Segundo o politólogo norte-americano Michael Barkun, há três assunções a partir das quais se constituem as teorias da conspiração: nada acontece por acaso; nada é o que parece e está tudo interligado. Voltámo-nos para Michael Butter, professor de Estudos Americanos na Universidade de Tübingen, e para o seu livro A Natureza das Teorias da Conspiração (Desassossego) de modo a iluminar alguns pontos que ajudam a compreender este fenómeno.
Segundo Butter, existem três tipos principais de teorias da conspiração:
1) teorias de conspiração de eventos, que giram em redor de um determinado acontecimento, tais como o 11 de setembro, a chegada do Homem à Lua e o assassinato de Kennedy;
2) teorias da conspiração do sistema, que consideram um determinado grupo de conspiradores como o responsável por uma série de acontecimentos;
3) teorias de superconspiração, isto é, conglomerados de teorias da conspiração de eventos e do sistema.
“Os teóricos da conspiração narram sempre as suas histórias a partir do fim. Perguntam-se a quem poderá ser útil determinado acontecimento ou o desenrolar de certa ação para dessa forma identificarem os que devem ser os responsáveis.”
— Michael Butter
Embora o termo “teoria da conspiração” tenha sido cunhado pelo filósofo Karl Popper já nos anos 50, com a era da Internet estas ganharam novo fôlego. O mais famoso e bem-sucedido teórico da conspiração dos EUA, Alex Jones, tem 2,1 milhões de subscritores no seu canal de YouTube e é seguido no Facebook por 1,5 milhões de pessoas. Para além disso, comercializa ainda números produtos diretamente relacionados com as suas ideias conspiracionistas – entre eles, o suplemento Brain Force Plus, que ajuda a que voltemos a pensar por nós próprios (por apenas 39,95 dólares americanos a garrafa).
“Temos de aprender e sobretudo transmitir aos jovens, como a internet funciona e gera significado” — Michael Butter
Perfil provável do conspirador:
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Maioritariamente homem e branco, por estes terem ocupado durante muito tempo o topo da hierarquia social e poderem sentir o seu lugar ameaçado;
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Entre os 40-50 anos, isto é, pessoas que têm idade para se lembrar de um passado supostamente melhor e que, ao mesmo tempo, ainda não se reformaram pelo que se sentem particularmente atingidas pelas transformações do status quo;
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Partilha convicções que o coloca mais à margem do espectro político (quer à esquerda ou à direita);
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Menor probabilidade de votar em eleições, por acreditar que o governo participa em conspirações;
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Maior tendência para adotar um comportamento mais negligente em relação ao planeta por não acreditar nas alterações climáticas.
No cerne da adesão a várias teorias de conspiração, está, muitas vezes, uma tentativa de desculpabilização de outro tipo de acusações. Por exemplo, quem rejeitou Barack Obama como presidente por ele ser negro, ou votou contra a eleição de Hillary Clinton por ser mulher, poderia ser censurado como racista ou sexista. No entanto, quem afirma rejeitá-los por considerar que Obama e Clinton são meras marionetas de uma conspiração que tem como objetivo uma nova ordem mundial, pode ilibar-se dessas acusações. O mesmo acontece com quem vê os migrantes e refugiados como parte de um plano pérfido para se apoderarem do Mundo Ocidental.
Defende Michael Butter que para os conspiradores “não existe lugar para o acaso e a contradição, tem de haver algo por trás das incongruências.”. Perante esta visão do mundo, convêm lembrar as palavras de Arthur C. Clarke no final de 2001: Odisseia no Espaço: “A verdade, como sempre, será muitíssimo mais estranha.”