José Gardeazabal: “Há incómodos que, versados em literatura, nos fazem avançar.”

Por: Marisa Sousa a 2021-04-27

José Gardeazabal

José Gardeazabal

José Gardeazabal nasceu em Lisboa.
O seu livro de poesia, história do século vinte, foi distinguido com o Prémio INCM/Vasco Graça Moura.
O seu primeiro romance, Meio Homem Metade Baleia, foi finalista do Prémio Oceanos, e com A Melhor Máquina Viva, seu segundo romance, considerado um dos melhores livros de 2020 pelos jornais Expresso e Público, foi finalista dos prémios Fernando Namora, Correntes d'Escritas e da Sociedade Portuguesa de Autores.
Em 2021, publicou os romances Quarentena - Uma História de Amor, finalista do Prémio Oceanos em 2022, e Quarenta e Três, assim como o volume de poesia Viver Feliz Lá Fora e, em 2022, sai Quando éramos peixes, o segundo volume da Trilogia dos Pares.
A mãe e o crocodilo, que conta a história de Vladimir e do seu crocodilo, Benito, é o seu quinto romance.

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Um casal, decidido a separar-se e de malas feitas, é obrigado pelas autoridades de saúde a uma quarentena. O seu apartamento transforma-se numa arena de proximidade física e distâncias calculadas, onde os restos da vida amorosa e o trautear televisivo de uma pandemia mudam o mundo por dentro e por fora. Ali, sob o regime forçado de uma intimidade perdida, percebemos como, entre antigos amantes, vizinhos e desconhecidos, a saudade das multidões e dos sentimentos sempre estiveram à altura de nos resgatar do peso do presente. Quarentena, Uma História de Amor, o novo romance de José Gardeazabal, coloca-nos no lugar de espetadores de uma história de amor em 40 dias. “A nossa relação desapareceu pelo efeito preguiçoso do tempo”, esclarece o protagonista logo à entrada da narrativa. Será que devemos acreditar nas primeiras impressões ou dar tempo à descoberta? Uma introspeção inesperada, à porta fechada, sobre o que é o amor, onde começa, acaba e recomeça.


É inevitável não nos vermos ao espelho, se não na totalidade da narrativa, em determinados parágrafos, frases ou mesmo nos silêncios. Este pode ser um livro incómodo?

Este romance trabalha várias narrativas em simultâneo. Desde as paisagens exteriores, o ritmo quase mundano da pandemia e as quarentenas e os passeios do passado, até à dinâmica do casal desavindo, os espaços, os tempos, a vida interior de uma relação que parece ter morrido.

Este é um livro que explora a intimidade por dentro, se me é permitido o pleonasmo. Tem um trabalho de geografia e arqueologia do amor: como é que um casal confinado pode, ou não, reconstruir uma relação que morreu. Não acredito muito na literatura feita para incomodar, mas há incómodos que, versados em literatura, nos fazem avançar.

 

“Vivemos uma vida inteira a tentar provar que somos únicos, a desejar que alguém o reconheça, e um dia esse alguém chega e diz: «És único e eu não gosto.»” (pág. 22)

 

Quanto desta história é ficção para o autor?

 Por um lado é quase tudo ficção. O que não é ficção? A experiência da quarentena enquanto o metralhar dos media, dos medos, dos políticos e dos dados captura um ritmo comum, vivido, que quis verter em literatura. Eu diria vivido de dentro e no momento que foi. Também o escavar na história do mundo e dos humanos quase replica o próprio método de construção de parte do romance. Também por isso as frases e até as imagens que nos são familiares. Aí, quase se roça a não ficção, mas com um trabalho de distanciamento que ilumine significados. Por outro lado, o caso do casal, por assim dizer, é construído. Essa parte do romance é iniciada como mecanismo. Surgiu-me a vontade de explorar as dinâmicas íntimas de um casal num espaço fechado. Se o amor é a arte da distância, por vezes é também a arte da muito pouca distância. Mas, lançados os dados, o mecanismo tem vida própria e permite explorar a fundo como a intimidade, a memória, o próprio espaço, acompanham um casal confinado. Dito isto, a intimidade é dos temas difíceis em literatura, a literatura não pode dar notícias falsas sobre a intimidade. Nesse sentido, há uma exploração interior e uma observação que, não sendo autobiográficas, estão de alguma forma encostadas às nossas vidas e às nossas experiências. Mas encostadas do lado de dentro, por assim dizer, não pelo lado dos acontecimentos, mas pelo lado da atenção.

 

“A intimidade é dos temas difíceis em literatura, a literatura não pode dar notícias falsas sobre a intimidade.” (José Gardeazabal )

 

O protagonista explica que “a relação desapareceu pelo efeito preguiçoso do tempo”. Ao longo das páginas vamo-nos apercebendo que o tempo mata mas também pode salvar. É uma leitura correta?

Sim. De várias maneiras, neste romance os protagonistas são o tempo e o espaço. O espaço apertado entre os amantes perdidos, e o tempo extraordinariamente extenso à sua frente. E o tempo talvez seja o vencedor, no fim. É ele que nos transforma, que nos mastiga as memórias, as distâncias amorosas. Claro que o espaço é uma grande ajuda, mas o tempo toma a iniciativa, por assim dizer. O espaço é cinema e fotografia, o tempo é memória e mudança. A ressurreição, mesmo que parcial, de uma história de amor, dá uma boa história de amor.

 

 “O único fim de um grande amor é um acidente.” (pág. 21)

 

De onde nasce a necessidade de revistar outras pandemias, trazendo-as para o romance?

Não é uma necessidade, é uma naturalidade. A inundação de dados, histórias, comparações, geografias a que estivemos sujeitos no confinamento e ainda hoje, pedia uma paragem, uma reflexão. É esse o trabalho que os episódios passados, e até as imagens, fazem. Obrigam-nos a respirar. Desde as obras de arte até aos passeios de Nietzsche, Sebald e Walser, passando pelos confinamentos de astronautas e cosmonautas, temos oportunidade de falar no tempo, na geografia, nas várias intimidades que fomos construindo como seres humanos. Acho que esse foi um dos ganhos do confinamento, a pausa para respirar, que podemos sempre aproveitar para a reflexão e as empatias inesperadas. De certa forma, não estivemos sozinhos nesta dimensão, tivemos sempre os outros distantes a enviarem-nos sinais.    

 

“Temos medo, contem-nos uma história, numa epidemia ninguém passa sem uma boa história e os governos existem para nos contar histórias, a imprensa também. A diferença entre um governo e um casal separado é que o casal tem duas histórias e as duas são interessantes. Os casais mentem, os poderosos falam à imprensa.” (pág. 21)

 

Disse que este livro resultou da sua observação do ritmo humano aquando do primeiro confinamento. Não teme que o cansaço em relação ao assunto pandemia afaste as pessoas desta história? Mudaria alguma coisa, hoje?

 

O romance está escrito para ser lido hoje, com os ecos de agora, e daqui a cem anos, com outras ressonâncias. Se acreditarmos que a intimidade e o medo e a vontade de sermos humanos estarão connosco, este romance continuará a falar connosco e a dizer-nos coisas. Esse era obviamente um risco, escrever para o momento, para a realidade, por assim dizer. A minha literatura não acredita em abusar da realidade, por isso avancei com muito pudor. Este romance foi-me imposto, de certa maneira, mas estive sempre consciente que não estava a escrever para aquele momento. Que foi o momento do susto limpo, do primeiro medo. Agora a experiência da pandemia está mais "suja", mais dura, talvez, menos solidária. Eu escrevi durante aquele priemiro susto, inteiro e limpo. Agora o livro faz o seu caminho, vai mudando o que diz e como o diz. O que procuro é leitores que se reconheçam, independentemente do tempo. Uma leitora dizia-me há uns dias que havia várias frases, diálogos, em que ela se surpreendia a pensar: eu acho que disse isto. Para mim isso foi uma alegria, há esse lado de reconhecimento, de experiência partilhada que é transmitida literariamente, ou seja, transmitida para sobreviver ao tempo.

 

“O que procuro é leitores que se reconheçam, independentemente do tempo.” (José Gardeazabal )

 

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