O que queres ser quando fores grande?
Quando for grande
quero ser vento, quero ser árvore, quero ser verbo
ter rios a correr-me no peito
ser longe, balão e nuvem, primaverar-me, ser andorinha
não temer o voo sem escala, o sonho sem rede
quero ser uma agitadora de rebanhos e morder desafios em dó maior
desinventar sombras e medos
regar as estrelas ao anoitecer e nunca sentir falta de mim
Quando for grande
quero iluminar as vírgulas, derrubar as paredes do pretérito
cantar vogais com a boca cheia de tempo, vestir metáforas em dias quentes
sair para a rua, estender poemas a secar no jardim
aquecer gargalhadas em lume brando, juntar-lhe sonetos e sol
engarrafar o cheiro a relva no meu boião de amanhãs
decretar banhos de mangueira
viver a cores como quem explode
fechar os olhos como quem sente
dançar vitórias como quem espera
Quando for grande
quero inventar feriados, andar descalça, bordar abraços
ser tarde, amanhecer-me, acordar-me, sacudir o pó das asas
beijar a tristeza na testa
usar suspiros nos lábios e flores dentro de advérbios
quero sujar-me na terra
Adultar-me tarde e chegar a mim sempre a tempo
quero ser maior, ser mar, descomplicar
fazer cócegas no absurdo, sem nunca arranhar a ternura
Quando for grande quero ser um acontecimento
Quando for grande quero ser tudo.