Nascida em 1937, Maria Teresa Horta é, para além de romancista, jornalista e uma das mais importantes vozes poéticas do feminismo português. Juntamente com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa que, com ela, formavam as Três Marias, escreveu o controverso Novas Cartas Portuguesas, expondo ao mundo a repressão e a discriminação que era exercida sobre a mulher durante o regime do Estado Novo. Como poetisa, fez parte do grupo Poesia 61, uma revista de poesia na qual figuravam outros grandes nomes da literatura como Fiama Hasse Pais Brandão ou Gastão Cruz, tendo gerado, novamente, controvérsia com a sua poesia erótica e feminista. Irreverente, contestatária e intervencionista, permanece até aos dias de hoje uma das vozes mais singulares da nossa literatura, entregando-se à escrita da mesma forma que à leitura: a voar "em motim e transgressão".
O poema "As Bibliotecas" está inserido no livro Estranhezas, publicado em 2018 pela editora Dom Quixote.
As Bibliotecas, de Maria Teresa Horta
Amo as bibliotecas
como sendo um roseiral
de rosas entreabertas
devoro o cheiro do perfume
dos seus estreitos corredores
onde se encobrem os lumes
e as penumbras incertas
tomo o gosto ao seu ardor
de amores proibidos
entre as folhas dos romances
onde as flores se enfebrecem
Amo as bibliotecas
onde as palavras se tecem
no seu fulgor obscuro
passo as mãos nas prateleiras
toco no corpo dos livros
sinto nos dedos as histórias
e a loucura dos sentidos
beijo os versos restolhando
nos poemas incontidos
odes de insubmissão
sonetos de tempo ardido
Amo as bibliotecas
contendo cerne e invento
e a memória dos séculos
vou até ao seu silêncio, de filtros
de elixires e venenos encobertos
prelúdios de Alexandria
na haste do pensamento
e quando me sento a ler
é como se já voasse
em motim e transgressão
e em mim nada faltasse
Amo as bibliotecas
numa pressa insaciável
das suas Luzes despertas
das eternidades, das vidas
e das mentes inquietas
melancolia traçada pelas canetas
e as penas dos poetas