Jorge, o mais "Amado" escritor brasileiro

Por: Beatriz Sertório a 2021-08-25 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

Jorge Amado

Jorge Amado

Jorge Amado nasceu em Pirangi, Baía, em 1912 e faleceu a 6 de agosto de 2001. Viveu uma adolescência agitada, primeiro, na Baía, no início dos seus estudos, depois no Rio de Janeiro, onde se formou em Direito e começou a dedicar-se ao jornalismo. Em 1935 já se tinha estreado como romancista com O País do Carnaval (1931), Cacau (1933), Suor (1934), seguindo-se Terras do Sem Fim (1943) e S. Jorge dos Ilhéus (1944). Politicamente de esquerda, foi obrigado a emigrar, passando por Buenos Aires, onde escreveu O Cavaleiro da Esperança (1942), biografia de Carlos Prestes, depois pela França, pela União Soviética... regressando entretanto ao Brasil depois de ter estado na Ásia e no Médio Oriente. Em 1951 recebeu o Prémio Estaline, com a designação de "Prémio Internacional da Paz". Os problemas sociais orientam a sua obra, mas o seu talento de escritor afirma-se numa linguagem rica de elementos populares e folclóricos e de grande conteúdo humano, o que vai superar a vertente política. A sua obra tem toques de picaresco, sem perder a essência crítica e a poética. Além das já citadas, referimos, na sua vasta produção: Jubiabá (1935), Mar Morto (1936), Capitães da Areia (1937), Seara Vermelha (1946), Os Subterrâneos da Liberdade (1952). Mas é com Gabriela, Cravo e Canela (1958), Os Velhos Marinheiros (1961), Os Pastores da Noite (1964) e Dona Flor e os Seus Dois Maridos (1966) em que o romancista põe de parte a faceta politizante inicial e se volta para temas como a infância, a música, o misticismo popular, a turbulência popular e a vagabundagem, numa linguagem de sabor poético, humorista, renovada com recursos da tradição clássica ligados aos processos da novela picaresca. O seu sentimento humano e o amor à terra natal inspiram textos onde é evidente a beleza da paisagem, a tradição cultural e popular, os problemas humanos e sociais - uma infância abandonada e culpada de delitos, o cais com as suas misérias, a vida difícil do negro da cidade, a seca, o cangaço, o trabalhador explorado da cidade e do campo, o "coronelismo" feudal latifundiário perpassam significativamente na obra deste romancista dos maiores do Brasil e dos mais conhecidos no mundo. Fecundo contador de histórias regionais, Jorge Amado definiu-se, um dia, "apenas um baiano romântico, contador de histórias". "Definição justa, pois resume o carácter do romancista voltado para exemplos de atitudes vitais: românticas e sensuais... a que, uma vez por outra, empresta matizes políticos...", como diz Alfredo Bosi em História Concisa da Literatura Brasileira. Foi-lhe atribuído o Prémio Camões em 1994.

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Nasceu Jorge Leal Amado de Faria mas foi como Jorge Amado que ficou conhecido no Brasil e por todo o mundo. Autor de obras de sucesso como Gabriela, Cravo e Canela, Capitães da areia ou, para o público infantojuvenil, O gato malhado e a andorinha Sinhá, foi um dos autores brasileiros mais traduzidos e também um dos mais acarinhados pelos leitores. Embora já nos tenho deixado há vinte anos, no final deste mês é publicado, em Portugal, um novo livro de memórias do autor, intitulado Navegação de Cabotagem (Dom Quixote), no qual relata episódios caricatos da sua vida, desde uma bebedeira com Pablo Neruda, uma reunião política com Picasso, ou uma visita ao terreiro de candomblé com Dorival Caymmi.

Aproveitamos a ocasião para o recordar, partilhando consigo cinco curiosidades sobre Jorge Amado.

 

 

"Por fora água parada

por dentro uma fogueira acesa."

— Jorge Amado, em Dona Flor e seus dois maridos

 


1. O dia em que "Capitães da areia" foi lançado às chamas

Formado em Direito, apesar de nunca ter exercido a advocacia, Jorge Amado foi, desde sempre, um defensor convicto da justiça e da liberdade. Militante do Partido Comunista Brasileiro entre 1932 e 1956, foi preso, em 1940, por acusações de tentativa de insurreição contra a ditadura de Getúlio Vargas. A sua oposição ao regime valeu-lhe também a apreensão de Cacau, o seu segundo romance, sobre a luta de classes no hostil mundo dos trabalhadores do cacau, bem como a incineração de centenas de exemplares de Capitães de areia - o livro de Amado mais vendido do mundo inteiro, que denuncia a pobreza extrema em que vivam as crianças e os jovens abandonados nas ruas de São Salvador da Bahia. Nesta queima de livros em praça pública, decorrida em novembro de 1937 na Cidade Baixa de Salvador, foram destruídas mais de 1,8 mil obras literárias, num gesto simbólico de condenação à "propaganda do  credo vermelho". Destas, mais de 90% eram exemplares de Capitães de Areia, publicado meses antes.

 

 

2. A liberdade, como o sol

Escreveu Jorge Amado, em Capitães de Areia, que “a liberdade é como o sol. É o bem maior do mundo.” Por defender esta máxima, e respeitar igualmente os cultos afro-brasileiros, alvos frequentes de discriminação e preconceito ao longo da História do Brasil, quando, em 1945, foi eleito deputado federal pelo Partido Comunista Brasileiro, foi o principal responsável pela inclusão da emenda constitucional mantida até hoje, que garante a liberdade de crença e culto no Brasil.  Foi por volta dos 16 anos, através do amigo etnólogo Edilson Carneiro, que mergulhou na religião afro-brasileira, algo que veio a utilizar como referência recorrente na construção de personagens dos seus romances, fazendo dele não só um romancista, mas também, uma espécie de historiador da cultura brasileira. Contundo, ele próprio não se considerava religioso, tendo afirmado: “Não sou religioso, mas tenho assistido a muita mágica. Sou supersticioso e acredito em milagres. A vida é feita de acontecimentos comuns e de milagres”.

 

Jorge Amado ao lado de Mãe Menininha do Gantois, uma sacerdotisa da religião do Candomblé.

 

3. Viagem pelos países vermelhos e distanciamento da ideologia comunista

Devido à perseguição política que viveu durante o regime de Getúlio Vargas, Amado foi forçado a viver em diferentes pontos do mundo até voltar em definitivo para o Brasil. Tendo sido acolhido por países como a Argentina, o Uruguai, ou o Reino Unido, aproveitou também, em virtude da sua inclinação ideológica, para conhecer diversos países comunistas. Para além da União Soviética, passou pela Checoslováquia (atuais República Checa e Eslováquia), Polónia, Hungria, Roménia, Bulgária, Mongólia e China. Contudo, apesar de ter narrado os seus relatos de viagem num livro chamado O Mundo da Paz, no qual tecia largos elogios aos regimes destes países, mais tarde, após as denúncias dos crimes de Estaline, proibiu a sua reedição. Acredita-se que foi também o afastamento gradual desta ideologia política que o levou a abandonar um livro inédito, de conteúdo revolucionário, cujo manuscrito inacabado faz hoje parte do acervo pessoal do autor.

 

 

Excerto da primeira página do manuscrito inacabado do escritor baiano, batizado com dois títulos - Agonia da Noite e São Jorge dos Ilhéus.

 

4. Cartas a Saramago

Nas suas viagens, Jorge Amado conheceu dezenas de jornalistas e escritores célebres. Para além de ser amigo de personalidades brasileiras como o músico Dorival Caymmi, o poeta Vinicius de Moraes, ou o cronista Rubem Braga (com quem partilhou o mesmo teto por um curto período de tempo), foi companheiro de viagens de Pablo Neruda, e fez amizade com os filósofos escritores franceses Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, entre outros. Mas foi com o Nobel da Literatura português, José Saramago, que manteve uma correspondência tão prolífica que foi até reunida num livro, intitulado Com o mar pelo meio.

Tendo Saramago, na altura, 70 anos, e Jorge Amado mais dez, os dois escritores separados pelo Atlântico desenvolveram uma amizade que se traduziu numa correspondência de cinco anos, na qual falam das suas carreiras, da sua saúde e das suas frustrações com os prémios literários, entre outras coisas. Relativamente a esta última, destaca-se o desprezo de ambos por distinções como o Prémio Camões ou o Nobel, que nenhum dos dois acreditava algum dia vir a receber. Afinal, Saramago viria a receber o Prémio Camões no ano de 1995 e o Nobel da Literatura três anos depois. Por sua vez, Jorge Amado embora nunca tenha recebido o Nobel, foi também um dos galardoados com o Prémio Camões, em 1994. Sobre a não atribuição do Nobel à obra de Amado, escreveu Saramago numa das cartas: "[A Academia Sueca] não tem metro que chegue para medir a estatura de um escritor chamado Jorge Amado. (...) Mas aqueles que, como eu, veem, em ti nada mais nada menos que o Brasil feito literatura, esses indignam-se com a já irremediável falta de sensibilidade e de respeito dos nórdicos”. Os dois conheceram-se pessoalmente, pela primeira vez, na década de 1990, num evento literário em Itália.

 

Jorge Amado e José Saramago (1996).

 

5. O Brasil feito Literatura

O sucesso da obra de Jorge Amado no Brasil foi tal que, até hoje, foi superado em número de vendas apenas por Paulo Coelho, autor do bestseller mundial O Alquimista. Mas não se ficou só pelo Brasil. Sendo também um dos escritores brasileiros mais traduzidos no exterior, os seus livros transportaram as histórias do autor baiano até países como Estados Unidos, Canadá, Argentina, Uruguai, Chile, México, França, Reino Unido, Itália ou Alemanha, contando já com traduções em mais de 80 países e em 49 idiomas. Para além disso, é também um dos escritores brasileiros mais adaptados para o cinema e a televisão. Os livros Gabriela Cravo e Canela, Terras do Sem-Fim e Tieta do Agreste (livro que o autor escreveu durante um ano inteiro fechado em casa) foram transformados em novelas. Por sua vez, Capitães da Areia, Tenda dos Milagres, Dona Flor e Seus Dois Maridos e, novamente, Gabriela Cravo e Canela foram adaptados para o cinema.

Segundo o jornalista Edoardo Pacelli, ele foi talvez "o mais 'Amado' Jorge dos brasileiros de todos os tempos", tendo afirmado acerca da sua obra: "A literatura de Jorge Amado e, com ela, a literatura brasileira, tornou-se universalmente conhecida e reconhecida, desvelando ao mundo a riqueza do património cultural do Brasil e da Bahia, a grandeza de seus escritores, a maravilha do mundo encantado do interior, a luta para a libertação dos oprimidos e dos sofridos; das minorias que são maiorias rejeitadas e ignoradas, afastadas pelo ambiente em que vivem. Mais que crítica social, pode-se chamar, as páginas literárias de Jorge Amado de construção social."

 

Edições em inglês de duas obras de Jorge Amado.

 

“…Com o povo aprendi tudo quanto sei, dele me alimentei e, se meus são os defeitos da obra realizada, do povo são as qualidades porventura nela existentes. Porque, se uma virtude possuí, foi a de me acercar do povo, de misturar-me com ele, viver sua vida, integrar-me em sua realidade. Quem não quiser ouvir pode ir embora, minha fala é simples e sem pretensão (…)”.

— Jorge Amado, em Os pastores da noite

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