Entrevista | Maria João Valente Rosa

Por: Elísio Borges Maia a 2021-12-09

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Entrevista | Lídia Jorge

Na origem de Misericórdia, o mais recente romance de Lídia Jorge, esteve o desejo da sua mãe nos seus últimos meses de vida num lar de idosos. Antes de ter sido uma das vítimas portuguesas de Covid-19, pediu à filha um livro que mostrasse como a compaixão pode imperar no mundo em que vivemos. Uma “situação emocional forte” que levou a autora portuguesa a escrever sobre o último ano de vida de uma mulher, “limitada pelo corpo, mas livre pelo espírito.”

Entrevista | Richard Zimler

Nas últimas três décadas, o norte-americano naturalizado português, Richard Zimler, tem sido um dos autores mais prolíficos no panorama literário nacional. Entre romances, livros de contos e livros infantis, o autor de 66 anos é reconhecido pelo seu trabalho de investigação com que constrói cada uma das suas obras. Acaba de publicar o seu 14º romance, intitulado A Aldeia das Almas Desaparecidas, onde cruza ficção e realidade histórica para abordar o passado judaico e as marcas da Inquisição em Portugal. 

Augusto Cury | “Estamos a adoecer coletivamente” 

É psiquiatra, psicoterapeuta, cientista e escritor. Desenvolveu o conceito de inteligência multifocal, uma perspetiva inovadora do funcionamento da mente e da construção do pensamento. É investigador na área de qualidade de vida e de desenvolvimento da inteligência, abordando a natureza, a construção e a dinâmica da emoção e dos pensamentos. Os seus livros ocupam os lugares cimeiros nas listas de livros mais vendidos em todos os países onde são publicados. É considerado o autor mais lido do Brasil dos últimos anos e um verdadeiro fenómeno editorial, com mais de 30 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo. No seu último livro, o Médico da Emoção, Augusto Cury explica-nos que “a vida não é lógica, mas agradavelmente imprevisível”. Foi sobre vida e saúde mental que conversámos, aquando da sua mais recente passagem por Lisboa.

Partilhamos consigo a segunda parte da entrevista a Maria João Valente Rosa, publicada na edição de Natal da revista Somos Livros. Se ainda não leu a primeira parte, descubra-a aqui.


“INSURGIMO-NOS CONTRA UMA SÉRIE DE ISMOS, OS TAIS RÓTULOS QUE DISCRIMINAM OS OUTROS, MAS O IDADISMO CONTINUA A TER UM NÍVEL DE ACEITAÇÃO INCOMPREENSÍVEL NA SOCIEDADE.”


Falamos cada vez mais na esperança média de vida, que tem vindo a aumentar (e, para isso, muito contribuiu o facto de termos associado a idade de acesso à reforma à evolução daquele indicador), mas damos muito menos atenção à qualidade dessa maior esperança de vida — como preenchemos esse período, se temos saúde física e mental. A quantidade e a qualidade não deveriam ser duas faces da mesma moeda?


A quantidade de anos de vida e a qualidade desses anos deveriam ser, de facto, duas faces da mesma moeda, mas não o são. Por exemplo, a esperança de vida em Portugal é elevada, mas, se atentarmos na esperança de vida saudável, ou sem incapacidades, indicador que consta das estatísticas oficiais, percebemos que não estamos muito bem: aos 65 anos, a maior parte do número de anos que temos pela frente é vivida com incapacidades. E esta situação é mais acentuada nas mulheres do que nos homens, apesar de elas poderem esperar viver uma maior quantidade de anos do que os homens.

 

Esses dados são baseados em inquéritos às populações?


São inquéritos que avaliam a perceção das pessoas e não tanto o seu estado de saúde real.  Mas, mesmo que existam grupos mais queixosos ou exigentes que outros em relação à forma como se sentem, o que é um facto é que esses dados expressam que, durante tempo importante das suas vidas, as pessoas não se sentem bem, ou melhor, que não estão a aproveitar em qualidade este bónus de quantidade de vida que tem vindo a ser ganho.   

 

Outra coisa que está a mudar é o próprio perfil dos idosos.


Sim, na realidade, o perfil das pessoas nas idades superiores de amanhã será muito diferente do seu perfil de hoje, tal como o perfil de hoje é muito diferente do de ontem. Por exemplo, as pessoas que, daqui a 15 anos, entrarão para o grupo dos 65 ou mais anos são mais qualificadas do que as que estão hoje nessa faixa. Estão também, naturalmente, mais familiarizadas com as novas tecnologias, são muito mais conectáveis e irão contar com redes de apoio familiar muito mais reduzidas. Podem, também, contar viver mais tempo do que os seus ascendentes. Contudo, apesar dessas alterações e do bónus expectável de tempo de vida, pouco ainda mudou quando falamos da organização do ciclo de vida. O modelo dominante persiste praticamente intacto: nas idades iniciais concentra-se a formação, nas idades centrais o trabalho, nas idades superiores o descanso/lazer/reforma.

Importa adaptar a sociedade ao curso dos factos, alterando princípios e modelos de organização da vida coletiva, herdados de um passado que já nada tem que ver com o presente e muito menos com o futuro. Trata-se de construir um novo desenho para as vidas longas, o qual deverá ter implicações sobre toda a existência da vida e não unicamente sobre a sua última fase. 50% das crianças que nasceram em Portugal, este ano, poderão passar a barreira dos 100 anos de idade, ou seja, vão viver, em média, o dobro do tempo que os seus bisavós viveram. Mas o que estamos a fazer para nos prepararmos para viver mais tempo? A aposta passa por repensar a vida como um todo e não apenas, ou quase exclusivamente, a última fase da vida, como habitualmente acontece. Com efeito, até ao momento, as grandes orientações para responder ao envelhecimento e à longevidade das populações têm estado muito concentradas na última fase do ciclo de vida: na reforma ou na velhice. A exemplificá-lo estão as propostas para o chamado envelhecimento ativo, dirigidas sobretudo aos reformados ou aos mais velhos. 

No Japão, país onde a longevidade da população é das mais altas do mundo, foi criado o Conselho Superior para as Vidas Longas, pois não basta vivermos mais anos, em quantidade: é preciso pensar a vida em outros moldes, de forma que o aumento da esperança de vida não equivalha a mais tempo para se ser velho, em vez de a mais tempo para se viver. O tema da longevidade das populações é um dos maiores desafios que as sociedades têm pela frente. É necessário encontrar um novo mapa para a vida, em que a idade deixe de representar prejuízo ou benefício, em que os tempos — formação, trabalho, descanso e lazer — se interliguem ao longo de toda a vida adulta e em que as idades mais jovens (em pleno processo de formação) não sejam esquecidas nesta equação. No meu livro O Envelhecimento da Sociedade Portuguesa, começo precisamente por dizer que o principal problema das sociedades modernas não é o futuro; é o passado. Temos de nos libertar do passado e imaginar algo totalmente diferente, porque o futuro nada tem que ver com o passado.

 

“TRATA-SE DE CONSTRUIR UM NOVO DESENHO PARA AS VIDAS LONGAS, O QUAL DEVERÁ TER IMPLICAÇÕES SOBRE TODA A EXISTÊNCIA DA VIDA”


Como deveria ser composto esse Conselho Superior para as Vidas Longas?


Deveria ser composto por pessoas de diversas gerações, provenientes do setor público e do setor privado, e ser transversal, incluindo peritos reconhecidos em várias áreas, como a sociologia, a economia, a demografia, a biologia, as engenharias, a saúde, o ambiente ou a filosofia. A ideia seria remapear a vida, pois o mapa que usamos já não é útil, provoca angústia, fomenta a exclusão social, dificulta a coesão social e prejudica o próprio dinamismo da economia. E deveria ter uma visão de médio-longo prazo, para sobreviver a ciclos governamentais e se afirmar como um compromisso intergeracional. Um Conselho como este poderia ter um papel essencial para a orientação de políticas públicas sólidas, sem os ziguezagues que muitas vezes as caracterizam.

 

Além das necessárias mudanças das políticas públicas, a alteração de perfil dos futuros idosos, mais qualificados, mais informados e com hábitos e interesses culturais muito distintos, poderá permitir que essas pessoas sejam elas próprias o motor da mudança?


As pessoas são o agente da mudança por princípio, mas para tal precisam de ter condições, ou melhor, precisam de que o meio seja propício à mudança e não funcione como bloqueio. Por exemplo, sabemos que uma das competências mais importantes a desenvolver é o espírito crítico e a criatividade. Mas, se pensarmos na escola, percebemos que a memorização e a reprodução de saberes continua a ser dominante. Isto, de algum modo, dificulta que as pessoas se adaptem a novos mundos, porque para questionar esses mundos é essencial o espírito crítico. Por outro lado, o trabalho também já não é o que era; já não existe um trabalho para a vida. As oportunidades e as necessidades vão mudando. Por isso, as pessoas têm de exercitar a sua capacidade de adaptação e de resiliência. A escola tem, por isso, um papel fundamental, não só para atualizarmos saberes, como também para aprendermos novas coisas e para encontrarmos outras áreas em que possamos fazer a diferença. Mas isto é difícil de conseguir, muitas vezes por falta de tempo, quando estamos no pleno da vida ativa. E pergunto: para muitas atividades, é essencial trabalharmos tantas horas? Em Portugal, o trabalhador que é mais valorizado é o que passa mais tempo na empresa, quando quem deveria ser valorizado é a pessoa que faz exatamente a mesma coisa em metade do tempo. Para que isto fosse diferente, era necessário que existisse uma avaliação de resultados isenta, para garantir que quem faz o mesmo em metade do tempo não é sobrecarregado com o dobro do trabalho. Muito do que se passa pode ser compreendido pelas fracas lideranças que temos e pela sua baixa preparação para definir objetivos e, em função destes, proceder a avaliações sérias. Lembro, a este propósito, que, em Portugal, 46% dos empregadores têm no máximo o 9.º ano de escolaridade. Na Europa a 27, esse valor é de cerca de 17%. 

Adicionalmente, sabemos que o tempo livre, nas idades centrais, é muito escasso e que a formação ao longo da vida, enquanto atualização ou aquisição de saberes, é difícil de conciliar com o resto das nossas vidas. E nunca como hoje importou tanto acompanhar os avanços do conhecimento, neste tempo em que o saber é essencial para a vida individual e coletiva e se torna rapidamente obsoleto se não for atualizado ou revisto. Por que motivo as licenças sabáticas para formação são possíveis no meio académico e não no meio empresarial? Porque não existem centros que ajudem as pessoas a reorientarem a sua vida profissional? Porque existem os centros de emprego e formação profissional, mas não existem centros de reorientação profissional? Porque não existem espaços extracurriculares de formação, que integrem jovens e adultos, onde se possa adquirir competências transversais, consideradas essenciais a todas as gerações? Esta são apenas algumas questões que coloco a propósito de um ambiente social que não facilita a mudança. 

 

“EM PORTUGAL, O TRABALHADOR QUE É MAIS VALORIZADO É O QUE PASSA MAIS TEMPO NA EMPRESA, QUANDO QUEM DEVERIA SER VALORIZADO É A PESSOA QUE FAZ EXATAMENTE A MESMA COISA EM METADE DO TEMPO.”

De acordo com o INE, em 2050 41% dos portugueses poderão ter 60 anos ou mais. Hoje, 29% dos portugueses têm 60 anos ou mais.


 

Em 1950, a esperança de vida à nascença era de 59 anos; atualmente, a esperança de vida à nascença é de 81 anos


50% das crianças que nasceram este ano deverão ultrapassar os 100 anos de idade


Em Portugal, 46% dos empregadores têm no máximo o 9ºano de escolaridade. Na Europa a 27, esse valor é de cerca de 17%

 

Conhecemos bem a absoluta dependência que as pessoas em idade de reforma têm das respetivas pensões — sem esse rendimento, a grande maioria dos pensionistas cairia numa situação de pobreza. Não teme que o critério da idade remanescente, a ser acolhido nas leis portuguesas, seja usado apenas para elevar a idade de reforma e equilibrar as contas da Segurança Social, mantendo-se tudo o resto na mesma?


Em termos estatísticos, para medir o envelhecimento da população, faz sentido utilizar a idade remanescente. Contudo, em termos sociais, a questão é mais profunda. Mudar a idade em que se passa a considerar o direito de reforma com base no critério de idade remanescente, mantendo-se tudo na mesma, é alimentar e fazer perdurar o problema, com riscos de uma enorme incompreensão e insatisfação social, apesar de algum alívio que eventualmente tal possa trazer para as contas financeiras de sustentabilidade do sistema.
 
A minha proposta não seria trabalhar mais anos, mas diluir o trabalho por mais tempo ao longo da vida, tornando-o menos intenso nas idades centrais e libertando tempo para outras atividades ou projetos de vida. Todos nós ambicionamos trabalhar menos horas e ter mais tempo para formação e mais tempo livre. Certamente, todos nós gostaríamos de ter muito mais tempo, concentrando menos o trabalho nas idades centrais. A solução não passa, portanto, por uma medida económica que tenha como único objetivo o financeiro, de reequilibrar contas. É preciso é reequilibrar a sociedade — uma estratégia global entre áreas de atuação, que habitualmente são pensadas em separado, como a educação, o trabalho, a proteção social, a saúde ou o ambiente, que contasse com o envolvimento de todas as gerações, a começar pelos mais novos na escola. É altura de pensarmos em mudanças profundas, que por vezes levam anos ou décadas a produzir efeitos, nos modos de estarmos e de vivermos em sociedade, nesta era de vidas longas. 

 

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