”Quando chega o dia, saímos da sombra
Em chamas e sem medo.
A nova aurora floresce enquanto a libertamos,
Pois há sempre luz,
Se houver coragem sufi ciente para a ver,
Se houver coragem suficiente para o ser.”
— Amanda Gorman, A Colina que Subimos
“Quando chega o dia, perguntamo-nos: / Onde podemos encontrar luz”. 20 de janeiro de 2021. O dia chegou e foi com a luz a dançar-lhe na voz que Amanda Gorman, 22 anos, leu o poema The Hill We Climb (A Colina que Subimos), na tomada de posse do presidente norte-americano, Joe Biden. Apresentou-se como “Uma rapariga magrinha e negra, descendente de escravos e criada por uma mãe solteira”. O mundo assistiu e sentiu o coração descompassado por ver a promessa de futuro entregue nos versos spoken-word, acompanhados pelo bailado das mãos, da mais jovem poeta a assumir a tarefa de pincelar com poesia a política americana. Foi em 1961 que John F. Kennedy decidiu fazer ouvir um poema dito pelo seu autor, no dia da tomada de posse como presidente dos Estados Unidos da América. Amanda Gorman foi a sexta a fazê-lo, depois de Robert Frost, Miller Williams, Elizabeth Alexander, Richard Blanco e Maya Angelou.
Do poema fez-se livro e, meses depois, a polémica engordou manchetes e abafou, por instantes, a poesia. Marieke Lucas Rijneveld, 29 anos (Prémio Booker 2020), deu um passo atrás e desistiu de fazer a tradução neerlandesa de The Hill We Climb. Marieke, que se identifica como pessoa não-binária, afastou-se após as redes sociais a apelidarem de “escolha incompreensível” e se terem insurgido contra “uma tradução branca para a poesia de Amanda Gorman”. Seguiu-se o afastamento do tradutor catalão, Victor Obiols, tradutor de obras de William Shakespeare e Oscar Wilde: “Disseram-me que eu não era adequado (...). Não questionaram as minhas qualidades, mas procuravam um perfil diferente, o de uma mulher, jovem, ativista, e de preferência negra. (…) É um assunto muito complexo que não pode ser tratado de ânimo leve. Mas se não posso traduzir uma poeta porque ela é uma mulher, jovem, negra, americana do século XXI, então também não posso traduzir Homero, porque não sou um grego do século VIII a.C., ou não poderia ter traduzido Shakespeare, porque não sou um inglês do século XVI” (rtp.pt).
Marieke Lucas Rijneveld.
Victor Obiols.
No artigo A literatura tem cor? A tradução tem cor? A identidade importa?, publicado no jornal Público (19 de março de 2021), Isabel Lucas cita, nomeadamente, Djamilia Pereira de Almeida, negra com dupla nacionalidade, angolana e portuguesa, autora dos aclamados Esse Cabelo e Luanda, Lisboa Paraíso: “A ideia de que autores negros não devem ser traduzidos por brancos implica uma posição recíproca inaceitável: a de que, como mulher negra, não me é reconhecida a capacidade (mais ainda, o direito) de traduzir, por exemplo, Rousseau ou Flaubert. Essa é uma capacidade literária. O género, a cor, o meu contexto familiar não são o que me qualifica para traduzir Toni Morrison, nem o que me desqualifica para traduzir Pushkin”. “Imaginar que só uma mulher negra pode traduzir o que escrevo sugere que só uma mulher negra poderá compreender essa tradução e, portanto, que só posso ser entendida por leitoras negras”, acrescenta. António Araújo, num artigo publicado na edição n.º 159 da revista LER, partilha com os leitores as suas inquietações, que certamente encontrarão eco em muitos de nós: “Porque é que a etnia e o cromatismo da pele de um tradutor lhe conferem especiais qualificações para o seu ofício? Isso não será racismo, no fim de contas?”.“Um homem pode traduzir literatura feminista? Um heterossexual pode verter para a sua língua escritos queer? Um agnóstico pode dar voz à Bíblia? E quem pode traduzir os clássicos, Aristóteles ou Platão, Joyce ou T. S. Eliot? Um judeu não pode traduzir Mein Kampf? Ou, pelo contrário, só um judeu pode fazê-lo? (…) Não haverá aqui o risco, mais do que evidente, de se criarem novos casulos e barreiras, contrariando a essência própria, universalista, dialogante, do acto de traduzir?”
Talvez não haja respostas à vista, porque todos os dias nascem novas polémicas, polarizações improváveis, temas quentes que empolam as discussões. Por entre todos os fogos que vão sendo ateados, por vezes, há um vislumbre de entendimento, um dia claro. Tantas vezes, há apenas cinza a cobrir a superfície dos dias. Pelo meio, destreina-se o olhar, cansa-se o belo e até a poesia tem dúvidas. “Os poemas são seres delicadosrespiram por uma lei própria e singular. E, quando os traduzimos, temos de os tornar nossos; ou, melhor dizendo, transformá-los em poemas na nossa própria língua. Têm de funcionar. E o nosso papel é conseguir que funcionem e, num mesmo gesto, sair da frente” (Vasco Gato, Escrever a Língua, Lacrau — Traduções e Versões de Poesia).