Recordar Zeca Afonso, o símbolo nacional que só queria cantar

Por: Sofia Costa Lima a 2019-08-02 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

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O Paraíso existe | Comer e dormir entre os livros

Se, como nós, sofre de bibliomania aguda, chegou certamente a uma conclusão: livros nunca são demais. Criamos sempre oportunidades para comprar mais alguns, folhear outros tantos, cheirar muitos deles e sonhar com os que ainda não temos. Se, quando planeia uma viagem, aproveita para conhecer (quase todas) as livrarias locais, vai gostar de saber que, além de se abastecer de literatura, há locais onde pode também comer e dormir entre os livros. Sim, o paraíso existe. Faça as malas e agradeça-nos depois.

3 razões para nos dedicarmos à Filosofia

Em 2002 a UNESCO decretou que o Dia Mundial da Filosofia iria ser assinalado anualmente, na terceira quinta-feira do mês de Novembro. Comemorar este dia significa reconhecer o papel fundamental da Filosofia como espaço e tempo de reflexão, de prática dos pensamentos crítico e criativo e do diálogo. Esta afirmação é muito clara para mim e traduz um pressuposto meu: a Filosofia é útil. Para quem, ao contrário da minha pessoa, não estudou Filosofia e não trabalha nesta área que motivos pode haver para comemorar o Dia Mundial da Filosofia? Vou avançar com 3 razões para que qualquer pessoa, independentemente da sua bagagem filosófica, se dedique ao estudo, à leitura ou ao diálogo com textos filosóficos.

Zeca Afonso não queria ser um símbolo. Sempre quis ser só cantor, compositor, artista. Tornou-se bem mais do que isso. Queria ter uma palavra a dizer sobre o seu país e acabou por ter um papel inesperado nesse sentido. Escreveu dezenas de canções. Várias das suas letras chegaram a ser publicadas em livros. Além disso, inspirou tantos outros sobre a sua vida e obra.
 

 

Da infância "andarilha" ao símbolo nacional

Nasceu José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, em Aveiro, a 2 de agosto de 1929. Com apenas 3 anos foi para Angola com os pais, iniciando uma infância andarilha, passada em vários locais. Voltou para Aveiro cinco anos depois e logo de seguida foi para Moçambique. Voltou a Portugal só um ano depois, para viver com um tio salazarista em Belmonte.

Em 1940 muda-se para Coimbra, para estudar no Liceu D. João III, onde descobre a canção. Aos 20 anos, inscreve-se no curso de Ciências Histórico-Filosóficas, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Só o conclui catorze anos depois.

Casou contra a vontade da família, teve dois filhos. A crise conjugal aliou-se a vários problemas financeiros. Divorciou-se. Conheceu Zélia, foi para Moçambique, voltou. Entretanto, pelo meio, continuou sempre a cantar.

 

FOTOGRAFIA: DR

 

Gravou “Grândola, Vila Morena” , editado no LP “Cantigas do Maio “, em 1971. O tema viria a ser a segunda senha para a revolução do 25 de abril de 1974, tornando-se um símbolo da história nacional. Mas Zeca não tinha muito interesse em sê-lo.

Em 1983 foi homenageado em Coimbra, já debilitado pela esclorose lateral amiotrófica, diagnosticada um ano antes. Foi aí que insistiu: não quero converter-me numa instituição , embora me sinta muito comovido e grato pela homenagem”. Mas como não o ser quando a suas letras, a sua música, inspiraram e influenciaram Portugal e os portugueses, na política, na música, na literatura?

Morreu a 23 de fevereiro de 1987, mas continua vivo na herança cultural que nos deixou. No dia em que se comemoram 90 anos do seu nascimento, recordamos Zeca Afonso com cinco curiosidades sobre o cantor que só queria isso mesmo: cantar .

 
1. Zeca Afonso, o bicho-cantor.

Zeca Afonso começou a cantar no liceu, em Coimbra, mas rapidamente a sua voz chegou mais longe. Chamavam-lhe  bicho-cantor alcunha ganha pelos estatutos da comissão de praxe da Universidade de Coimbra. Apesar de ainda estar no liceu, o estatuto permitia-lhe cantar serenatas sem sofrer qualquer tipo de represália.

Durante os tempos de liceu, acabou por chumbar duas vezes. Os jogos de futebol com a Associação Académica e as viagens constantes com o Orfeão Académico de Coimbra e com a Tuna Académica não lhe deixavam muito tempo para os estudos.

 

2. Foi proibido de ser professor pelo regime de Salazar.

Em 1957, quando já tinha editado algumas canções, ainda antes de concluir a licenciatura, começou a dar aulas num colégio privado em Mangualde. O ensino tornou-se uma paixão.

Gostava tanto de ser professor que, em 1970, numa entrevista ao extinto jornal “A Capital” , Zeca chegou a admitir-se indeciso quanto àquilo que preferia fazer, entre a música e o ensino . Dizia, até, que não lhe desagradava exercer “alternadamente as duas profissões” .

No entanto, não foi simples ser professor. Entre 1964 e 1967 viveu em Lourenço Marques, hoje Maputo. Quando voltou a Portugal, foi dar aulas para o Liceu de Setúbal, mas adoeceu e viu-se obrigado a ser internado durante 20 dias.

Uma voz ativa e crítica em relação ao colonialismo, teve problemas com a PIDE. O internamento foi a oportunidade ideal para o regime salazarista. Quando Zeca se preparava para voltar à vida de professor tinha sido expulso do ensino oficial. Ficava com mais tempo para a música.

 

3. Andava sempre com um gravador de cassetes.

Numa época em que gravar som não era tão simples quanto abrir uma aplicação no telemóvel, Zeca Afonso andava prevenido: tinha sempre um gravador de cassetes consigo.

Júlio Pereira , músico e compositor português, contou à BLITZ, em 2017 , que uma vez, em Vigo, estava com o cantor à porta do hotel e este lhe disse que estava “com vontade de fazer ali mesmo uma música” . Foi assim que gravou o tema “Cantar Galego” .

 

 
4. À frente do seu tempo.

O último disco de Zeca Afonso publicado ainda em vida foi “Galinhas do Mato” . Este disco é diferente dos outros em várias perspetivas. Só há duas canções com a voz dele. Todas as outras foram gravadas por artistas convidados, enquanto Zeca ajudava a dirigir o trabalho de estúdio.

A grande novidade deste trabalho foi o uso de computador. Estávamos no início dos anos 80. Os computadores ainda eram estranhos e usá-los para fazer música causava desconfiança.

No entanto, neste disco, usou-se um dos primeiros interfaces MIDI a surgir em Portugal. Júlio Pereira recorda que Zeca foi “o único que não mostrou medo do computador” .

Mais uma vez, estava disposto a arriscar.

 

5. O disco que quase foi apagado.

“Galinhas do Mato” foi um trabalho diferente, mas esteve quase para não ver a luz do dia. Enquanto estava a ser gravado, Zeca Afonso adoeceu. Por isso, as gravações do disco pararam sem previsão de serem retomadas.

O estúdio de gravação onde estavam a trabalhar pertencia ao engenheiro de som José Fortes. A editora alugava o espaço para que os músicos lá gravassem, mas a forma de trabalhar era definida pelo estúdio. Com a paragem das gravações, o estúdio tinha regras a cumprir: durante seis meses mantinha as fitas já gravadas, mas passado esse tempo a editora teria de comprar o material, caso contrário o estúdio iria apagá-lo.

No final dos seis meses, ainda com o processo de gravação parado, José Fortes contactou a editora de Zeca Afonso para saber se iam continuar o disco e se queriam guardar o material já gravado. A resposta foi negativa. José Fortes alertou-os para o facto de que as fitas seriam apagadas se não as comprassem, mas a editora manteve a resposta.

Só um ano depois, a editora voltou a contactar o estúdio para saber se ainda tinham as gravações. José Fortes mentiu e disse-lhes que tinham sido apagadas. Quando soube da notícia, Zélia, mulher de Zeca Afonso , telefonou a José Fortes. Estava triste por achar que o trabalho do marido tinha sido perdido.

Então, Fortes convidou Zélia para um café. Explicou-lhe que, na realidade, não tinha apagado as gravações. Ofereceu as fitas à mulher, mas estabeleceu uma condição : ela teria de as publicar com outra editora. Foi assim que o disco sobreviveu àquilo que teria sido uma grande perda para a música portuguesa.

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