No dia em que Clarice Lispector completaria 104 anos, a editora Companhia das Letras anunciou a publicação da sua obra completa em Portugal. Com o objetivo de “levar Clarice Lispector a todos os leitores, que merecem descobri-la na sua absoluta intemporalidade e inquestionável pertinência”, as novas edições contam com prefácios de autores e académicos como Carlos Mendes de Sousa, Joana Matos Frias, Pedro Mexia e Susana Moreira Marques, e começam a chegar às livrarias a partir do dia 20 de janeiro. A paixão segundo G.H., Água viva, Um sopro de vida e Perto do coração selvagem são os primeiros títulos da coleção, com mais um livro inédito de crónicas a chegar ainda este ano. Aproveite esta oportunidade para conhecer ou redescobrir um dos maiores nomes da literatura brasileira em quatro curiosidades e quatro livros.
4 curiosidades sobre Clarice Lispector…
1. Antes de ser Clarice, era Haia
Talvez não saiba mas Clarice não nasceu com o nome pelo qual viria a ser conhecida em todo o mundo, e também não nasceu no Brasil. Haia (um nome que significa “vida”) Pinkhasovna Lispector nasceu na Ucrânia e emigrou para o Brasil com a família em 1922 para fugir à guerra civil. Em Maceió, no Nordeste do Brasil, onde chegou com cerca de 1 ano e 2 meses, muda de nome para Clarice e só aos 21 anos consegue a naturalização brasileira.
2. Escreveu o seu primeiro manuscrito com apenas 9 anos
Desde muito cedo, Clarice Lispector demonstrou um fascínio por livros e um talento natural para brincar com palavras. Em 1930, com apenas 9 anos, uma ida ao teatro inspirou-a a criar a sua primeira peça: Pobre Menina Rica, uma obra em três atos. No entanto, tomada pela timidez ou pelo medo da exposição, Clarice rasgou o manuscrito antes que alguém pudesse lê-lo. Passar-se-iam 13 anos até à publicação do seu primeiro romance.
3. Era uma mulher de múltiplos talentos
Embora tenha dedicado a sua vida à escrita, Clarice formou-se em Direito na Universidade do Brasil, numa altura em que era ainda incomum para uma mulher ingressar a faculdade. Posteriormente, seguiu o ramo jornalístico como editora e repórter na Agência Nacional, onde se tornou na única mulher, até então, a ocupar um alto cargo na empresa. Por falar fluentemente português, inglês, francês e espanhol, trabalhou ainda como tradutora, tendo traduzido obras de grandes autores, como Jack London, Júlio Verne, Oscar Wilde e Agatha Christie.
4. É uma das escritoras brasileiras mais traduzidas e estudadas no mundo
Apesar da sua morte precoce, aos 55 anos, vítima de cancro no ovário, Clarice Lispector deixou um legado literário inigualável, consolidando-se como uma das maiores autoras da história da literatura brasileira. Com 26 livros publicados, as suas obras foram traduzidas para 32 idiomas e publicadas em cerca de 40 países, sendo amplamente estudadas por académicos de todo o mundo.
… e 4 livros essenciais
Perto do Coração Selvagem
Foi o primeiro romance de Clarice Lispector, publicado em 1943, quando a autora tinha 23 anos, e uma verdadeira “pedrada no charco” no panorama literário brasileiro. Dele, diz a escritora Susana Moreira Marques no prefácio da edição da Companhia das Letras: “A leitura deste romance confronta-nos com o que sabemos sobre nós próprios e com o quanto fingimos não saber. […] Pegue no livro. Pegue no lápis. Encontre as frases, para não se esquecer de que a felicidade nunca é dada por ninguém a não ser por nós mesmos.”
A Paixão Segundo G.H.
Publicado originalmente em 1964, A paixão segundo G.H. é um dos romances mais conhecidos e lidos da autora, tendo sido adaptado ao cinema. Carlos Mendes de Sousa, um dos grandes especialistas mundiais da obra de Clarice Lispector, escreve no prefácio: “Um texto maior da literatura do século XX. […] A maior parte das vezes, o que acontece com Clarice é que ela nos dá encontros de vida. A grande fulminação é o impulso vital que as suas palavras contêm. Lendo-a, aproximamo-nos do seu mundo denso e verdadeiro. É por isso que, em espelho, nos estamos sempre a rever nos seus textos.”
Água Viva
Nove anos depois, em 1973, foi publicado Água viva. A professora universitária Joana Matos Frias, que escreve o prefácio, classifica este romance como “a fala tardia e nocturna, por vezes quase sonâmbula […] de uma pintora que deseja mudar de meio de expressão e procura assim dar conta, nesta noite ‘mais longa do que a vida’, do seu nascimento enquanto escritora […]. Mais do que assistir a este parto, é dado ao leitor participar nele e na descoberta do (i)mundo, com o susto de quem vê o informe tomar forma.”
Um Sopro de Vida
O último romance deste quarteto é Um sopro de vida, publicado em 1978, um ano depois da morte de Clarice. O escritor e crítico literário Pedro Mexia, que escreve o prefácio, descreve-o como “um livro deambulante, concreto e ínfimo, abstracto e inexprimível, uma inteligência dos sentidos e das sensações, mais até do que do pensamento. Torna-se por isso uma constante surpresa, exigência e ousadia […]. Mais do que um livro inacabado e póstumo, Um sopro de vida lembra a nossa comum condição póstuma e inacabada.”