Até aos Ossos estreou cinema em novembro de 2022. Já o livro que inspirou este filme, protagonizado por Timothée Chalamet (Lee) e Taylor Russell (Maren), chegou às livrarias no passado dia 6 de março.
Nesta história, Maren Yearly tem um segredo que a torna diferente, impulsos que não consegue controlar — desde o dia em que foi encontrada com um osso da orelha da ama na sua boca, quando tinha apenas dois anos, que se soube que a sua vida não seria normal. Odeia-se pelas coisas más que o seu instinto a pressiona a fazer, por aquilo que causa a si e à sua família. Quando é abandonada com apenas algum dinheiro e a sua certidão de nascimento, Maren decide partir, determinada a encontrar as suas origens e a razão para ser como é. Confrontada com um mundo onde, pela primeira vez, conhece outros canibais e a possibilidade inesperada do amor, Maren percebe que não está apenas à procura das suas origens, mas também de si mesma.
A principal diferença entre o livro e o filme é a essência das obras: enquanto que no livro, o foco está no canibalismo de Maren e na sua jornada de autoreconhecimento e aceitação, o filme foca-se na relação romântica entre Maren e Lee. Por este motivo, o livro e o filme divergem em vários aspetos: uns afetam a forma como a história se desenrola e é interpretada, e outros nem tanto.
Spoiler Alert! Caso ainda não tenhas lido este livro e/ou visto o filme e não queres spoilers, aconselhamos-te a voltar a este artigo mais tarde.
As dinâmicas familiares
No livro, Maren vive com a sua mãe, que a abandona no seu 16.º aniversário, sem explicação, e revela uma possível localização para o pai (Frank). Já no filme, os papéis paternais estão invertidos e Maren é abandonada com 18 anos, depois de ter tido um impulso canibal que obrigou pai e filha a mudarem-se.
Nas duas obras, Lee foge de casa depois do desaparecimento do pai. No entanto, o filme revela que o pai não desapareceu, mas sim que foi comido por Lee, durante uma luta.
O papel do canibalismo na história
Na obra cinematográfica, Maren parece alimentar-se de forma aleatória quando surge uma fome insaciável, sendo esta uma condição genética, partilhada por Maren e pela sua mãe.
Em contrapartida, na obra literária, o lado canibal de Maren está ligado às suas emoções, principalmente ao amor e à atração que sente pela pessoa. Se alguém se aproximar demasiado, Maren fica com o impulso incontrolável de o comer. Ao perceber esta ligação, a protagonista afasta todos da sua vida, como forma de autocontrolo.
A representação do canibalismo
No livro, o canibalismo apresenta-se como algo rápido e simples, sobrando apenas as roupas da vítima. O tema é aprofundado através das emoções sentidas por Maren antes e após se alimentar, tendo pouca ou nenhuma descrição da alimentação em si.
Já o filme representa este ato de uma forma mais gráfica, sendo este um momento desorganizado e sujo, sem o foco nos sentimentos. Alimentar-se da vítima na totalidade “bones and all” ou “até aos ossos” é possível, mas uma experiência que Maren e Lee desconhecem por completo.
A conexão de Sully e Maren
Sully é o primeiro canibal que Maren conhece, fazendo com que esta perceba que não é a única. Sully conta-lhe a sua experiência e dá-lhe algumas dicas sobre como lidar com esta situação ao longo da vida.
Depois do seu primeiro encontro, os dois separam-se, e a jovem continua a sua jornada em busca do progenitor desaparecido. No entanto, Sully segue Maren pelo país, afirmando sentir uma ligação especial com a protagonista. No filme, a conexão entre os dois personagens é mantida desta forma, enquanto que no livro descobrimos que na realidade Sully é avô de Maren.
A relação amorosa entre Maren e Lee
Como referimos, o filme foca-se mais na relação amorosa entre os protagonistas, começando este namoro muito mais cedo na história. Após a viagem pelos EUA à procura de respostas, o casal decide viver como pessoas normais, arranjam uma casa, empregos e permanecem assim durante alguns meses, até que Sully aparece um dia e ataca Maren. Lee, ao tentar defender a sua namorada, acaba esfaqueado. Ao perceber que não irá sobreviver, implora a Maren que o coma “até aos ossos”, como prova do amor entre os dois.
Já no livro, o casal só se relaciona fiscamente no final da história. É esse relacionamento que ativa a naturaza canibal de Maren, ligada às suas emoções, fazendo com que esta coma Lee.
O final da história
Maren termina a história aceitando quem é. A adaptação para o cinema termina logo após a personagem ter devorarado o namorado, numa cena em que ambos estão juntos num piquenique, implicando que ficam para sempre ligados.
O livro mostra-nos um pouco da vida de Maren após ter morto Lee, em busca de uma vida normal, alimentando-se quando necessita.