Aos 77 anos, a poeta norte-americana Louise Glück já não esperava vir a ser laureada com o Prémio Nobel da Literatura. Contudo, foi pela sua “voz poética inconfundível que, com uma beleza austera, torna a existência individual universal" que a Academia a escolheu, alcançando com isso o maior prémio que qualquer autor pode receber - o de fazer chegar a sua arte a mais leitores. Desde o anúncio, feito em outubro, foram editados quatro livros de poesia da autora (pela editora Relógio d'Água).
É um poema incluíndo num destes livros - Uma Vida de Aldeia - que partilhamos consigo hoje, como convite para um fim-de-semana repleto de poesia.
Crepúsculo, de Louise Glück
Trabalha todo o dia no moinho do primo,
por isso, quando à noite chega a casa, senta-se sempre junto à mesma janela,
assiste à mesma altura do dia, o crepúsculo.
Devia haver mais momentos assim, para uma pessoa se sentar e sonhar.
É como o seu primo diz:
A vida — é a vida que não nos deixa sentar.
À janela, não o mundo, mas uma paisagem recortada
que representa o mundo. Mudam as estações,
cada uma visível apenas algumas horas por dia.
Coisas verdes seguidas de coisas douradas seguidas de alvura —
abstrações das quais resultam intensos prazeres,
como os figos em cima da mesa.
Ao anoitecer, o Sol põe-se numa névoa de fogo vermelho entre
dois choupos.
Põe-se mais tarde no Verão — às vezes, é difícil mantermo-nos acordados.
Então tudo se desvanece
Por mais uns instantes o mundo
é algo que se pode ver, depois algo que se pode ouvir,
grilos, cigarras.
Ou que se pode cheirar, por vezes, o aroma dos limoeiros, das laranjeiras.
Então também isto o sono nos tira.
Mas é fácil abdicarmos das coisas assim, a título experimental,
por algumas horas.
Abro as mãos —
deixo tudo partir.
O mundo visual, a linguagem,
o rumorejar das folhas à noite,
o cheiro das ervas altas, do fumo da lenha.
Deixo-os partir, depois acendo a vela.