Por onde começar a ler Vargas Llosa?

Por: Cláudia Oliveira a 2026-03-27

Mario Vargas Llosa

Mario Vargas Llosa

PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA 2010

Mario Vargas Llosa (1936-2025) nasceu em Arequipa, no Peru. Em 1959 abandona o seu país e, graças a uma bolsa, ingressa na Universidade Complutense de Madrid, onde faz provas de doutoramento, fixando-se de seguida em Paris. Sempre próximo da penúria, foi locutor de rádio, jornalista e professor de espanhol. Regressa ao Peru em 1964 e casa no ano seguinte com a sua prima Patrícia, com quem parte para a Europa em 1967, tendo vivido até 1974 na Grécia, em Paris, Londres e Barcelona – após o que volta novamente ao Peru. Em Lima pode, finalmente, dedicar-se em exclusivo à literatura e ao jornalismo, nunca abandonando a intervenção política. Depois de uma candidatura à presidência da República, fixou-se em Londres e, nos últimos anos, viveu entre Paris e Madrid, escrevendo romances e ensaios literários, percorrendo o mundo como professor visitante em várias universidades. Entre os muitos prémios que recebeu contam-se o Rómulo Gallegos (1967), o Príncipe das Astúrias (1986) ou o Cervantes (1994). Foi distinguido com o Prémio Nobel da Literatura em 2010. É um dos romancistas e ensaístas mais importantes da América Latina e um dos principais escritores da sua geração.

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A 28 de março de 1936, nasce Mario Vargas Llosa, em Arequipa, no Peru. Este ano, celebramos a data pela primeira vez sem o escritor entre nós, depois da sua morte em abril de 2025, aos 89 anos.

Nobel da Literatura em 2010, deixou uma obra vasta, politicamente corajosa e tecnicamente exigente, que atravessa décadas, continentes e regimes. A sua obra pode intimidar quem chega pela primeira vez e, por isso, reunimos cinco romances essenciais, cinco portas de entrada diferentes para este escritor extraordinário.

Conversa na Catedral, 1969

Santiago Zavala e Ambrosio sentam-se num bar chamado A Catedral e começam a falar. A conversa dura horas e atravessa décadas, reconstituindo o Peru corrupto e desesperançado da ditadura do general Odría, nos anos cinquenta. É o romance mais ambicioso e mais exigente desta lista, com uma estrutura em espiral que mistura tempos, vozes e histórias. A pergunta que abre o livro, e que nunca abandona o leitor, é esta: em que momento é que o Peru se perdeu? 

Pantaleão e as Visitadoras, 1973

Pantaleão Pantoja é um oficial exemplar, rigoroso, obediente, irrepreensível. O exército peruano confia-lhe a missão mais improvável da sua carreira: organizar, em absoluto sigilo militar, um serviço de prostitutas para as Forças Armadas isoladas na selva amazónica. O que começa como uma operação discreta transforma-se rapidamente no maior empreendimento do género no país, com Pantaleão cada vez mais enredado entre o dever, a família e uma visitadora irresistível. Baseado em factos verídicos, é um romance engenhoso e sarcástico que usa o humor para dizer coisas sérias sobre as instituições, o poder e a obediência cega. 

A Tia Julia e o Escrevedor, 1977

Varguitas tem dezoito anos, ambições literárias, e apaixona-se pela tia Julia, divorciada e com o dobro da sua idade. Em paralelo, conhece Pedro Camacho, um escritor excêntrico de radionovelas que fascina toda a Lima dos anos cinquenta, até ao dia em que começa a confundir os enredos e as personagens das suas próprias histórias. É o romance mais leve e mais divertido de Vargas Llosa, autobiográfico sem ser confessional, com ironia e ternura em doses certas.

A Festa do Chibo, 2000

Urania Cabral regressa a Santo Domingo após décadas de ausência. À medida que visita o pai, somos transportados para 1961, quando a capital dominicana ainda se chamava Ciudad Trujillo e o ditador Rafael Trujillo, o Chibo, oprimia três milhões de pessoas com uma violência metódica e impune. Vargas Llosa constrói o retrato de uma tirania a partir de múltiplos ângulos, dando voz ao próprio ditador, aos conspiradores que preparam o seu assassinato e às vítimas que carregam o peso do que aconteceu. Um thriller político que se lê com o coração apertado, rigoroso na pesquisa histórica e implacável no julgamento moral e ideal para quem quer entender como uma ditadura funciona por dentro.

O Sonho do Celta, 2010

Neste romance histórico, Vargas Llosa reconstrói a vida de Roger Casement, cônsul britânico que passou duas décadas a denunciar as atrocidades do regime de Leopoldo II no Congo. Defensor dos direitos humanos e inspiração para o livro O Coração das Trevas de Joseph Conrad, Roger abraçou no fim da vida o nacionalismo irlandês e foi executado por traição. Vargas Llosa reconstrói esta jornada com a precisão de um historiador e a força de um romancista. Para quem gosta de ficção histórica e personagens que mudam de lado quando percebem que estavam do lado errado.

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