No último dia do ano de 1941, o jornal Paris-Soir transmite o pedido de ajuda de um casal judeu que procura a filha de 15 anos, Dora Bruder. Depois de emigrarem da Áustria, diretamente para os subúrbios de Paris, em busca de uma vida melhor, o caminho que percorrem fica cada vez mais sufocante, até restar uma única passagem, com destino a Auschwitz.
“O meu passado é tudo quanto não consegui ser.”
in
Livro do Desassossego
, de
Bernardo Soares
Dora Bruder viveu no bairro da Alameda Ornano, segura como qualquer criança se sentiria no berço onde cresceu. Os pais inscreveram-na num convento católico, em 1940, até à chegada dos alemães a França. Um ano e meio depois, a adolescente fugiu do convento, perdendo qualquer tipo de proteção que um teto religioso lhe poderia dar. Perdeu-se nos prédios parisienses, nas paredes manchadas pela destruição nazi, até ser capturada, enviada para os campos de concentração e, posteriormente, assassinada.
Em 1988,
Patrick Modiano
encontra um recorte do
Paris-Soir
:
“On recherche une jeune fille, Dora Bruder, 15 ans”
. As letras parecem gritar para um vazio intemporal, em busca de uma presença que já se havia desvanecido, anos antes, pelas mãos dos nazis. Modiano questiona-se acerca da sua própria identidade, paralela à de Dora. As mesmas ruas, os mesmos bairros, a mesma cidade. A sombra da herança judaica, com uns meros 40 anos a separar um destino trágico. A sua obsessão dá lugar a uma investigação profunda que passa por escritórios administrativos, bibliotecas e centros de pesquisa, enquanto tenta encontrar fotos e documentação, algo que preencha as lacunas.
Dora Bruder e os pais.
E, todavia, Dora
não é
Auschwitz. Modiano garante-o, defende-o. Em
Dora Bruder
, o resultado da investigação biográfica que resvala, paralelamente, para o campo da autobiografia, para lá das reflexões da sua própria existência, o autor francês agarra-se a este vazio onde cabe tudo aquilo que ficou por dizer. Procuram-se respostas, mas são as perguntas que a destacam — a ela e a todas as vítimas da II Guerra Mundial:
“Ignorarei para todo o sempre de que modo ela passava os dias, onde se escondia, qual era a sua companhia durante os meses de Inverno aquando da sua primeira fuga e no decurso das poucas semanas de primavera em que escapulira de novo. Eis o seu segredo. Um pobre e precioso segredo que os carrascos, os decretos, as autoridades ditas de Ocupação, o depósito de presos, as casernas, os campos, a história, o tempo – tudo o que nos macula e destrói – não puderam roubar-lhe.”
Patrick Modiano
, in
Dora Bruder