"As Bibliotecas", de Maria Teresa Horta

Por: Bertrand Livreiros a 2020-06-23 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

Maria Teresa Horta

Maria Teresa Horta

Maria Teresa de Mascarenhas Horta Barros (Lisboa, 20 de maio de 1937 - 4 de fevereiro de 2025) foi uma escritora, jornalista e poetisa portuguesa, frequentou a Faculdade de Letras de Lisboa e é conhecida como uma das mais destacadas feministas portuguesas. Estreou-se na poesia em 1960 a sua obra poética foi coligida em Poesia Reunida (Dom Quixote, 2009), obra que lhe valeu o Prémio Máxima Vida Literária. Em 2012 publicou As Palavras do Corpo – Antologia de Poesia Erótica, no ano seguinte, A Dama e o Unicórnio, em 2016, Anunciações, vencedor do Prémio Autores SPA / Melhor Livro de Poesia 2017, Poesis (2017), Estranhezas (2018) e a antologia Eu sou a Minha Poesia (2019), o seu mais recente livro. É ainda autora dos romances Ambas as Mãos Sobre o Corpo, Ema (Prémio Ficção Revista Mulheres) e Paixão Segundo Constança H., e coautora com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, de Novas Cartas Portuguesas. Ao seu romance As Luzes de Leonor, a Marquesa de Alorna, uma sedutora de anjos, poetas e heróis (2011), foram atribuídos os prémios D. Dinis e Máxima de Literatura.

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Nascida em 1937, Maria Teresa Horta é, para além de romancista, jornalista e uma das mais importantes vozes poéticas do feminismo português. Juntamente com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa que, com ela, formavam as Três Marias, escreveu o controverso Novas Cartas Portuguesas, expondo ao mundo a repressão e a discriminação que era exercida sobre a mulher durante o regime do Estado Novo. Como poetisa, fez parte do grupo Poesia 61, uma revista de poesia na qual figuravam outros grandes nomes da literatura como Fiama Hasse Pais Brandão ou Gastão Cruz, tendo gerado, novamente, controvérsia com a sua poesia erótica e feminista. Irreverente, contestatária e intervencionista, permanece até aos dias de hoje uma das vozes mais singulares da nossa literatura, entregando-se à escrita da mesma forma que à leitura: a voar "em motim e transgressão".

O poema "As Bibliotecas" está inserido no livro Estranhezas, publicado em 2018 pela editora Dom Quixote.


As Bibliotecas, de Maria Teresa Horta

Amo as bibliotecas

como sendo um roseiral

de rosas entreabertas

 

devoro o cheiro do perfume

dos seus estreitos corredores 

onde se encobrem os lumes

e as penumbras incertas

 

tomo o gosto ao seu ardor

de amores proibidos

entre as folhas dos romances

onde as flores se enfebrecem

 

Amo as bibliotecas

onde as palavras se tecem

no seu fulgor obscuro

 

passo as mãos nas prateleiras

toco no corpo dos livros

sinto nos dedos as histórias

e a loucura dos sentidos

 

beijo os versos restolhando

nos poemas incontidos

odes de insubmissão

sonetos de tempo ardido

 

Amo as bibliotecas

contendo cerne e invento

e a memória dos séculos

 

vou até ao seu silêncio, de filtros

de elixires e venenos encobertos

prelúdios de Alexandria

na haste do pensamento

 

e quando me sento a ler 

é como se já voasse

em motim e transgressão 

e em mim nada faltasse

 

Amo as bibliotecas

numa pressa insaciável

das suas Luzes despertas

 

das eternidades, das vidas

e das mentes inquietas

melancolia traçada pelas canetas

e as penas dos poetas

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