'O Corvo' de Edgar Allan Poe: um poema de mistério e terror

Por: Cláudia Oliveira a 2026-01-19

Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe

Escritor norte-americano nascido a 19 de janeiro de 1809, em Boston, e falecido a 7 de outubro de 1849. Filho de dois atores de Baltimore, David Poe Junior e Elizabeth Arnold Poe, ficou órfão com apenas dois anos de idade e desde cedo aprendeu a sobreviver sozinho. Foi adotado por uma família de comerciantes ricos de Richmond, de quem recebeu o apelido Allan.
Entre 1815 e 1820, a família Allan viveu em Inglaterra e na Escócia, onde Poe recebeu uma educação tradicional, regressando depois a Richmond. Poe foi para a Universidade da Virgínia em 1826, onde estudou grego, latim, francês, espanhol e italiano, mas desistiu do curso onze meses depois por causa do seu vício do jogo e do álcool. Resolveu então ir para Boston, onde publicou em 1827 um fascículo de poemas da juventude de inspiração byroniana, Tamerlane and Other Poems.
Em 1829 publicou o seu primeiro volume de poemas, com o título Al Aaraaf, Tamerlane and Minor Poems, onde se denota a influência de John Milton e Thomas Moore. Foi então para Nova Iorque, onde publicou outro volume, contendo alguns dos seus melhores poemas e onde se evidencia a influência de Keats, Shelley e Coleridge.
Em 1835 estreou-se como diretor do jornal Southern Literary Messenger, em Richmond, onde se tornaria conhecido como crítico literário, mas veio a ser despedido do seu cargo alegadamente por causa do seu problema da bebida. O álcool viria aliás a ser o estigma que marcaria toda a sua vida até à morte. Casou-se nesse mesmo ano com a sua prima de apenas treze anos, Virgínia Clemm, e o casal resolveu então instalar-se em Nova Iorque, onde não chegou a permanecer muito tempo. Foi em Filadélfia que Poe alcançou fama através de vários volumes de poemas e histórias de mistério e de terror. Em 1838 escreveu The Narrative of Arthur Gordon Pym (A Narrativa de Arthur Gordon Pym), obra de prosa em que combinou factos reais com as suas fantasias mais insanes. Em 1839 tornou-se codiretor do Burton's Gentleman's Magazine em Filadélfia, e nesse mesmo ano escreveu várias obras que o tornaram famoso pelo seu estilo de literatura ligado ao macabro e ao sobrenatural. São elas William Wilson e The Fall of the House of Usher (A Queda da Casa de Usher). A primeira história policial surgiu apenas em 1841, na revista Graham's Lady's and Gentleman's Magazine, sob o nome The Murders of the Rue Morgue (Os Crimes da Rue Morgue), e em 1843 Poe recebeu o seu primeiro prémio literário com a obra The Gold Bug. Em 1844 regressou a Nova Iorque e tornou-se subdiretor do New York Mirror. Na edição de 29 de janeiro de 1845 deste jornal surgiu o poema The Raven (O Corvo), com o qual Poe atingiu o auge da sua fama nacional.
Dois anos mais tarde morre a sua mulher Virgínia, mas Poe volta a casar, com Elmira Royster, em 1849. Porém, antes disso, Poe publica Eureka, uma obra que deu azo a muita contestação por parte de alguns críticos da época e que é considerada uma dissertação transcendental sobre o universo, muito louvada por uns e detestada por outros.
É de regresso à terra natal do seu pai que Poe começa a apresentar indícios de que o problema do alcoolismo já era de certo modo irreversível. De facto, ele esteve na origem da morte do poeta. A obra de Poe é o espelho da sua vida conturbada e dos seus hábitos e atitudes antissociais, que o levavam a ter uma escrita que ia para além dos padrões convencionais. Se por um lado foi vítima de certas circunstâncias que estavam para além do seu controle, como foi o facto de ter ficado órfão aos dois anos de idade, por outro fez-se escravo de um problema - o álcool - que agravaria a sua personalidade já de si inconstante, imprevisível e incontrolável.

Edgar Allan Poe. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2009.

VER +

10%

Obra Poética Completa
20,90€ 18,81€
PORTES GRÁTIS

Nascido a 19 de janeiro de 1809, Edgar Allan Poe é uma das figuras mais influentes da literatura mundial. Conhecido pela criação de atmosferas sombrias e góticas, assim como pela exploração do medo e do lado mais obscuro e estranho da mente humana, a sua obra marcou profundamente géneros como o terror, o fantástico e o thriller moderno.

Para assinalar o aniversário de Edgar Allen Poe, partilhamos um dos seus poemas mais emblemáticos: O Corvo, retirado da recente edição da Obra Poética Completa do autor (Tinta da China, 2025). Prestamos homenagem a uma figura incontornável, com este clássico da poesia e do imaginário gótico.

O Corvo

Era o meio da noite sombria, fraco e lasso eu reflectia
Sobre os tomos singulares dos saberes ancestrais;
E com sono, cabeceando, eis que ouvi algo raspando,
Seco som, ténue, tocando, tocando à porta de fora,
Visita decerto seria, batendo à porta lá fora,
Isso só e nada mais.

Distintamente eu me lembro, era o mais negro Dezembro;
E no chão a cinza ardente urdia formas espectrais.
Oh, quem me dera a aurora, quisera em vão nessa hora,
Ler meus livros contra a dor—dor por perdida Lenora;
Jovem rara e radiosa, que os anjos chamam Lenora,
E aqui ninguém chama mais.

E o roçagar, triste e frouxo, dos sedosos panos roxos,
Fez-me, feérico, fabricar, torpes horrores fantasmais,
Pelo que então, sossegando o peito célere vibrando,
Disse: «Há-de ser um visitante, que ao meu quarto assoma agora
E à porta bate e se agita, nesta tão tardia hora;
Isto é e nada mais.»

Minha alma então se animou e já não mais hesitou;
«Senhor, ou Senhora», disse eu, «perdão peço antes de mais;
Mas eu estava dormitando, e vosso bater foi tão brando,
Tão ténue fostes tocando, tocando à porta a desoras,
Que mal vos pude escutar»—e a porta abri sem demora:
Só o breu e nada mais.

Espreitando aquele breu, temente me mantive eu,
Suspeitando e tendo sonhos jamais tidos por mortais,
Mas o silêncio era duro, não havia nele augúrio,
E apenas seu nome puro ousei sussurrar: «Lenora»,
E o eco logo volveu meu murmúrio de «Lenora».
Isto apenas, nada mais.

De novo tornei para dentro, toda a minha alma ardendo,
E de novo ouvi batendo, como que batendo mais,
«Por certo», pensei, «algo vela, e toca na minha janela,
Veja eu pois o que me apela, o mistério que se ignora,
Sossega, ó meu coração, e este mistério explora —
É o vento e nada mais!»

Abri com força a vidraça, e eis que alvoroçado esvoaça
Adentro um corvo soberbo, de tempos imemoriais.
Não se mostra reverente nem hesita reticente,
Mas com seu porte imponente sobre a porta se me arvora,
Trepando à estátua de Palas que minha ombreira decora,
E ali pousando sem mais.

Quando a ave de ébano vi, de meu devaneio sorri,
Devido ao decoro grave dos seus ares senhoriais.
«Tens na crista uma tonsura, mas não te falta bravura
Velho e horrendo corvo escuro, do negrume que apavora,
Diz-me que nome te dão no cais onde Plutão mora!»
Disse o Corvo: «Nunca mais.»

Espantou-me que a ave tosca discursasse desenvolta,
Posto que suas palavras fossem pouco racionais,
Sendo, creio, consensual que nunca nenhum mortal
Viu pousada em seu umbral besta falante ou canora,
Num busto de pedra esculpido que a sua porta decora,
Com tal nome «Nunca mais.»

Mas sobre a estátua serena disse o Corvo isto apenas,
Como se a alma vertesse nas palavras triviais.
E mais nada aventurou, não mais dali esvoaçou,
Até que em mim algo ousou: «Amigos tive eu outrora,
Também este irá como eles, como as Esperanças, pela aurora.»
Disse a ave: «Nunca mais.»

Assustado pela sentença que assim cortou tal silêncio,
Disse: «Repete ele por certo ensinamentos banais
Que ouviu a mestre funesto a quem o Destino infesto
Perseguiu agreste e lesto, e o seu canto, alto embora,
Fez alquebrar no de um homem cuja sorte não melhora,
Entoando «Nunca mais.»

Mas ainda o Corvo feio me iludia o devaneio,
E do busto, porta e ave, me aproximei então mais,
E arrastando o assento, cismei eu, elanguescente,
Por que esta ave agourenta, tão escura ave de outrora,
Por que é que, tosca e grotesca, a ave torva de outrora,
Crocitava «Nunca mais.»

Isto me ia perguntando, mas nem uma fala trocando
Com a ave que inflamava meu peito de olhos fatais.
Isto e mais fui cogitando, e a cabeça reclinando
No veludo do divã, sem que nele a luz, que agora
Cindia o pano lilás, pudesse aflorar Lenora
Que a não veria jamais.

E o ar era então mais denso, esparzido de etéreo incenso,
Como se um anjo passasse com seus passos musicais
No soalho atapetado: «Deus te traz, ó Desgraçado,
A paz e o olvido ansiado das memórias de Lenora;
Sorve, pois, sorve o nepente, aquece a perdida Lenora!»
Disse o Corvo: «Nunca mais.»

«Profeta», eu disse, «ó mal que temo! Profeta és, ave ou demo!
Por Tentação enviado, varrido por vendavais,
Desvalido mas ousado, neste ermo enfeitiçado,
Neste lar mal-assombrado, diz-me, minha alma implora,
Se em Galaad há consolo, di-lo à alma que te implora!»
Disse o Corvo: «Nunca mais.»

«Profeta», eu disse, «ó mal que temo! Profeta és, ave ou demo!
Pelo Deus a quem se adora, pelo céu que cobre os mortais,
Diz-me à alma, que quebranta, se nesse Aidenn tão distante
Estreitará a jovem santa que os anjos chamam Lenora,
Jovem rara e radiosa, que os anjos chamam Lenora.»
Disse o Corvo: «Nunca mais.»

«Que então pois nos apartemos», bradei eu, «ó ave ou demo!
Volta ao negrume das trevas, tormento dos vendavais!
Não deixes cá pena escura, sinal dessa alma perjura!
Me reste a solidão pura e o busto que o umbral decora!
Não biques mais o meu peito, some-te daqui embora!»
Disse o Corvo: «Nunca mais.»

E o Corvo, sem ter voado, permanece ainda sentado
Na branca estátua de Palas que há sobre os meus portais,
E tem o olhar transtornado de demónio estremunhado;
E a luz que sobre ele arde urde no chão uma forma,
E a minha alma, dessa sombra que soçobra ainda agora,
Não recobra – nunca mais!

X
O QUE É O CHECKOUT EXPRESSO?

O ‘Checkout Expresso’ utiliza os seus dados habituais (morada e/ou forma de envio, meio de pagamento e dados de faturação) para que a sua compra seja muito mais rápida. Assim, não tem de os indicar de cada vez que fizer uma compra. Em qualquer altura, pode atualizar estes dados na sua ‘Área de Cliente’.

Para que lhe sobre mais tempo para as suas leituras.