Três poemas de Eduardo Pitta (1949 – 2023)

Por: Bertrand Livreiros a 2023-07-26 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

Eduardo Pitta

Eduardo Pitta

Eduardo Pitta (Lourenço Marques, 9 de agosto de 1949 – Torres Vedras, 25 de julho de 2023) foi um poeta, escritor, ensaísta e crítico. Desde 1974 publicou dez livros de poesia, um romance, duas coletâneas de contos, quatro volumes de ensaio e crítica, duas recolhas de crónicas, dois diários de viagem e o livro de memórias Um Rapaz a Arder (2013). O ensaio Fractura (2003), sobre homossexualidade na literatura portuguesa contemporânea, é considerado por Mark Sabine «the first history of Portuguese literary homosexuality». Poemas seus encontram-se traduzidos em inglês, castelhano, italiano, francês e hebraico. Tem poemas, contos e ensaios dispersos por revistas literárias de Portugal, Reino Unido, Brasil, Colômbia, Espanha, França e Estados Unidos. Participou em congressos, seminários e festivais de poesia em Portugal, Espanha, França, Itália, Grécia e Colômbia. Mantém desde 2005 o blogue Da Literatura. Estão publicados na Dom Quixote o volume da sua poesia escolhida, Desobediência, bem como a edição mais recente da trilogia de contos Persona.

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O escritor, poeta e crítico literário Eduardo Pitta, nascido em Moçambique em 1949, morreu terça-feira, 25 de julho, na sequência de um acidente vascular cerebral (AVC). Tinha 73 anos. "Tornou-se mais conhecido como crítico, cronista e depois também como escritor de alguma ficção. Mas ele tem uma obra poética que começou há muito tempo. Tem poucos livros, mas é uma poesia muito vigiada, muito exigente, de que gosto muito.” Quem o disse foi Pedro Mexia, poeta, cronista e ensaísta, em declarações ao jornal Público. É precisamente a poesia de Eduardo Pitta que hoje recordamos, para o celebrar.


 

Agora que as palavras secaram
e se fez noite
entre nós dois,
agora que ambos sabemos
da irreversibilidade
do tempo perdido,
resta-nos este poema de amor e solidão.

No mais é o recalcitrar dos dias,
perseguindo-nos, impiedosos,
com relógios,
pessoas,
paredes demasiado cinzentas,
todas as coisas inevitavelmente
lógicas.

Que a nossa nem sequer foi uma história
diferente.
A originalidade estava toda na pólvora
dos obuses, no circunstanciado
afivelar
dos sorrisos à nossa volta
e no arcaísmo da viela onde fazíamos amor.

Eduardo Pitta, in Marcas de Água
 

*********


Foi contigo que aprendi a cidade,
sílaba a sílaba,
pedra, aço e lascas de cristal.

A cidade dos pássaros interditos
na ocasionalidade
de um galho por acaso.

A cidade das buganvílias
violáceas de medo,
excrescentes de lirismo.

A cidade dos pães calcetados
e dos meninos que, de
fome, os apetecem.

A cidade das culatras
inevitáveis
para o alvo que lhes sobra.

A cidade protestada a prazo
de um dia
de nunca mais.

A cidade geometrizada
na infalibilidade
dos seus labirintos.

Foi contigo, foi.
Foi contigo que aprendi a amar
desordenadamente.

Eduardo Pitta, in Sílaba a Sílaba
 

*********


Está um rapaz a arder
em cima do muro,
as mãos apaziguadas.
Arde indiferente à neve que o encharca.
Outros foram capazes
de lhe sabotar o corpo,
archote glaciar.
Nunca ninguém apagou esse lume.

Eduardo Pitta, Desobediência, in Poemas Escolhidos (2011)

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