75 Anos da Libertação de Auschwitz | A História de Dora Bruder

Por: Sónia Rodrigues Pinto a 2020-01-28 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

Patrick Modiano

Patrick Modiano

PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA 2014

Patrick Modiano nasceu em Boulogne-Billancourt, nos arredores de Paris, em julho de 1945, e publicou o seu primeiro romance, La Place de l’Étoile, em 1968. Com Na Rua das Lojas Escuras, obteve em 1978 o Prémio Goncourt. Em 1972, recebeu o Grande Prémio de Romance da Academia Francesa com As Avenidas Periféricas.
Considerado um dos mais importantes escritores franceses, e autor de uma vasta obra, foi distinguido com o Grande Prémio Nacional das Letras e com o Prémio Nobel da Literatura de 2014.

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Dora Bruder
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No último dia do ano de 1941, o jornal Paris-Soir transmite o pedido de ajuda de um casal judeu que procura a filha de 15 anos, Dora Bruder. Depois de emigrarem da Áustria, diretamente para os subúrbios de Paris, em busca de uma vida melhor, o caminho que percorrem fica cada vez mais sufocante, até restar uma única passagem, com destino a Auschwitz.

 


 

“O meu passado é tudo quanto não consegui ser.”
in Livro do Desassossego , de Bernardo Soares

 

Dora Bruder viveu no bairro da Alameda Ornano, segura como qualquer criança se sentiria no berço onde cresceu. Os pais inscreveram-na num convento católico, em 1940, até à chegada dos alemães a França. Um ano e meio depois, a adolescente fugiu do convento, perdendo qualquer tipo de proteção que um teto religioso lhe poderia dar. Perdeu-se nos prédios parisienses, nas paredes manchadas pela destruição nazi, até ser capturada, enviada para os campos de concentração e, posteriormente, assassinada.

Em 1988, Patrick Modiano encontra um recorte do Paris-Soir : “On recherche une jeune fille, Dora Bruder, 15 ans” . As letras parecem gritar para um vazio intemporal, em busca de uma presença que já se havia desvanecido, anos antes, pelas mãos dos nazis. Modiano questiona-se acerca da sua própria identidade, paralela à de Dora. As mesmas ruas, os mesmos bairros, a mesma cidade. A sombra da herança judaica, com uns meros 40 anos a separar um destino trágico. A sua obsessão dá lugar a uma investigação profunda que passa por escritórios administrativos, bibliotecas e centros de pesquisa, enquanto tenta encontrar fotos e documentação, algo que preencha as lacunas.

 

Dora Bruder e os pais. 

 

E, todavia, Dora não é Auschwitz. Modiano garante-o, defende-o. Em Dora Bruder , o resultado da investigação biográfica que resvala, paralelamente, para o campo da autobiografia, para lá das reflexões da sua própria existência, o autor francês agarra-se a este vazio onde cabe tudo aquilo que ficou por dizer. Procuram-se respostas, mas são as perguntas que a destacam — a ela e a todas as vítimas da II Guerra Mundial:

 

“Ignorarei para todo o sempre de que modo ela passava os dias, onde se escondia, qual era a sua companhia durante os meses de Inverno aquando da sua primeira fuga e no decurso das poucas semanas de primavera em que escapulira de novo. Eis o seu segredo. Um pobre e precioso segredo que os carrascos, os decretos, as autoridades ditas de Ocupação, o depósito de presos, as casernas, os campos, a história, o tempo – tudo o que nos macula e destrói – não puderam roubar-lhe.”   Patrick Modiano , in Dora Bruder

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