Poemas que nos falam de amor, de amores desencontrados e da ausência do ser amado, do silêncio que fica dessa ausência e da passagem do tempo, mas também da observação daquilo que nos rodeia. Com muitas referências históricas, literárias e a diversas formas de arte, sobretudo à pintura. É assim que descrevemos Uma Colheita de Silêncios, o novo livro de Nuno Júdice, um poeta que é uma referência na literatura portuguesa contemporânea.
Hoje, partilhamos consigo dois poemas desta obra.
Música
Transforma-se o ouvinte na música amada,
nas suas doces entoações, no campo de vogais
que pisa quando avança por entre os ramos
de consoantes que o vento toca como teclas.
E sente o som do nome converter-se em matéria,
só de o dizer para si próprio, vendo surgirem
as formas do corpo, as cores do rosto, o subtil
acordo das mãos num sonhado acorde de dedos.
Assim, do que é um fragmento de ouvido,
um vestígio de memória no ritmo do coração,
uma presença diluida no pensamento
que a derramou em puro amor, nasce
a música que a tua voz me trouxe quando,
verso após verso, imagem e desejo se juntaram.
Perguntas com Eco
A quem dizer um poema quando os ouvidos
estão ocupados com outras coisas? Dizê-lo
para os que andam demasiado depressa? Teria de ser dito
a correr; gritá-lo para os que se atastam? Cada verso
perder-se-ia no emaranhado de prédios e candeeiros. Então,
resta-nos ficar com o poema na cabeça, à espera
que alguém o peça e tenha todo o tempo, que não tem
de ser muito, para o ouvir com atenção.
No entanto, sei a quem poderia ser
dito: a poetas que queiram ouvir outras coisas
para lá daquilo que já conhecem; a quem precisa
de se reconhecer nos mundos que os poemas
descrevem; a quem sonha com as imagens que, de súbito,
um poema lhes revela; ou a quem descobre, no amor
de que os poemas falam, aquilo que, ele próprio,
sentiu, ao ouvir tudo o que viveu
em cada verso que é dito.
E há também os poetas que, ao ouvir
um poema, pensam no poema que irão escrever. E
assim, ao ler um poema que outros escreveram, tento ouvi
o eco desses poemas que eles ouviram, e sentir o que sentiram
ao ouvir o poema que lhes era dito.