O que fazer com as obras de arte de “monstros”?

Por: Beatriz Sertório a 2024-10-22

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Monstros
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Chega hoje às livrarias do país uma obra de não ficção que tem gerado debate. Monstros - O Dilema de uma Fã (Quetzal) é uma indagação provocadora sobre as questões éticas e o conflito emocional de apreciar obras de artes feitas por pessoas que cometeram monstruosidades.

Há uma afirmação de Walter Benjamin que é frequentemente citada quando se aborda este assunto: “Na origem de cada grande obra de arte está uma pilha de barbárie” (“At the base of every major work of art is a pile of barbarism”). Depois dos escândalos revelados acerca de artistas como Woody Allen, Roman Polanski, Pablo Picasso ou, mais recentemente, o escritor Neil Gaiman, somos tentados a pensar que o filósofo alemão tinha razão. Movida por esta ideia e pelo seu próprio conflito interno em relação aos “grandes artistas, péssimas pessoas” que a fascinam, a jornalista norte-americana Claire Dederer escreveu um artigo para a The Paris Review intitulado “O que é que fazemos com a arte de homens monstruosos?” (What Do We Do with the Art of Monstrous Men?).

O ano era 2017
 o mesmo ano em que o ator e comediante Bill Cosby foi a julgamento por múltiplas acusações de abuso sexuais, em que Donald Trump, repetidamente acusado de sexismo e misoginia, tomou posse como 45.º Presidente dos Estados Unidos da América e em que, no dia imediatamente a seguir à sua tomada de posse, se realizou a Marcha das Mulheres em Washington, o maior protesto decorrido num único dia na História do país. O artigo tornou-se rapidamente viral e, seis anos mais tarde, com a crescente discussão em volta da cultura de cancelamento e do movimento “woke”, deu azo a um livro com o mesmo título.

Monstros - O Dilema de uma Fã, que acaba de chegar a Portugal com edição da Quetzal Editores, é um ensaio que parte de perguntas que a autora começou por fazer a si mesma. É possível separar a arte do artista? Será que nos submetemos a um esquecimento voluntário quando queremos rever um filme como Manhattan de Woody Allen? Ou será que acreditamos que os génios têm direito uma “dispensa especial”, uma espécie de passe comportamental que lhes permite escapar impunes? Acima de tudo, o que fazemos com a beleza criada por estes “monstros” e com os nossos sentimentos contraditórios em relação a ela? 

Este livro é a tentativa de Dederer de responder a estas perguntas, mas também a outras que se impõem à medida que aprofunda a sua reflexão sobre o assunto. Afinal, será preciso, como Walter Benjamin sugere, um certo grau de monstruosidade para se tornar um grande artista? E porque é que não existem tantas artistas femininas "monstruosas"?  Ao mesmo tempo, questiona a própria natureza daquilo a que se pode chamar de “monstruoso”. Será um “monstro” uma mulher que negligencia os filhos para se dedicar à sua arte? É J.K. Rowling, a autora da saga Harry Potter a quem dedica um capítulo inteiro, um “monstro” menor que Polanski? É a monstruosidade dos homens artistas diferente da das mulheres? E, por fim, a derradeira questão, colocada antes de si pela quiçá monstruosa Clarice Lispector: “Quem já não se perguntou: sou um monstro ou isto é ser uma pessoa?”.

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