O escritor António Franco Alexandre venceu, por unanimidade, a primeira edição do Grande Prémio de Poesia Diogo Bernardes, com o livro “Poemas” (2021). O prémio, patrocinado pela Câmara Municipal de Ponte da Barca, foi criado no ano passado e tem o valor pecuniário de 12.500 euros. Nesta 1.ª edição do galardão, a título excecional, concorreram obras editadas nos anos de 2019, 2020 e 2021, referiu a APE.
O júri foi constituído por Cândido Oliveira Martins, José Manuel de Vasconcelos e Rita Patrício que, em ata, divulgada pela APE, justificou a escolha de Franco Alexandre “pelo longo e singular percurso literário de várias décadas, materializado numa escrita vocacionada para a poética do impreciso, exigindo sucessivos movimentos de aproximação; uma poética onde a incerteza e a opacidade, o rumor e a metamorfose constroem uma escrita única, questionadora da própria natureza da linguagem, no propósito de dizer transfiguradoramente o mistério o mundo”.
Gregor transformou-se em barata gigante.
Eu não: fiz-me aranhiço,
tão leve que uma leve brisa o faz
oscilar no seu fio de baba lisa.
Até que, contra a lei da natureza,
creio que tenho peso negativo,
e me elevo no ar se me não prendo
ao canto mais escuro desta ilha.
Quando descer à teia derradeira
não se verá no mundo alteração, ou só
talvez alguma mosca mais contente.
Em noites de luar, na alta esquina,
ficará a brilhar, mas sem ser vista,
a estrela que tracei como armadilha.
António Franco Alexandre, in Poesia
António Franco Alexandre, de 78 anos, foi já distinguido, entre outros, com o Prémio Correntes d’Escritas, em 2005, pela obra “Duende”, que lhe valeu também o Prémio D. Dinis, em 2003. Em 1999, recebeu o Prémio de Poesia Luís Miguel Nava, pela obra “Quatro Caprichos”. O autor começou a publicar em finais da década de 1960 e conta cerca de 14 títulos.
Vi roma arder, e neros vários
bronzeados à luz da califórnia
guardar em naftalina nos armários
timidamente, a lira babilónia;
as capitais da terra, uma a uma,
desfeitas em rumor e negra espuma,
atingidas de noite no seu centro;
mas nunca vi paris contigo dentro.
E falta-me esta imagem para ter
inteiro o álbum que me coube em sorte
como um cinema onde passava «a morte»;
solene imperador, abrindo o manto
onde ocultei a cólera e o pranto,
falta-me ver paris contigo dentro.
António Franco Alexandre, in Poesia