Hoje, 21 de março, assinala-se o Dia internacional pela eliminação da discriminação racial, o dia que ficou marcado para sempre pelo som de 1344 tiros disparados sobre uma multidão desarmada numa pequena localidade sul-africana chamada Sharpeville.
Para perceber o que aconteceu naquele dia de março de 1960, é preciso compreender o sistema que o tornou possível: o apartheid era um sistema legal e racista que negava direitos e liberdades a qualquer pessoa que não fosse considerada branca, numa sociedade em que os brancos representavam apenas 15% da população, mas detinham os lugares de topo na política, na economia e na vida social. A população negra, que constituía 80% da população, era sistematicamente marginalizada e reprimida.
Um dos instrumentos mais opressores desse sistema era a Lei do Passe. Qualquer pessoa negra com mais de 16 anos era obrigada a transportar consigo uma caderneta com bilhete de identidade, autorização de trabalho e de residência, o nome e morada do empregador e um registo de historial pessoal. Sem esse documento, podiam ser presos imediatamente.
A partir de 1959-1960, as leis do passe foram alargadas para incluir também as mulheres.
Em dezembro de 1959, na conferência anual do Congresso Nacional Africano (ANC) em Durban, o presidente e chefe Albert Luthuli, anunciou que planeava lançar uma campanha nacional anti passe a 31 de março. Pouco depois, o Congresso Pan-Africano (PAC), um grupo dissidente do ANC fundado em abril de 1959 e sob a liderança de Robert Sobukwe, anunciou que lançaria a sua própria campanha antes dessa data.
Foi o PAC que organizou o protesto em Sharpeville. Sobukwe, então professor na Universidade de Witwatersrand, escreveu uma carta ao comissário de polícia a anunciar o protesto e a garantir que os participantes seriam completamente não violentos. O plano era apenas desobediência civil: apresentar-se à esquadra sem o passe e pedir para ser preso, tornando o sistema insustentável.
21 de março de 1960
O ambiente era inicialmente pacífico e festivo. Os manifestantes marchavam entoando canções de liberdade e gritando palavras de ordem: "Izwe lethu" (A nossa terra), "Awaphele amapasti" (Abaixo os passes), "Sobukwe Sikhokhele" (Lidera-nos, Sobukwe). Quando chegaram à esquadra, encontraram a força policial fortemente armada, com agentes posicionados em cima de carros blindados.
Às 13h30, sem qualquer aviso prévio, a polícia abriu fogo. Foram disparados 1344 tiros sobre a multidão. Os registos policiais apontam para 69 mortos e cerca de 180 feridos; investigações posteriores sugerem que o número real de vítimas mortais poderá ter sido ainda mais elevado. Entre as vítimas contavam-se cerca de 50 mulheres e crianças. A maioria tinha sido atingida pelas costas enquanto fugia.
Sharpeville não foi o único lugar onde a polícia disparou naquele dia. Em Langa, nos arredores da Cidade do Cabo, houve outro protesto simultâneo: a polícia também abriu fogo, matando mais pessoas.
A resposta oficial do governo foi reveladora: o primeiro-ministro Hendrik Verwoerd elogiou publicamente a atuação da polícia.
A semana seguinte ao massacre foi de agitação em todo o país. A 25 de março, perante a pressão crescente, o governo suspendeu temporariamente as leis do passe. O ANC e o PAC convocaram um dia nacional de luto para 28 de março: foi a primeira greve nacional da história da África do Sul, com uma adesão enorme.
Nesse mesmo contexto, a 30 de março, Philip Kgosana, um estudante universitário de 23 anos que era secretário regional do PAC na Cidade do Cabo, liderou uma marcha de cerca de 30 000 pessoas desde os bairros de Langa e Nyanga até à sede da polícia em Caledon Square, no centro da cidade. Kgosana negociou uma reunião com o ministro da Justiça e pediu à multidão que regressasse em silêncio às suas casas (o que fizeram, ordenadamente, atravessando bairros brancos sem qualquer incidente). Quando voltou à esquadra para a reunião prometida, foi preso e colocado em isolamento durante 21 dias.
A 30 de março, o governo declarou estado de emergência, tornando ilegal qualquer protesto. Cerca de 25 000 pessoas foram detidas. A 8 de abril, o ANC e o PAC foram banidos e tornou-se ilegal ser membro destas organizações. Nelson Mandela foi um dos que escolheu a clandestinidade, abandonou os princípios de resistência exclusivamente pacífica, e tanto o ANC como o PAC formaram alas armadas.
O impacto no mundo
Sharpeville mudou o olhar do mundo sobre a África do Sul. O acontecimento contribuiu para a saída do país da Comunidade Britânica de Nações em 1961 e acelerou o seu isolamento na cena internacional. O Comité Olímpico Internacional baniu a África do Sul dos Jogos Olímpicos a partir de 1964, e proibições semelhantes impediram as suas equipas de participar em competições internacionais de râguebi e críquete.
A 1 de abril, o Conselho de Segurança da ONU aprovou uma resolução a condenar os assassinatos e a exigir ao governo sul-africano que abandonasse o apartheid. Foi a primeira vez que a ONU discutiu o assunto. Em 1966, como consequência direta do massacre, a Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou o 21 de março como Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial.
O apartheid só terminou oficialmente em 1994. Em dezembro de 1996, a nova Constituição sul-africana foi assinada pelo Presidente Nelson Mandela em Sharpeville, a poucos metros do lugar onde tudo acontecera. Na África do Sul, o 21 de março é hoje feriado nacional, "Dia dos Direitos Humanos".