O que aconteceria se pudéssemos fazer pesquisas online em milhões de memórias anónimas e experimentar os pensamentos e sensações de outra pessoa a partir de dentro?
1. Em 2015, Jennnifer Egan (Prémio Pulitzer 2011) andava completamente focada nas revisões do seu romance Manhattan Beach, quando a memória de uma amiga de infância, de quando vivia em São Francisco, começou a surgir na sua mente. Desperta pela curiosidade, abriu o Facebook e pesquisou o nome da mulher. Encontrou o seu perfil, inundado de condolências e recordações. Ela havia falecido dois dias antes, num acidente de carro. “Este acontecimento teve um grande impacto em mim” — confidenciou numa entrevista. “Eu sei que está lá tudo, na minha mente. Por que motivo consigo visualizar algumas memórias e outras não?" Esta terá sido a génese de Uma Casa Feita de Doces, cujo tema central é a busca da autenticidade.
2. Egan pede o título emprestado a Hansel e Gretel é à famosa armadilha da bruxa má. É uma metáfora que se presta ao vício em dopamina, alimentado pelas redes sociais e pela participação na vida online.
3. O romance começa com uma epifania: Bix Bouton, criador da milionária Mandala, uma empresa tecnológica, desenvolveu o programa “Sê Dono(a) do teu Inconsciente”, que permite o acesso de cada um a todas as suas memórias e às dos outros — ou a uma memória coletiva. Os utilizadores que concordarem em carregar as suas memórias terão acesso ao conteúdo anonimizado de todos os outros utilizadores, vivos ou mortos. "O coletivo é como a gravidade", escreve Egan, "quase ninguém pode resistir a ele".
4. A personagem Bix Bouton terá certamente alguns pontos em comum com Steve Jobs, com quem Jennnifer Egan namorou, quando era estudante na Universidade da Pensilvânia — estava Jobs, nessa altura, há sete anos à frente da Apple.
5. A obra está dividida em quatro secções: Criação, Destruição, Queda e Criação (novamente), inspiradas na música eletrónica de dança.
6. A narrativa organiza-se em 14 histórias, que ziguezagueiam entre os anos 1960 e 2030, entre e-mails, diários de adolescentes e registos de missões secretas, com muitas personagens de A Visita do Brutamontes (2011) a serem revisitadas, como Sasha, a cleptomaníaca que se tornou artista, e Bennie, um músico decadente.
Se o programa “Sê dono(a) do teu inconsciente” existisse realmente, teria vontade de o experimentar?