O escritor, poeta e crítico literário Eduardo Pitta, nascido em Moçambique em 1949, morreu terça-feira, 25 de julho, na sequência de um acidente vascular cerebral (AVC). Tinha 73 anos. "Tornou-se mais conhecido como crítico, cronista e depois também como escritor de alguma ficção. Mas ele tem uma obra poética que começou há muito tempo. Tem poucos livros, mas é uma poesia muito vigiada, muito exigente, de que gosto muito.” Quem o disse foi Pedro Mexia, poeta, cronista e ensaísta, em declarações ao jornal Público. É precisamente a poesia de Eduardo Pitta que hoje recordamos, para o celebrar.
Agora que as palavras secaram
e se fez noite
entre nós dois,
agora que ambos sabemos
da irreversibilidade
do tempo perdido,
resta-nos este poema de amor e solidão.
No mais é o recalcitrar dos dias,
perseguindo-nos, impiedosos,
com relógios,
pessoas,
paredes demasiado cinzentas,
todas as coisas inevitavelmente
lógicas.
Que a nossa nem sequer foi uma história
diferente.
A originalidade estava toda na pólvora
dos obuses, no circunstanciado
afivelar
dos sorrisos à nossa volta
e no arcaísmo da viela onde fazíamos amor.
Eduardo Pitta, in Marcas de Água
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Foi contigo que aprendi a cidade,
sílaba a sílaba,
pedra, aço e lascas de cristal.
A cidade dos pássaros interditos
na ocasionalidade
de um galho por acaso.
A cidade das buganvílias
violáceas de medo,
excrescentes de lirismo.
A cidade dos pães calcetados
e dos meninos que, de
fome, os apetecem.
A cidade das culatras
inevitáveis
para o alvo que lhes sobra.
A cidade protestada a prazo
de um dia
de nunca mais.
A cidade geometrizada
na infalibilidade
dos seus labirintos.
Foi contigo, foi.
Foi contigo que aprendi a amar
desordenadamente.
Eduardo Pitta, in Sílaba a Sílaba
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Está um rapaz a arder
em cima do muro,
as mãos apaziguadas.
Arde indiferente à neve que o encharca.
Outros foram capazes
de lhe sabotar o corpo,
archote glaciar.
Nunca ninguém apagou esse lume.
Eduardo Pitta, Desobediência, in Poemas Escolhidos (2011)