Dois meses depois do anúncio do Nobel da Literatura 2020, a Relógio d'Água publica duas obras da laureada Louise Glück, Averno (já à venda nas livrarias) e A Íris Selvagem (disponível para pré-venda).
8 de outubro de 2020. Eram 7h00 quando Louise Glück, poeta norte-americana de 77 anos, recebeu um telefonema da Academia Sueca. Do outro lado da linha chegava a notícia: havia sido laureada com o Prémio Nobel da Literatura. Duvidou da veracidade do telefonema e a incredulidade que se seguiu atrapalhou a resposta a algumas perguntas. Em entrevista ao The New York Times, nesse mesmo dia, e já refeita da surpresa inicial, demonstrou a sua incompreensão quanto ao facto de ter sido a escolhida. "Fiquei espantada que escolhessem um poeta branco americano. Não faz sentido algum."
“Escrevo sobre a morte desde sempre.(…) Foi um choque ter descoberto, na infância, que isto não dura para sempre.”
Entre os favoritos, nas listas de apostas deste ano, constavam essencialmente nomes de mulheres, sendo Maryse Condé, Jamaica Kincaid e Anne Carson as mais referidas. A 16.ª mulher a ser galardoada com o Prémio Nobel da Literatura foi escolhida pela sua “voz poética inconfundível que, com uma beleza austera, torna a existência individual universal". Louise Glück nasceu em Nova Iorque, em 1943, numa família de emigrantes judeus vindos da Hungria (o seu pai, Daniel Glück, inventou com um cunhado, nos anos 30, a lâmina x-acto). Nos últimos anos do liceu, uma anorexia nervosa grave, e a terapia que se seguiu, durante sete anos, levou a que interrompesse os seus estudos na Universidade de Columbia. A psicanálise acabaria por marcar a sua escrita. Em 1968, publicou a sua primeira obra, Firstborn, que a catapultou para os lugares cimeiros da literatura contemporânea americana. É ensaísta, poeta e professora de língua inglesa na Universidade de Yale. Bebe influências em Rainer Maria Rilke e Emily Dickson, deu à estampa catorze livros de poesia e dois de prosa e já arrecadou prémios de peso, como o Putizer (1993), por The Wild Iris e o National Book Award (2014), por Faithful and Virtuous Night.
Louise prepara-se para lançar uma coletânea de poemas, Winter Recipes From the Collective, onde a morte é tema dominante, como aliás acontece em quase todo o seu trabalho. “Escrevo sobre a morte desde sempre.(…) Foi um choque ter descoberto, na infância, que isto não dura para sempre.” “A escrita dela é como uma conversa interior. Talvez esteja a falar consigo própria, talvez esteja a falar connosco. Há uma espécie de ironia nisso.” Quem o diz é Jonathan Galassi, editor e amigo de longa data. Para abordar as “batalhas e alegrias”, comuns a todos nós, inspira-se frequentemente na mitologia clássica, gosto que lhe vem da infância, cultivado por uns pais “visionários”, que lhe liam histórias sobre os deuses da antiguidade. Apesar de se assumir como uma pessoa bastante sociável, não gosta de dar entrevistas. “A maioria das coisas que tenho para dizer é transformada em poemas. O resto é só entretenimento.”