"Trazer essas pessoas que historicamente sempre foram periféricas para o centro do debate político é o único caminho para o Brasil superar os seus problemas sociais seculares."
Luca Argel cresceu na Tijuca (Rio de Janeiro), bairro de classe média remediada, que outrora foi um grande pântano. Até aos doze anos inventava histórias para os seus bonecos, até que os trocou pela música. E pela poesia. Chegou a Portugal em 2012. Não vinha para ficar; foi ficando. No ano seguinte, regressou ao seu país como visitante. Participou nas grandes manifestações de rua, em assembleias abertas dos movimentos que as tentavam organizar. Mas o sinal estava fechado, o Brasil caminhou noutro sentido.
Hoje, o samba é o vetor das suas reflexões, artísticas e políticas. O centro da sua criação e investigação.
A história do samba foi o ponto de partida da nossa conversa que teve lugar na histórica livraria Bertrand da Avenida de Roma (em Lisboa), escassos dias após o lançamento de Sabina, seu último disco. Conversámos sobre o Brasil e Portugal: do assombro que ainda hoje provocam os poetas que desafiaram a ditadura, como Paulo César Pinheiro (no Brasil) ou Natália Correia (em Portugal); mas também dos atuais desafios das duas democracias. Falámos de música, poesia, história, memória, afetos e contradições. Da sua interpelação ao passado colonial português, presente em dois temas de Sabina: "Peça Desculpas, Senhor Presidente" e "Nada Pessoal".
Os seus discos estão cheios de histórias épicas de resistência, como a da Guerrilha do Araguaia, do Almirante Negro (em Samba de Guerrilha, 2021) ou de Sabina, a quitandeira carioca que foi proibida de vender quando estudantes republicanos fizeram tiro ao boneco com as suas laranjas. O seu amigo, o poeta e cronista Victor Heringer (1988-2018), parece ter adivinhado este disco vários anos antes: “O vendedor ambulante é gambiarra encarnada em gente. Imagine como não seria um livro sobre a história do Brasil do seu ponto de vista.” As pequenas histórias ou o retrato quotidiano são também uma fonte inesgotável para a poesia de Luca Argel, como vemos em Conversa de Fila ou Acanalhado. Por vezes, um pequeno foguete num recorte de jornal é quanto basta:
“Vou conhecer o universo inteiro
Que não tenho como ver
Senão com olhos De brasileiro”
"VILA COSMOS", EM BANDEIRA, 2017
Elísio Borges Maia — Quando acabamos de escutar o disco Samba de Guerrilha [2021] é como se alguém nos tivesse tirado uma venda dos olhos. Já havíamos trauteado alguns daqueles sambas, mas nem parece que estavam escritos na nossa língua. Desconhecíamos a sua história e o seu verdadeiro significado. Mais ou menos o que se sente quando se percebe a história contada em Strange Fruit, de Billie Holiday. Depois desse momento, nunca mais ouvimos a canção da mesma maneira. Falemos disso, do que ainda ignoramos a respeito do samba e sua origem.
Luca Argel — O que você falou é incrível, pois é exatamente o objetivo do Samba de Guerrilha. Não é só um álbum, nem só um espetáculo. É um conceito, uma forma de abordar o samba, que pode ter muitos desdobramentos. E a minha ideia sempre foi exatamente essa, oferecer outras camadas de leitura que o samba tem e que muitas pessoas que ouvem e gostam de samba não conhecem. São histórias que carregam uma memória muito poderosa, muito transformadora, política e socialmente, que continua a ser pertinente hoje. A discriminação e o racismo são assuntos centrais em todos os problemas da sociedade brasileira contemporânea — embora noutros lugares também, como em Portugal. No Brasil, o racismo é estrutural e contamina todas as outras mazelas sociais — como uma semente. O samba é o veículo que eu escolhi para falar desses temas.
Parece-te que existe apenas desconhecimento das histórias por detrás do samba ou também há preconceito?
Eu acho que são as duas coisas. Fora do Brasil, esse preconceito resulta da forma como a indústria escolheu apresentar o samba para o mundo. Existe um processo, desde o início do século XX, de branqueamento do samba, em todos os sentidos, desde logo racial.
Procurando esconder a sua origem...
Exatamente. Esconder a sua origem étnica, religiosa. Desafricanizar o samba foi uma condição para que ele tenha conseguido se impor como um género símbolo do Brasil, internamente e como produto cultural para ser exportado. Muita gente não tem noção dessa origem.
Suponho que conheces a história que o Tiago Rogero conta no podcast do Projeto Querino sobre o concerto de homenagem ao Tom Jobim no réveillon de 1995/1996, com os grandes nomes da MPB. Paulinho da Viola recebeu apenas trinta por cento do cachê pago aos outros músicos, ao que tudo indica, por ser o único sambista.
Essa história é incrível e sintomática. Eu acho muito irónico que isso tenha acontecido num concerto de tributo ao Tom Jobim, a grande cara artística da bossa nova e um dos maiores embaixadores da música brasileira fora do Brasil. A bossa nova acabou ganhando essa fama de ter sido o género que conseguiu fazer a mistura entre o samba e o jazz e o primeiro genuinamente brasileiro a ser consagrado e reconhecido internacionalmente. Essa historiografia coloca a bossa nova num lugar de pioneirismo, como se tivesse sido a primeira, quando o Pixinguinha, no início do século XX, já fazia essa mistura de jazz com samba e tinha representado o Brasil, passando meses excursionando em Paris, apresentando a música brasileira, com muito sucesso. Existe, assim, um pioneirismo dos primeiros músicos de samba e choro, como o Pixinguinha, que a historiografia da bossa nova reivindica para si. E eu acho que esse discurso foi bem-sucedido porque as principais caras da bossa nova não são pessoas negras.
Tom Jobim, João Gilberto,
Vinicius de Moraes. É muito mais raro ver reconhecido que esses sambistas do início do século — negros, filhos de imigrantes baianos e escravizados — faziam algo de pioneiro e, pelo menos, tão sofisticado quanto a bossa nova, uns 50 anos antes do seu aparecimento. Isso para mim é mais um sintoma de um racismo estrutural. Para a indústria cultural, é muito mais fácil arrumar um artista negro dentro daquela categoria da arte intuitiva, primitiva, menos desenvolvida — no sentido de não ser uma arte com uma base académica —, quase folclórica. Colocar os artistas negros nessa categoria e reservar as categorias mais eruditas para os compositores brancos. O Pixinguinha fica de um lado, o Tom Jobim fica do outro. No discurso, ninguém se atreve a dizer que um é melhor que o outro, mas, quando vão contratar para um concerto, a diferença do cachê…
“Desafricanizar o samba foi uma condição para que ele tenha conseguido se impor como um género símbolo do Brasil, internamente e como produto cultural para ser exportado. Muita gente não tem noção dessa origem.”
"Pesadelo" é um dos sambas históricos incluídos no disco Samba de Guerrilha. Composto pelo poeta Paulo César Pinheiro e por Maurício Tapajós e gravado em 1972, em plena ditadura militar no Brasil, ele visava explicitamente o aparelho repressivo e a censura (“Você corta um verso, eu escrevo outro / Você me prende vivo, eu escapo morto”) e vaticinava, com uma serena confiança, que o regime seria derrubado: “E se a força é tua, ela um dia é nossa.” Como foi possível passar no crivo da censura?
Os autores sabiam que a música não ia passar pela censura. Tinham a certeza disso. Então, eles usaram, na verdade, a estupidez da censura contra ela mesma. Uma estupidez que os compositores conheciam bem: os censores não entendiam as obras, viam subversão em tudo o que estava escrito na letra. Mas para o censor não era indiferente o autor: alguns compositores eram perseguidos e outros eram protegidos. A editora do Paulo César Pinheiro era a editora de um outro cantor que, quando aconteceu o Golpe militar de 1964, tinha declarado publicamente o seu apoio aos militares: o Agnaldo Timóteo. Por causa disso, ele nunca tinha problemas com a censura, os seus discos eram todos aprovados. O Paulo tinha percebido isso. Alguns compositores, como ele próprio ou o Chico Buarque, mandavam as letras para a censura e ficavam a aguardar por uma resposta durante semanas ou meses (por isso, o Chico Buarque usou o pseudónimo [Julinho de Adelaide] durante algum tempo, até ser descoberto). Quando a resposta chegava finalmente, a letra tinha sido passada a pente fino e vinha cheia de cortes. Para outros autores, a resposta voltava no dia seguinte e muito provavelmente os censores nem liam. Então, o Paulo César Pinheiro pegou na letra de "Pesadelo" e colocou-a no envelope do disco do Agnaldo Timóteo. Foi dito e feito. A letra chegou aprovada no dia seguinte. Claro que estas aprovações não duravam muito tempo. Os autores foram muito rápidos, gravaram, prensaram os discos e distribuíram. A partir do momento em que o disco começou a ser vendido e ouvido pelas pessoas, o Governo mandou recolher os discos, mas não revogou a autorização da censura. Não quis assumir o erro. As emissoras de rádio também não passaram a música. A auto-censura é outra coisa interessante nessa história. Elas tinham um papel, dizendo que a música estava aprovada, mas sabiam que se a passassem iriam ter problemas.
Mesmo assim, tornou-se um hino de resistência, como conta a Telma Tvon ao apresentar o tema no Samba de Guerrilha.
Pois é. Os poucos discos que conseguiram circular acabaram espalhando a música por todo o país a ponto de chegar à Guerrilha do Araguaia [na região fronteiriça dos Estados do Pará, Maranhão e do atual Tocantins], a milhares de quilómetros de distância, que a adotou como hino da sua resistência até ao seu desmembramento [em 1974]. Nem o próprio Paulo César Pinheiro sabe como foi possível o disco cruzar o país até lá.
Recuemos agora ao teu segundo álbum, Bandeira, de 2017, para falarmos de "Ninguém faz festa", um tema extraordinário, que convida a uma reflexão muito importante e algo contraintuitiva: a festa não existe apesar do sofrimento e da adversidade, ela existe por causa desse sofrimento e dessa adversidade? Ela existe se o povo tem por que lutar?
Foi assim que eu aprendi. Essa música, "Ninguém faz festa", é a semente do Samba de Guerrilha. Ela surge de leituras que fui fazendo ao longo dos anos sobre a história do samba, principalmente os textos de um historiador que acompanho e que é uma influência muito grande, o Luiz Antonio Simas.
Que é o autor do texto do teu último álbum, Sabina (2023).
Isso mesmo. Ele tem um trabalho enorme e muito valioso sobre cultura popular no Brasil, cultura de rua, samba, macumba, carnaval. Esse é o assunto dele. E foi através dele que eu descobri essa perolazinha que transformei no "Ninguém faz festa". Na verdade, parafraseei uma frase que o Simas recupera de uma entrevista de um sambista, chamado Beto sem Braço. Quando o entrevistador lhe pergunta como é possível que o samba seja reconhecido como uma música de celebração, alegre e festiva, tendo nascido em comunidades muito pobres, miseráveis — o jornalista coloca a questão como uma contradição, um paradoxo —, ele dá uma resposta que, em poucas palavras, resume toda a história do samba: “O que espanta a miséria é festa.” É dessa pequena frase que surgem todos os textos do Samba de Guerrilha e é uma ideia central nos trabalhos do Luiz Antonio Simas: a festa não é uma celebração de alguma coisa que deu certo, da felicidade, do sucesso, da riqueza. Ela é uma invenção de alegria, uma estratégia de sobrevivência, porque é através da festa (que o samba catalisa) que se fortalecem os laços de amizade, de comunidade, a ideia de pertencimento a um lugar e se reconstroem os laços que foram quebrados pela experiência da escravidão.
É também uma forma de educação e de transmissão de cultura.
Sem dúvida, e isso fica ainda mais claro quando surgem as escolas de samba e elas começam a desfilar. Foi surgindo um género específico de samba, o samba de enredo, que é cantado para a escola desfilar e que sempre conta uma história. É um samba feito de encomenda pelos compositores daquela comunidade para que a escola desfile. A meio do ano é escolhido um tema — por exemplo, a Guerrilha do Ara guaia. Eles vão desenvolver todo o desfile em torno dessa temática, as roupas, as alegorias e os compositores vão escrever um samba sobre aquela história. Os sambistas vão pesquisar a história, vão escrever a letra e o samba vai ser cantado durante o ano todo até ao Carnaval. E isso se tornou um género muito específico de samba, com as suas convenções próprias, que existe até hoje. Esta semana terminou o Carnaval no Rio de Janeiro e cada escola de samba que passa é um capítulo de história que se conta. Personagens que a maioria das pessoas fica a conhecer por causa do desfile de Carnaval. É uma modalidade muito interessante de transmissão oral de conhecimento, uma atualização das tradições africanas que chegaram ao Brasil.
O Carnaval é, ele próprio, uma expressão da ideia de que “O que espanta a miséria é a festa.”
Sim, levada à máxima potência. Não só o Carnaval, mas todo o processo de preparação que dura um ano inteiro e que exige uma organização grande, uma coesão comunitária, uma disciplina até. Foi essa coesão que permitiu que essas comunidades mais tradicionais do samba sobrevivessem, que esta cultura sobrevivesse. Porque se dependesse do Estado brasileiro elas teriam sido dizimadas.
“A festa é uma invenção de alegria, uma estratégia de sobrevivência, porque é através da festa (que o samba catalisa) que se fortalecem os laços de amizade, de comunidade, a ideia de pertencimento a um lugar e se reconstroem os laços que foram quebrados pela experiência da escravidão.”
O que também contas no Samba de Guerrilha...
Sim, o plano da Praça Onze ou o plano de branqueamento do Brasil, com a imigração massiva de europeus [para ocupar os trabalhos que antes eram executados pelos escravizados]. Foram realmente políticas públicas de apagamento cultural e de apagamento físico. O plano falhou completamente, mas causou muito sofrimento. E o samba teve sempre esse objetivo de resistência contra esses ataques, de fortalecimento daquelas comunidades.
A Edinha Diniz, biógrafa da Chiquinha Gonzaga (neta de uma escrava e grande compositora, pianista e maestrina), salienta como as mulheres e os escravizados, os elos mais frágeis da sociedade, foram os grandes compositores e intérpretes da música brasileira. Mais uma vez, a resistência através da arte. Aliás, a Chiquinha Gonzaga também foi branqueada na ficção brasileira, em peças de teatro e na série de televisão em que foi interpretada pela Regina Duarte…
Pois é. Eu era criança, mas eu me lembro perfeitamente quando a série passou na Globo, que fez muito sucesso. A Regina Duarte era uma atriz muito querida pelos brasileiros, muito carismática, e é muito bizarro enxergar hoje no que ela se tornou e também nos darmos conta de como aquela representação da Chiquinha Gonzaga era completamente distorcida.
Isto na década de 90, não foi há muito tempo…
Pois não. Estes trabalhos de resgate identitário da cultura brasileira são relativamente recentes. Isto está a acontecer agora, à nossa frente.
Esta entrevista foi publicada na Revista Somos Livros (edição abril 2023). Leia aqui a segunda parte.