pensamento e realidade, o tempo, o desejo e a solidão. O próprio Fernando Pessoa — designado por “ortónimo” quando escreve sob o seu nome — ocupava um lugar particular neste diálogo literário, coexistindo com os heterónimos que concebeu e com os quais chegou a estabelecer relações de influência, amizade e até divergência estética.

Celebrar Fernando Pessoa é, por isso, celebrar uma literatura que se multiplica em muitas vozes sem perder a sua unidade. É revisitar um autor que transformou a dúvida em arte, a imaginação em identidade e a poesia num espaço infinito de possibilidades.

Neste aniversário do poeta, reunimos alguns poemas do ortónimo e dos seus principais heterónimos — uma oportunidade para entrar, ou regressar, ao extraordinário universo pessoano.

 

Fernando Pessoa

Se os heterónimos representam diferentes formas de sentir e pensar, o ortónimo é muitas vezes o espaço onde Pessoa reflete sobre a própria identidade. A fragmentação do eu, a dúvida e a consciência de si atravessam muitos dos seus poemas mais conhecidos.

Não sei quantas almas tenho.

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.

— Originalmente publicado em 1930; Incluído em Poesia de Fernando Pessoa, 2022.

 

Alberto Caeiro

Pessoa chegou a chamar-lhe “o mestre”, apesar de ser uma figura criada por si. Caeiro defendia que o mundo não precisava de ser interpretado: bastava vê-lo e senti-lo tal como é. Talvez por isso a sua poesia procure uma simplicidade radical, feita de observação direta e sem grandes abstrações.

Para Pessoa, todos os outros heterónimos nasceram da influência de Caeiro. Mesmo sendo uma figura imaginária, foi ele quem acabou por ocupar o centro deste universo literário.

IX - Sou um guardador de rebanhos.

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

— Originalmente publicado em 1925; Incluído em Poemas Escolhidos de Alberto Caeiro, 2013.

 

Ricardo Reis

Enquanto outros heterónimos vivem emoções intensas, Ricardo Reis prefere a contenção. Médico e estudioso dos clássicos greco-latinos, Reis escreve como quem procura equilíbrio num mundo instável. A serenidade dos seus versos esconde uma consciência permanente da passagem do tempo.

Uns, com os olhos postos no passado,

Uns, com os olhos postos no passado,
Veem o que não veem; outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, veem
O que não pode ver-se.

Porque tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.

— Originalmente publicado em 1933; Incluído em Poesia de Ricardo Reis, 2023.

 

Álvaro de Campos

Se Caeiro procura a simplicidade e Reis a medida, Álvaro de Campos representa o excesso. Entusiasta, melancólico, contraditório e profundamente moderno, vive tudo com intensidade — do fascínio pelo progresso tecnológico à angústia perante a própria existência.

Foi através de Campos que Pessoa escreveu alguns dos textos mais intensos da literatura portuguesa. Da euforia futurista ao vazio existencial, poucas emoções lhe passam ao lado. É talvez o heterónimo mais próximo das inquietações do mundo contemporâneo.

Diz-se, ainda, que Campos ocasionalmente “aparecia” junto de Ofélia, a amada de Pessoa, e conversavam e trocavam cartas.

Ode Triunfal

À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical —
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força —
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.

[...]

— Originalmente publicado em 1915; Incluído em Poemas Escolhidos de Álvaro de Campos, 2013.

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